Quando era auxiliar-técnico do Real Madrid, José Morais não esquece o dia em que foi chamado por José Mourinho para participar de uma reunião particular com o jovem Karim Benzema.
O atacante francês, que havia sido contratado como uma grande promessa do Lyon, não conseguia deslanchar no time merengue e por muitas vezes ficava na reserva do argentino Higuaín, que não vivia uma grande fase.

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"Benzema era um jogador muito querido tanto pela torcida quanto pelo presidente Florentino Pérez, mas não estava fazendo muitos gols", contou Morais, ao ESPN.com.br.
Mourinho queria fazer um pedido simples para o futuro astro. Por falar francês, o auxiliar serviu como tradutor da inusitada conversa, que ele relata a seguir.
"Você tem que fazer gols, né?", disse o treinador.
O jogador olhou fixamente para Mourinho e respondeu: "O Mister quer que eu faça gols?".
"Claro que eu quero que você faça gols. Está aqui para quê? Para fazer gols, é um ponta de lança", rebateu o técnico.
Benzema retrucou: "Então, ok. Se quer que faça gols, vou fazer".
José Morais conta que após a rápida conversa, o francês mudou completamente dentro de campo.
"Ele era um craque, mas não tinha bem a consciência do que se pedia. A missão dele era só fazer gols. Ele estava ali para jogar, mas fazer gols era algo secundário. Ele tem muita qualidade no toque de bola, na simplicidade como dribla e na visão de jogo. Ele criava as situações e depois entregava a bola para outros marcarem os gols".
"Depois desse momento, ele tomou consciência do que o treinador queria. E foi assim que começou, com essa simplicidade", contou.
O francês virou um dos maiores artilheiros da história do Real e um grande ídolo da torcida. Venceu muitos torneios, incluindo cinco edições da Champions League, além do prêmio de melhor jogador do mundo em 2022 pela revista francesa France Football.
Cerca de 12 anos depois da conversa que mudaria os rumos da vida do jogador, José Morais, atual treinador do Sepahan, do Irã, irá reencontrar Benzema, que defende o Al Ittihad, da Arábia Saudita. O duelo entre as equipes é válido pela Champions League da Ásia, terá transmissão pela ESPN no Star+, nesta segunda-feira (04), às 15h (de Brasília).
"O Karim é uma pessoa extraordinária. Tínhamos um relacionamento muito próximo e ficou uma amizade até hoje".
Além de Benzema, José trabalhou no Real com outro jogador do Al Ittihad: Fabinho. O volante brasileiro, que estava no começo de carreira, foi promovido ao time principal por Mourinho em 2013. "Lembro que ele era muito jovem e virou um grande jogador. Pude dar um abraço nele aqui no Irã".
Busto polêmico
Além do reencontro entre José Morais e seus antigos colegas de Real, a partida guarda uma história polêmica. No duelo de ida, que deveria ter sido realizado em outubro deste ano no Irã, o Al Ittihad se recusou a jogar por causa de um busto do general iraniano Qasem Soleimani, considerado um mártir pelo governo local e inimigo da Arábia Saudita. Ele foi morto em janeiro de 2020, em Bagdá, no Iraque, após um bombardeio ordenado pelos Estados Unidos.
As relações entre os iranianos e os sauditas têm problemas há muitos anos. Até pouco tempo atrás, os jogos entre os países eram realizados em campos neutros.
“O estádio tinha sido aprovado pela Federação Asiática de Futebol em uma vistoria. O busto está na saída do túnel do vestiário há muitos anos e ninguém disse nada. Na véspera do jogo eles treinaram e no dia do jogo nem se uniformizaram. Eles não queriam jogar. Eles foram embora do estádio antes do horário que o comissário cancelou o jogo. Por questões políticas, dizem que o jogo não se realizou. O futebol é para unir os países, para se competir de forma saudável”, lamentou.
Depois disso, foi decretada a vitória por 3 a 0 do Al Ittihad pela organização do torneio. Além disso, a equipe foi punida com um multa de 200 mil de euros e está impedida de fazer os três próximos jogos da competição no estádio. As partidas serão realizadas em Teerã, que fica cerca de 500km de Isfahan.
Apesar do incidente diplomático, o treinador acredita que não terá problemas para o duelo na casa do adversário. “Foi uma situação que não nos parece justa, mas precisamos dar o nosso melhor e enfrentar isso”.
Carreira como treinador
Nascido em Angola, José Morais fez carreira como jogador em Portugal antes de trabalhar nas categorias de base do Benfica e ser treinador da equipe B dos Encarnados. Além disso, foi assistente no time principal do técnico alemão Jupp Heynckes e de José Mourinho, no começo dos anos 2000.
Depois, treinou equipes na Tunísia, Arábia Saudita, Portugal, até voltar a trabalhar como auxiliar técnico de Mourinho - no lugar de André Villas-Boas - na Inter de Milão, em 2009. Ele seguiu o português por Real Madrid e Chelsea.
Em 2014, retomou a carreira para comandar Antalyaspor, AEK, Barnsley, Karpaty e Jeonbuk Motors, da Coreia do Sul. Ele chegou a ter o nome oferecido ao Vasco em 2020, mas o clube carioca acertou com Sá Pinto.
Depois disso, treinou o Al Hilal antes de chegar ao Sepahan na temporada 2022/2023. “Sou procurado no mercado asiático por ter conseguido títulos em clubes da região por ter passado por grandes times da Europa. Não conhecia bem o Irã, mas foi uma proposta interessante do ponto de vista esportivo”.
“Nós competimos contra as duas principais forças do pais: Esteghlal e Persepolis. Nós temos o apoio de uma das maiores fábricas de aço do mundo. Estamos crescendo e ficamos a um ponto de sermos campeões no ano passado. A tendência é melhorarmos porque a nossa equipe está mais forte. É interessante jogar a Champions League da Ásia”.
