Quando Paolo Maldini ergueu para o Milan a taça da Uefa Champions League de 2003 no Old Trafford, em Manchester, o destino de Kaká parecia selado. Poucos dias após a final vencida sobre a Juventus, o brasileiro recebeu uma ligação de Leonardo, seu ex-colega de São Paulo e que ocupava um cargo na diretoria do clube italiano.
Há alguns meses, o cartola trabalhava para trazer o jovem ao Milan. No entanto, a notícia que ele trazia naquele telefonema estava longe de ser boa...
“Não vai acontecer. O time é campeão e tem o Rui Costa e o Rivaldo na mesma posição. O time está super bem e espero que surjam outras oportunidades”, disse Leonardo.
“Tudo bem”, respondeu Kaká, que procurou tentar não pensar mais no assunto.
Afinal de contas, o atacante, campeão da Copa do Mundo em 2002, era provavelmente o jogador mais cobiçado no Brasil.

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“Teve algumas especulações do Chelsea, mas naquele momento houve uma proposta do Bayer Leverkusen (da Alemanha). O São Paulo tinha um bom relacionamento porque tinha acabado de vender o França. Veio também a Inter de Milão através de um outro clube e fez uma sondagem. Eles vieram ao Brasil com o Brescia, os diretores se reuniram com meu pai e falaram que não seriam o clube final, mas não falaram qual era o time. Eu provavelmente ficaria uma temporada até sair, mas não veio uma proposta oficial”, contou Kaká, ao ESPN.com.br.
Algum tempo depois, o negócio deu uma reviravolta. O Milan, talvez ciente da forte concorrência, resolveu fazer uma proposta oficial ao São Paulo, e os clubes começaram a negociar. Uma operação bastante complexa que contou com a intermediação dos agentes Gaetano Paolillo e Wagner Ribeiro, além da família do jogador.
“O Ariedo Braida (diretor esportivo do Milan à época) queria um jogador jovem. O Léo disse que incentivou, mas não para ir direto ao Milan. Eu faria uma ponte no PSG antes, que ele tinha um ótimo relacionamento. A ideia era me emprestar e depois me trazer de volta”.
Pouco tempo antes, os franceses haviam vendido Ronaldinho Gaúcho ao Barcelona. Mas o destino de Kaká era mesmo ficar em Milanello. Com o vínculo com o clube do Morumbi estava chegando ao final, o jogador poderia assinar em pouco tempo um pré-contrato e sair de graça. No entanto, ele fez questão de deixar o clube que defendia desde a infância pela porta da frente. A venda rendeu 8,5 milhões de dólares, e o jogador abriu mão dos 15% a que teria direito pelo negócio.
Há exatos 20 anos, o Milan fez uma das maiores contratações de sua história...
Quase um desconhecido
Em uma época sem redes sociais e smartphones, Kaká chegou pouco conhecido pelo técnico Carlo Ancelotti e pelos próprios colegas do Milan.
“Teve esse impacto um pouco assustado, outro dia estava no Brasil enquanto esses caras estavam vencendo a Champions e agora estou aqui. Era uma época diferente não tinham tantas informações. Eles não me conheciam muito bem. Eu tinha jogado com o Maldini num amistoso do Real Madrid contra a seleção do mundo. Eles tinham um pouco de noção, mas não sabiam os detalhes que têm hoje”.
“Na minha primeira conversa com o Ancelotti: ‘Olha, a referência que me passaram é que você joga parecido com o (ex-volante) Toninho Cerezo’. Eu respondi: ‘Olha, mister sou um grande admirador do Toninho Cerezo, é um grande jogador. Sou torcedor do São Paulo e o vi fazendo grandes coisas lá, mas nossos estilos são um pouco diferentes, mas nos treinos o senhor vai entender isso’”.
O treinador demorou menos de uma semana para ficar impressionado com o novato durante uma atividade de ataque contra a defesa.
“Parti para cima do Nesta, consegui passar por ele e dei assistência para um gol. O Ancelotti contou que nesse treino viu que tinha um jogador diferente. O Rui Costa também falou disso, e teve alguns comentários que ficaram marcados”.
Com o destaque, Kaká foi escalado para fazer a primeira partida pelo Milan como titular na estreia do Campeonato Italiano contra o Ancona fora de casa. Os astros Rui Costa e Rivaldo começaram no banco de reservas, enquanto o jovem jogou o tempo todo na vitória por 2 a 0.
“Eu não sabia que jogaria até a véspera do jogo. Foi uma surpresa muito boa. Era a minha oportunidade e não faltava vontade. Não marquei gol, mas fiz um ótimo jogo. Ajudei na jogada de um gol e também dei um chapeuzinho no meio que é uma imagem que ficou marcada. Foi um jogo especial”.
Escalado no começo por Ancelotti como um meia aberto pela direita em uma linha de quatro meio-campistas, Kaká aos poucos se encontrou na posição que o consagrou.
“Na minha ignorância tática, eu ia muito para o meio, onde gostava mais de jogar. Eu pegava a bola e dava as minhas arrancadas. Ele gritava par marcar e não deixar buracos por algumas partidas. Até que ele entendeu que eu gostava de jogar no meio e ia bem, daí ele mudou o esquema. O meio-campo virou um losango com Pirlo atrás, Seedorf pela esquerda, Gattuso na direita e eu na frente. Isso demonstra a capacidade e a habilidade do Ancelotti. Ele fez isso em vários clubes. Sabe gerir as situações”.
'Não queria bater e voltar'
Era muito comum os jogadores brasileiros que iam para a Europa voltarem pouco tempo depois. Eles alegavam que tinham problemas para se adaptarem ao idioma, comida, frio ou até mesmo ao futebol. No entanto, Kaká contrariou todas a expectativas da época e se estabeleceu como titular, mesmo com uma forte concorrência.
“Eu coloquei na minha cabeça que mesmo que tudo fosse ruim eu queria ficar lá e viver essa experiência. Os caras da minha posição eram Rivaldo e Rui Costa, se tivesse a chance de treinar com esses caras, já seria um grande privilégio para o meu crescimento profissional. Morar em outro pais aprender outra língua. Foram exercícios mentais que fui fazendo até chegar”.
“Quando cheguei, a comida era maravilhosa e demorei um pouco mais para falar italiano porque tinham muitos brasileiros. Até que um dia o Ancelotti apelou: ‘Aqui você só fala italiano. Português só lá fora’. Isso me forçou a falar. O futebol fui me adaptando aos poucos e entendendo o jogo. Tinha essa vontade de jogar em um grande clube europeu e surgiu a chance. Não queria bater e voltar, queria fazer de tudo para ficar”.
Kaká não apenas permaneceu por seis temporadas, como virou um dos maiores ídolos da história milanista. Campeão italiano, da Champions e do Mundial de Clubes, o eterno camisa 22 foi eleito o melhor jogador do mundo em 2007 com a camisa rossonera.
O brasileiro foi vendido para o Real Madrid em 2009, mas voltou para o Milan na temporada 2012/13. No total, fez 307 jogos e anotou 104 gols pelo clube italiano.
