Nesta quinta-feira (18), em Franca, o Athletico-PR abre as quartas de final da Copinha e encara o Novorizontino, às 17h (de Brasília). E para buscar o título inédito, o Furacão não confia somente nos seus promissores jogadores, mas também em um outro protagonista que já é uma das sensações da atual edição: o técnico Caco Espinoza.
Aos 43 anos, o treinador está na sua segunda temporada à frente do clube paranaense depois de passar pela base do Corinthians e se inspira em algumas lendas para conquistar este, que pode ser o principal título da carreira até aqui.
E o sobrenome não é mera coincidência: Caco é sobrinho do lendário Valdir Espinosa, técnico campeão da CONMEBOL Libertadores de 1983 à frente do Grêmio e que deixou o futebol brasileiro com saudades em 2020, quando faleceu aos 72 anos. O tio, inclusive, foi seu professor no início da carreira, assim como Paulo César Carpegiani, que comandou o time histórico do Flamengo campeão do mundo em 1981.
O comandante do Furacão também possui uma outra curiosidade: cultiva uma amizade desde a infância com Ronaldinho Gaúcho, com quem jogou no Grêmio e até hoje mantém a proximidade.
Em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br, Caco Espinoza falou sobre a importância do tio na carreira e também contou abertamente sobre a relação com R10, que lhe rendeu, inclusive, um estágio no Barcelona de Frank Rijkaard, em 2004.
"Falar sobre o Espinosa é uma coisa que me alegra muito, um orgulho absurdo de carregar o mesmo sobrenome dele, de fazer parte da família Espinosa. Muito pelo que ele conquistou, pelo que ajudou o futebol, mas também pela nossa família ser muito do futebol. Isso é importantíssimo para a gente. Aprendi muito mais fora do campo até. Atitude, em como tratar as pessoas, como lidar com os jogadores, em sempre querer ter um ambiente bom, positivo, em se preocupar muito com a harmonia do grupo, claro, sempre mantendo o respeito, sempre mantendo a liderança. Isso é uma coisa que o Valdir fazia maravilhosamente bem. Além, claro, de dentro do campo ser um cara extremamente ofensivo, que sempre priorizava o ataque, que começava a montar as equipes e a estruturar as ideias na cabeça a partir do atacar. Essa é a principal parte que eu carrego comigo até hoje. Tive a oportunidade de trabalhar com ele algumas vezes, mas acho que a hora que eu mais aprendi era vendo o que ele estava fazendo, discutindo. O Valdir me ajudou demais no início da carreira, morei com ele no Rio de Janeiro um belo tempo e as discussões diárias, ficar vendo jogo junto, discutir futebol praticamente diariamente me ajudou demais", disse.
Amizade com Ronaldinho e estágio no Barcelona
Nascido no Rio Grande do Sul, Caco sempre teve o sonho de ser jogador de futebol, assim como muitos garotos no Brasil. E, aos 9 anos, a vida colocou no seu caminho Ronaldo de Assis Moreira, à época apenas um desconhecido na base do Grêmio, mas que se tornaria uma das maiores lendas mundiais.
E a relação com Ronaldinho não se limitava às quadras ou aos gramados. Isso porque ambos construíram uma verdadeira e consistente amizade.
"Conheci o Ronaldinho jogando futsal, já estávamos juntos no Grêmio. Foi jogando futsal e futebol de campo, tínhamos 9 anos ainda, começamos a jogar juntos. Foi a época que o Ronaldinho perdeu o pai, então a gente ficou bem próximo, convivíamos bastante juntos, costumo dizer que tinha uma época que ele ficava mais tempo lá em casa do que na casa dele, pela proximidade, eu morava próximo ao Olímpico e próximo ao ginásio onde treinávamos futsal. O meu pai era o nosso treinador, o sr. Cleo (Espinoza). Por diversas vezes o Ronaldinho não voltava para casa, ficava lá em casa com a gente, ou então já saía da escola e almoçava lá em casa, e de lá íamos para o Grêmio para depois à noite treinar futsal. Algumas vezes o meu pai levava ele em casa de volta, assim como fazia com todos os jogadores na época, todo mundo muito novo e com algumas dificuldades de locomoção em Porto Alegre, lá na Procergs, o time que o meu pai criou junto com outros amigos. Aí a gente foi aumentando a relação", disse.
"Hoje o Ronaldinho é o expoente dessa rapaziada toda que a gente convivia, mas era muita gente boa ali, uma galera muito inteligente que jogou com a gente naquela época, que hoje é engenheiro, médico, advogado, das melhores profissões que têm, mas com certeza ele foi o expoente disso tudo. E o fato da gente passar praticamente o dia inteiro juntos, férias juntos, o Ronaldinho ia para a nossa casa de praia também, em Capão Novo. Uma relação de amizade desde a infância, naquela época que ninguém pensa em nada, quer se divertir, jogar bola, que era a nossa maior paixão e ainda é. O Ronaldinho é da minha família, também me sinto membro da família dele. Sempre que estamos juntos a ideia de família é sempre lembrada, me sinto à vontade, mesmo com a família Assis Moreira sem o Ronaldinho, me sinto totalmente à vontade, assim como ele se sente à vontade na minha casa. Isso é motivo de muita alegria", prosseguiu.
Apesar de não ter conseguido o esperado sucesso como jogador, diferentemente de Ronaldinho, Caco permaneceu no futebol e seguiu os passos do pai e do tio Valdir, iniciando a carreira como treinador. E, em 2004, teve uma das experiências mais marcantes da carreira, e graças ao seu inseparável amigo.
À época no RS Futebol Clube, com Carpegiani, Caco propôs a Ronaldinho a possibilidade de realizar um estágio no Barcelona, seu clube na época. E a ideia saiu do papel. Na Espanha, Espinoza teve a chance de aprender com o técnico Frank Rijkaard e seu auxiliar, Henk ten Cate, além de ter convivido com outras estrelas daquele elenco, entre eles Deco.
"O Ronaldinho já craque, campeão do mundo pela seleção brasileira, no Barcelona, e eu iniciando a minha carreira como treinador, e veio a ideia. Eu estava de férias, trabalhava ainda no RS Futebol Clube, no time do Carpegiani, veio a ideia de tentar ver coisas novas, e aí peguei o telefone e liguei para o Ronaldinho na hora: 'você consegue falar com os caras aí, consegue alguma coisa para eu poder ver os treinos, para eu fazer um estágio, poder conversar com o pessoal'. Ele prontamente se colocou à disposição, devo ter ligado para ele por volta do meio-dia, à noite já estava praticamente tudo armado. Eu tive o prazer de passar um bom tempo lá, praticamente três meses, estagiando, vendo todos os treinos e tendo reuniões, tanto com o Frank Rijkaard como com o Ten Cate, que era o auxiliar. Tentando entender toda a estrutura da base do Barcelona, ainda não tinha o CT na época, ainda era no Camp Nou, no campo anexo", contou.
"Foi uma mudança brusca no meu jeito de ver o jogo, o futebol. Até então eu tinha muito a vivência da experiência convivendo com o meu pai e o Valdir Espinosa, que são referências para mim, e em termos de treinamento o que eu tinha vivido como aspirante a jogador, como um cara que tentou jogar, então replicava muita das coisas que eu via, que tinham feito comigo e muitas outras coisas que também já trabalhava com o Carpegiani na época, outro cara extremamente importante na minha formação e início da carreira, um cara que abriu as portas para mim e me ajudou demais. Mas, chegando no Barcelona, foi uma mudança como da água para o vinho. Uma maneira de treinar totalmente diferente, uma filosofia de jogo totalmente diferente, um time que não só jogava para atacar, mas também para dar espetáculo, e é uma coisa que eu valorizo muito. Foi uma mudança tremenda ver o Barcelona treinar, começar a entender as ideias deles e com certeza isso mudou muito a minha visão do jogo, sobre treino e acredito que até hoje isso faz diferença na minha carreira."
À época, Caco também acompanhou os primeiros passos de ninguém menos do que Lionel Messi no time principal do Barcelona. O argentino, hoje uma das maiores lendas do futebol mundial, à época fazia a transição do time B para o profissional e, apesar de ainda desconhecido, já impressionou bastante o técnico brasileiro. Inclusive, rendendo uma conversa com Ronaldinho, que o hospedou na sua casa durante o período de estágio.
"Nessa época me chamava atenção a qualidade dos jogadores. O Deco era um cara impressionante dentro do campo, que corria o campo todo e mandava praticamente no jogo todo, ele e Ronaldinho tinha uma conexão muito boa, se entendiam muito bem. Mas, claro, o cara que mais me chamou atenção, me lembro até hoje dessa cena, eu estava sentando na arquibancada do Camp Nou, era um pré-jogo, e eles fizeram um trabalho de posse de bola próximo ao círculo central, e eu me lembro que tinha um coringa nesse trabalho, um baixinho, canhoto, que eu não conhecia, e comecei a ver. Me lembro de acabar o treino, eu ficava na arquibancada, filmando e gravando todas as coisas que eu via, para depois me encontrar, principalmente, com o Ten Cate. Conversando com o Ten Cate, tentando entender as ideias e depois voltava com o Ronaldinho para casa, esperava ele fazer todas as funções que ele tinha de pós-treino, de fisioterapia, de academia, e aí na volta para casa, nessa época eu morei junto com ele", disse.
"Na volta eu perguntei quem era o cara, eu não o conhecia, me lembro até hoje da frase do Ronaldinho: 'gostei do seu olho, pelo jeito você tem o olho bom igual ao do seu pai'. Meu pai foi o primeiro treinador do Ronaldinho. Ele disse que era o Messi, um argentino, que adotei com meu filho, coloquei debaixo do braço, joga demais, acho que vai muito longe. Depois o Messi começou a treinar com o time principal, até então ele era do Barcelona B, comecei a acompanhar mais e realmente já dava para ver um futuro brilhante, ainda em 2004."
Estrutura do Athletico-PR
Segundo colocado do Grupo 2 da Copinha, o Athletico eliminou o Tanabi-SP nos pênaltis na segunda fase e em seguida despachou a Ponte Preta, após vitória por 2 a 1, na fase seguinte. Já nas oitavas, despachou o Grêmio por 5 a 3 e por isso terá o Novorizontino pela frente nas quartas. Se passar, encara Corinthians ou América-MG na semi.
E segundo Caco, uma das razões para o bom desempenho do Furacão, não só no sub-20, mas na base como um todo, tem relação direta com a qualidade da estrutura do clube paranaense.
"A estrutura é fenomenal. O Athletico não perde em nada para nenhum clube do Brasil, conheço um pouco dos clubes da América, e acredito que estejamos à frente de muita gente. Mais do que a estrutura física do Athletico, é a parte humana, são as pessoas que trabalham no Athletico e desenvolvem o trabalho. Hoje eu estou no topo da formação, muita gente vê como um trabalho do Caco, mas na verdade é o trabalho de muita gente. É o trabalho do nosso gerente, do nosso coordenador técnico, que nos ajudam demais e nos dão praticamente toda a liberdade de colocar as nossas ideias em prática. É preciso ressaltar a importância da nossa formação, desde o sub-10, sub-12, temos ótimos profissionais trabalhando na formação, não é à toa que chegam bons jogadores para a gente na última etapa da formação. Temos que valorizar muito a ideia do Athletico-PR, tem muito essa ideia de acreditar na base, na formação, e acho que isso é muito mais importante do que a estrutura. Não que a estrutura não seja ótima, ela é, mas não há uma estrutura sem bons profissionais, sem gente com boas ideias, senão não vale de nada"
