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'Tenho que trabalhar duas vezes mais': à ESPN, técnico do Maringá desabafa sobre racismo no futebol antes de encarar o Flamengo

O racismo, mesmo que diversas vezes atuando de maneira silenciosa, faz muitas vítimas, limita conquistas e faz sonhos terem fim durante o caminho por conta do preconceito. No futebol brasileiro, como forma de representação social, não é diferente. A desigualdade racial em sua forma estrutural é refletida nas oportunidades dadas a treinadores.

"Tenho que trabalhar duas vezes mais". Foi assim que Jorge Castilho, técnico do Maringá de 41 anos, classificou, em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br, a forma que o racismo o impacta. No entanto, crê em mudanças no futuro.

"Eu acredito que essa barreira vai ser superada. A dificuldade, ela existe. Eu não passei por isso. Minha carreira é jovem. Eu vejo, participo e apoio os treinadores. Vejo muitos técnicos negros com potencial. O problema é cultural. No futebol ainda existe esse preconceito. Mais por parte de quem contrata, porque se der respaldo, acredito que vão desempenhar", começou.

"Na minha carreira, eu falo para todos, para minha família, meus auxiliares que tenho que trabalhar duas vezes mais, estudar mais que todo mundo, porque infelizmente é um problema que o país vive", completou.

O reflexo é nítido. Dos 40 treinadores, somando as Séries A e B, não há nenhum técnico negro. Fernando Lázaro, do Corinthians, teve a saída confirmada do cargo na última quinta-feira (20).

Hélio dos Anjos era o representante na segunda divisão, mas deixou a Ponte Preta na última terça-feira (18), 10 dias depois de conquistar a Série A2 do Campeonato Paulista. A falta de oportunidades e sequência de trabalhos foi lamentada por Jorge Castilho.

"O Hélio (dos Anjos) já está há mais de 20 anos no futebol. Uma pena, é triste isso para nós, treinadores negros, não ter essa oportunidade por conta do preconceito. Para treinador ainda não foi tão aberto quanto já foi para jogadores com torcedores xingando."

'Enquanto não derem a devida importância, isso não vai acabar'

Para Jorge Castilho, o ponto central está na importância dada à causa e à impunidade. No entanto, o treinador, que fez história ao vencer o Flamengo por 2 a 0 na partida de ida da terceira fase da Copa do Brasil, crê que a realidade será diferente a longo prazo.

"Enquanto as pessoas não derem a devida importância para isso não vai acabar. Enquanto acharem que o negro não serve, 'ah, o goleiro não pode ser negro, porque goleiro negro não é bom'. Então, eu discordo, fico triste."

"Hoje, estou em uma cidade, se não me falhe a memória, que 3% da população é negra. Então trabalho em um clube que não tenho problema, na cidade também não. Meu elenco deve ter 90% de negros. Estamos aqui para quebrar barreiras, buscar espaço, sabendo que existe isso. Mas é o país que vivemos. Mas, aos poucos vamos conseguindo conquistar o espaço com muito trabalho, competência e honestidade. É isso que faz a diferença", finalizou.

Sonho pela Série A

Mesmo diante das barreiras que o racismo impõe diariamente a treinadores negros, Jorge Castilho sonha. Fazendo história no clube paranaense, o treinador deseja um dia chegar à elite do futebol brasileiro para marcar o nome e servir de espelho para outros treinadores.

"Objetivo de carreira é de chegar em uma Série A. Comandar uma equipe de Série A ou Série B. Estou feliz no Maringá, me abriu as portas, me identifico. Estou me preparando para que apareça oportunidade para bater uma Série A. Sonho de todo treinador que está no início de trabalho e comigo não é diferente. Buscar uma equipe de Série A, independente de ser grande ou intermediário. Mas é participar de um Campeonato Brasileiro."

O racismo no futebol

De acordo com a edição mais recente do "Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol", material divulgado pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol, foram 74 casos de preconceito somando os praticados no Brasil e no mundo em 2022. Desses, 64 foram em solo brasileiro, enquanto 10 foram cometidos no exterior.

Veja abaixo o detalhamento das vítimas:

  • 48 foram atletas

  • 3 foram árbitros

  • 10 foram torcedores

  • 6 foram funcionários de estádios ou membro de comissão técnica

  • 1 foi familiar de jogador

  • 2 foram integrantes da imprensa

  • 2 foram ex-atletas

  • 2 foram jogador de E-Sport e modelos negros de uma campanha publicitária no lançamento de uniforme de um clube