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'La 12': quem são os temidos líderes da maior organizada do Boca Juniors?

Rafael Di Zeo e Mauro Martín em viagem ao Rio de Janeiro Reprodução/Facebook

Milhares de torcedores do Boca Juniors viajam rumo ao Rio de Janeiro para a grande final da CONMEBOL Libertadores no próximo sábado (4), contra o Fluminense – que terá transmissão ao vivo pela ESPN no Star+. Entre eles, estão os membros da temida “La 12”, a maior organizada do clube argentino, e mais especificamente seus principais líderes: Rafael Di Zeo e Mauro Martín.

Os dois estão em uma foto que foi publicada por Di Zeo em suas redes sociais, já a bordo de um ônibus (ver imagem acima). Foi também ele que escreveu, em tom de ameaça, resposta à notícia de que torcedores do Fluminense agrediram integrantes de “La 12” que já estavam no Rio na última segunda-feira (30). “Se querem guerra, guerra vamos lhe dar”, publicou.

Contra Di Zeo e Mauro já pesaram longa lista de acusações. Eles já foram presos, proibidos de entrar em estádios na Argentina, impedidos de visitarem outros países... Mas se livraram da maioria dos problemas com a Justiça e seguem liderando os fanáticos do Boca.

A dupla deu continuidade ao trabalho de José Barrita, o Abuelo, e transformaram a uniformizada em mais do que uma torcida, com diversas fontes de renda, tendo participação em praticamente tudo que movimenta dinheiro nos arredores da Bombonera.

Antigos inimigos, Di Zeo e Martín viraram aliados, em uma história tão cheia de meandros que virou até livro: "La Doce - a Explosiva História da Torcida Organizada Mais Temida do Mundo", do jornalista Gustavo Grabia.

Quem são Rafael Di Zeo e Mauro Martín?

- Rafael Di Zeo

Entre 1981 e 1994, "La 12" foi comandada por José Barrita, que transformou o que era uma mera uniformizada em uma espécie máfia. Nesse período, a torcida trocou as rifas e os churrascos de outros tempos por outras fontes de renda: da cobrança de estacionamento nas ruas ao redor da Bombonera a "doações" de empresário, dirigentes e até jogadores da equipe xeneize – uma prática numa admitida publicamente, mas os atletas que não contribuíam eram perseguidos pelos torcedores.

Em 1990, porém, Barrita foi preso, acusado de diversos crimes. Da cadeia, seguiu comandando a barra brava, mas viu sua saúde se debilitar e acabou morrendo em 1994, aos 48 anos, supostamente de pneumonia. O posto de líder de "La 12" ficou vago, mas acabou rapidamente ocupado por seu braço direito: Rafael Di Zeo.

O novo chefe da uniformizada, conhecido pelos cabelos brancos e pela brutalidade, deu continuidade ao trabalho do mentor e "profissionalizou" ainda mais a organizada. De 1996 em diante, "La 12" passou a se envolver cada vez mais em brigas violentas, em especial contra sua principal inimiga, a barra dos "Borrachos del Tablón", a maior do River Plate, além da polícia.

Em 2007, porém, Di Zeo foi preso por porte de arma de fogo em uma briga contra barras do Chacarita Juniors na Bombonera. Na cadeia, ficou amigo de Richard Laluz Fernández, conhecido como El Uruguayo, que viria a se tornar seu braço direito na prisão. Em 2011, Di Zeo foi liberado. Em março daquele ano, festejava seu aniversário na boate Cocodrilo com membros da organizada quando uma briga enorme aconteceu. Richard levou três tirou e por pouco não morreu.

Di Zeo foi apontado como mandante do crime (mas não autor dos disparos). Em julgamento realizado em 2014, o advogado do Uruguayo, que acabou em uma cadeira de rodas, pediu ao menos 12 anos de prisão para o chefe de "La 12".

Segundo relato do jornal Clarín, o barra brava passou toda a sessão mexendo no celular, sem prestar atenção alguma em advogados ou juízes. Ao final, levantou-se, cumprimentou os policiais um por um, chamando-lhes pelo nome, e deixou o tribunal sorrindo, como se soubesse que nada iria lhe acontecer. Em 2015, foi absolvido.

Foi o mesmo desfecho da maioria dos julgamentos que Di Zeo enfrentou na Argentina, um dos mais recentes em fevereiro de 2023, quando respondia por crimes que teriam sido cometidos pela “12” em 2013, ou seja, há dez anos – nesse caso, uma briga que acabou em mortes em um jogo entre Boca e San Lorenzo. A Justiça não conseguiu provas suficientes do envolvimento do líder da organizada no episódio, e ele pode assim, mais uma vez, voltar a frequentar estádios.

- Mauro Martín

Mauro Martín sempre foi um personagem de grande influência em "La 12". Tanto é que, quando Rafael Di Zeo foi preso, em 2007, imediatamente apontou o pupilo como novo líder. Os organizados aceitaram a ordem do chefe e passaram a seguir Martín com a mesma idolatria que tinha por Di Zeo... Sob sua liderança, tudo continuou na mesma com a torcida.

Obcecado pelo poder de comandar a maior e mais influente organizada do futebol argentino, Mauro decidiu que não queria largar o osso. Em 2011, quando Di Zeo saiu da cadeia, pediu ao aliado que lhe devolvesse o trono. Martín disse "não".

Começou aí uma verdadeira guerra pelo poder em "La 12", que culminou em um episódio assustador em La Bombonera, em 30 de outubro daquele ano.

Jogavam Boca Juniors e Atlético de Rafaela, pelo Campeonato Argentino. Quando Rafael Di Zeo entrou na arquibancada, foi recebido com um Messias pelos torcedores que haviam se mantido fiéis a ele. O problema é que outra parte da uniformizada ainda apoiava Mauro Martín como líder. Resultado: "La 12" dividida ao meio, com cada metade cantando juras de morte para a outra enquanto o jogo transcorria sem ninguém dar atenção.

Martín e Di Zeo foram parar no tribunal e proibidos de entrar no estádio até o final do ano, mas escaparam de punições mais graves.

A situação piorou no ano seguinte, quando sob mando de Rafael Di Zeo, atiradores metralharam um ônibus de "La 12" com Mauro e seus simpatizantes depois de um jogo do Boca na cidade Santa Fe. Martín foi atingido na barriga, e precisou ser levado às pressas a um hospital de Rosario, mas escapou da morte.

Não só sobreviveu como manteve-se arrumando problemas. Em janeiro 2013, Mauro foi preso, acusado pelo assassinato de Ernesto Cirino, vizinho de seu cunhado, que havia ocorrido em 2011 - o líder de "La 12" alega que não teve nada a ver com o crime, já que teria aparecido no local apenas para tentar acabar com a briga.

Entre problemas com a Justiça e proibidos juntos de frequentarem estádios, Martín e Di Zeo, após muita negociação, apararam arestas e entraram em um acordo sobre o comando de “La 12”. A chefia foi devolvida a Rafael, que deixou Mauro como seu "vice", acabando assim com a "guerra civil" que existia dentro da própria uniformizada.

Enquanto estavam proibidos de entrar em estádios na Argentina, eles acompanhavam o Boca in loco apenas em jogos como visitante, onde a proibição não é válida. Já foram, mais de uma vez, no entanto, proibidos de entrar em alguns países, deportados no processo de imigração. No próximo sábado, eles devem estar normalmente no Maracanã, juntos, como se tornou comum nos últimos anos, com Di Zeo e Martín vivendo como grandes amigos.

Uma incrível mudança para quem já tentou matar o “amigo” em muitas ocasiões...

Onde assistir a Boca Juniors x Fluminense pela Libertadores?

Boca Juniors e Fluminense se enfrentam no dia 4 de novembro, às 17h, no Estádio do Maracanã, pela decisão da CONMEBOL Libertadores, com transmissão ao vivo pela ESPN no Star+.

* Matéria atualizada. Publicação original em 16/05/2015