Ele achou que ia para o Palmeiras, virou um dos maiores ídolos da Inter de Milão e hoje é dono de quadra em São Paulo

Jair da Costa em ação pela Inter de Milão Alessandro Sabattini/Getty Images

As cores preto e azul pintadas nas paredes em uma quadra na cidade de Osasco, na grande São Paulo, representam uma ligação de 60 anos. Talvez as novas gerações que amam futebol europeu não saibam, mas o dono do local é um dos maiores ídolos da história da Inter de Milão. Jair da Costa guarda com carinho as histórias da incrível passagem de quase uma década pela Itália.

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Entre os muitos títulos que o antigo ponta revelado na Portuguesa conquistou, o mais marcante foi o da Copa dos Campeões da Europa (atual Champions League) em 1965. O brasileiro fez o gol do título na vitória italiana por 1 a 0 contra o Benfica, que tinha Eusébio, Coluna, Simões e Costa Pereira. As duas equipes se reencontram pelas quartas de final da Liga dos Campeões nesta terça-feira (11).

A Inter era a então campeã do torneio, mas sofreu para conseguir o segundo título seguido, debaixo de forte chuva no estádio San Siro, em Milão.

"O campo ficou bem alagado, mas nós tínhamos que jogar (risos). Eu estava tranquilo porque estava dando tudo certo para mim na Itália. Nosso time era ótimo, tinha nomes como Mazzolla, Corso, Suárez...", disse ao ESPN.com.br.

Aos 43 minutos do primeiro tempo, o time italiano fez uma jogada pelo lado direito, Jair recebeu passe de Sandro Mazzola e foi chutar. Com o gramado molhado, o brasileiro escorregou e o chute saiu mascado. No entanto, o arqueiro do Benfica levou um frangaço.

"Dei um 'chutaço', e o Costa Pereira foi tentar agarrar, mas a bola estava molhada e passou por baixo das pernas dele (risos). Esse gol mudou tudo na minha vida. Eu estava no céu! Ia para os restaurantes e não me deixavam pagar a conta, recebia vários presentes do presidente Angelo Moratti. Éramos o principal time da Itália", disse Jair.

Pela Inter, o brasileiro venceu quatro Italianos, duas Copas dos Campeões e dois Intercontinentais. Além disso, teve a chance seguir os passos de José Altafini, que se naturalizou italiano e defendeu a Azzurra.

"Fui convidado pela federação para jogar pela seleção italiana, mas não aceitei", revelou.

'Era o campeonato que faltava ganhar'

Jair começou a carreira na Portuguesa e fez muito sucesso no Canindé. Em 1962, ele foi reserva de Garrincha na conquista brasileira da Copa do Mundo no Chile. Pouco tempo depois, o ponta mudou-se para a Itália após receber um inusitado convite de um diretor do Palmeiras.

Jair achou que iria para o Verdão, mas ao chegar no Parque Antarctica, descobriu que a verdadeira interessada era a Inter de Milão.

"Eu ouvi uma história que o Milan pensou em me contratar antes, mas eles não quiseram. Saíram perdendo (risos)", disse.

O ponta aceitou a proposta nerazzurri e mudou-se sozinho para Milão. No começo, para adaptar-se ao novo país, contou com a ajuda de Dino Sani, campeão do mundo pela seleção em 1958, que jogava pelo rival Milan.

"Eu morava a uns 500 metros da casa dele e muitas vezes almoçava ou jantava com a família dele (risos)".

A maior dificuldade que Jair enfrentava naquela época era a saudade de casa. Em uma época sem internet, o brasileiro precisava gastar um bom dinheiro em conta de telefone para falar com a família que estava no Brasil.

"Fui bem recebido e não tive problemas dentro de campo. Os companheiros me ajudaram muito. Os gols foram saindo e fizemos amizade logo. Os italianos chegavam duro, mas eu era rápido, né? (risos)".

Jair conta que não falava italiano e demorou cerca de três meses até conseguir se comunicar com os colegas. "Não tinha brasileiro no meu time e eu precisava me virar. Não tinha escolha".

Logo na primeira temporada, o ponta venceu o Campeonato Italiano. No ano seguinte, faturou a Copa dos Campões ao derrotar na final por 3 a 1 o poderoso Real Madrid, que tinha nomes como Di Stéfano, Puskàs, Gento e Santamaria.

"O Real era um 'bicho-papão'. Era um timaço, mas que já estava um pouco envelhecido e a gente corria demais, era um time muito veloz. Nós estávamos muito bem. Para nós era o principal torneio, todo mundo na Europa queria ganhar. Teve um festão depois na comemoração".

Após ter um problema com lendário técnico argentino Helenio Herrera, Jair da Costa foi em 1967 para a Roma. No entanto, voltou uma temporada depois para a Inter e ainda venceu mais um Campeonato Italiano antes de sair do país, em 1972.

O ponta voltou para o Brasil para defender o Santos de Pelé, pelo qual ainda venceu o Campeonato Paulista de 1973 na decisão contra a Portuguesa. Após um erro na contagem dos pênaltis do árbitro Armando Marques, o título foi dividido entre a Lusa e o Peixe.

"Era o campeonato que faltava ganhar na minha carreira", explicou.

Depois de pendurar as chuteiras, Jair montou uma quadra em Osasco e teve uma escolinha de futebol para crianças. Aos 83 anos, o ídolo nerrazzurri conta que só voltou uma vez para a Itália, na década de 80, para uma festa da Inter de Milão.

"Quando encontrei meus amigos por lá foi muito legal! A Inter foi tudo para mim, assim como a Portuguesa e o Santos. Sempre que posso eu vejo os jogos da Inter pela televisão".