Sem nunca ter atuado por clubes no Brasil, Everton Camargo defende a seleção de Hong Kong, que enfrentará o Irã pela segunda rodada da Copa da Ásia nesta sexta-feira (19), às 14h30 (de Brasília), com transmissão pelo Star+. Até os 24 anos, o atacante sequer parecia que teria uma carreira como jogador profissional.
Quando era adolescente, no interior do Rio Grande do Sul, o atacante tinha sido dispensado após cinco meses na base do Juventude depois de sofrer uma lesão. Aos 18 anos, ele resolveu servir ao exército e deixou o sonho de lado por um tempo.
"Eu jogava futebol no exército e um empresário chamado Francisco me levou para fazer uma semana de testes no Internacional. Consegui a liberação, e o treinador gostou de mim. Entrei no segundo tempo de um amistoso contra o São José-RS e fui bem. O técnico pediu para ficar mais um tempo", disse ao ESPN.com.br.
"O presidente do Inter à época fez uma carta dizendo que tinha interesse em mim e pediu a minha liberação, mas o comandante do exército não liberou. Ele era torcedor do Grêmio. Acabei perdendo a oportunidade e me desmotivei em virar jogador profissional", recordou.
O atacante foi trabalhar com o pai, que tem uma empresa que lapida pedras preciosas. Além disso, jogava aos finais de semana no futebol amador e chegou a receber ofertas para se profissionalizar por times menores do Rio Grande do Sul e jogar o estadual.
"O problema é que não compensava porque conseguia um salário melhor com meu pai e não precisaria me mudar de cidade".
Com um filho pequeno e sem esperanças de virar um jogador, a vida de Everton mudou do dia para a noite em 2015. O atacante estava jogando na várzea quando foi visto por um empresário que trabalhava com exportação de pedras para a China.
"Ele me deu a chance de fazer testes, mas no primeiro time, o Wong Tai Sin, já fui aprovado. Como não havia sido jogador profissional, precisei fazer várias documentações. Conversei com a minha esposa e seria a minha última chance".
O jogador, que chegou em junho a Hong Kong, recebeu uma ajuda de custo do empresário até novembro, quando assinou o primeiro contrato. Apesar do salário ser baixo, era um dinheiro suficiente para o atacante se sustentar no país e ainda mandar um dinheiro para a família, que ficou no Brasil.
"Morava numa casa casa pequena com outro jogador e precisava pegar ônibus e metrô todos os dias para treinar".
Abriu mão do passaporte brasileiro
Apesar das dificuldades, Everton se destacou e foi no ano seguinte para o King Fung, um clube maior de Hong Kong, e trouxe o restante da família. O atacante ainda atuou por Yuen Long, Eastern e Lee Man, seu atual time. Depois de tanto tempo, ele se sente em casa na Ásia.
"Aqui é um local turístico e achamos muitas coisas do Brasil, apesar do preço ser bem mais alto. Meu filho estuda numa escola internacional e fala inglês fluente, que é algo gratificante".
Artilheiro da última edição da Premier League de Hong Kong, o atacante fez tanto sucesso que foi chamado para defender a seleção asiática.
"Quando cheguei tinham dois brasileiros na seleção e fiquei com um sonho de chegar lá. Depois de sete anos seguidos jogando por aqui, o treinador da seleção queria me convocar e troquei o passaporte. Foram quase seis meses porque precisava desistir da nacionalidade brasileira. Hoje em dia tenho só o passaporte de Hong Kong".
Em sete jogos pela seleção, ele anotou cinco gols.
"No primeiro jogo vi a torcida empolgada e gritando meu nome! Foi muito especial. É uma sensação muito boa porque quando entro em campo passam muitas coisas na cabeça pelas dificuldades que vivemos nos primeiros anos. Além disso, vem os momentos bons que passamos. Cheguei sem ninguém me conhecer e chegou a hora de dar o meu melhor por Hong Kong", contou.
Além de Everton, a equipe conta com outros três brasileiros naturalizados na disputa da Copa da Ásia: Juninho, Hélio Gonçalves e Stefan.
"A Copa da Ásia é como se fosse uma Copa do Mundo para os países que a disputam. A gente é a seleção com menor ranking da Fifa, mas cresceu muito no último ano. Tenho 32 anos e espero jogar por mais tempo e abrir mais portas".
No primeiro jogo pela competição, Hong Kong perdeu para os Emirados Árabes por 3 a 1.
Onde assistir a Hong Kong x Irã?
Hong Kong x Irã, válido pela segunda rodada da Copa da Ásia, terá transmissão pelo Star+, nesta sexta-feira (19), às 14h30 (de Brasília)
