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Atletas transplantados se unem no Brasil sonhando com Jogos Olímpicos, apoio e conscientizar sobre doação

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Atletas transplantados contam início no esporte e movimento que quer unir grupos e incentivar a doação de órgãos (7:58)

Neste ano, eles disputam a segunda edição dos Jogos Brasileiros para Transplantados, em Curitiba. Ano que vem tem os Jogos Mundiais na Austrália (7:58)

Evento esportivo em Curitiba reúne atletas de várias partes do Brasil com uma missão mais nobre do que vencer: é a mensagem sobre a importância de doar órgãos e salvar vidas.


A partir dessa sexta-feira, 2 de setembro, cerca de 60 atletas de diversas cidades do Brasil vão se reunir em Curitiba para três dias de competição esportiva. Eles não fazem parte do grupo de alto rendimento nem paralímpico. Na verdade, eles formam uma terceira comunidade e tem uma missão específica e nobre.

“Nós somos atletas transplantados e temos como objetivo falar sobre a doação de órgãos. Um segundo objetivo é colocar as pessoas em atividade física, mostrando que é possível uma pessoa que recebeu um órgão ter vida normal, ativa e com qualidade”, disse Ramon Lima, 43.

Professor de educação física no ensino público em Curitiba, ele é presidente da Liga de Atletas Transplantados do Brasil, fundada em janeiro deste ano, para representar esse grupo.

“Temos 20 atletas, mais ou menos, e já percebemos um movimento que nos busca. A ideia é que mais pessoas se unam a nós para que a causa cresça e a gente represente o Brasil de maneira digna”.

Ramon é um exemplo prático do que a Liga quer. Após um quadro de insuficiência renal, ele recebeu um rim, em 2020. Seis meses depois já estava competindo em provas de pista e de rua.

Neste fim de semana, ele vai participar pela primeira vez dos Jogos Brasileiros. A ideia é chegar mais longe e conseguir recursos para ir os Jogos Mundiais, na Austrália, ano que vem.

“É o World Transplating Games, que a gente chama carinhosamente de Olimpíada. São jogos de celebração da vida. Onde eles ocorrem há um impacto relevante na conscientização sobre a doação de órgãos”, disse Cornelis Poel, 47, engenheiro mecânico e vice-presidente da Liga.

Ele está há mais tempo no grupo de transplantados. Recebeu um fígado em 31 de dezembro de 2018 após quase dez anos sofrendo com uma doença lenta e perversa. Chegou a perder massa muscular e paladar, além de conviver com dores fortes e contínuas. Tudo mudou com a cirurgia.

“Dias depois eu senti vida novamente no meu corpo. Voltei a sentir o sabor dos alimentos. Deixei de ter aquela coloração amarela na pele e parei de sentir dor. Aí fui para o esporte. Me encantei com o triatlon. Hoje nado 2.000 km, pedalo 30 km e corro mais de 10 km nos meus treinos”, disse.

No cenário mundial, além dos Jogos Mundiais desde 1978, existem os Jogos de Inverno desde 1994 e os Jogos Latino-Americanos, que tiveram em 2018, na cidade de Salta, a nona edição. Uma prova de que a Liga brasileira para transplantados é um passo importante para encurtar a distância.

“Em termos esportivos, a Espanha e o Reino Unido são muito fortes. Têm uma comunidade muito organizada. Se a gente olhar os nossos vizinhos, a referência é a Argentina. Eles têm uma associação formada há muito tempo, já sediaram um Mundial [2015]”, disse Ramon.

Um campeão contra a leucemia

Renato Couto Deodato é um expert no assunto. Hoje, aos 57 anos, ele coleciona medalhas em casa e tem uma rotina puxada: treina corrida de três a quatro vezes na semana sem treinador.

Em 1994, ele nem conseguiria imaginar isso. Foi quando recebeu o diagnóstico de leucemia mieloide crônica, um tipo raro de câncer no sangue. Junto veio outra notícia dura.

“A assistente social me disse que eu poderia sobreviver, mas que eu teria de receber uma doação de médula óssea. Caso contrário...”, disse Renato à reportagem.

O primeiro desafio foi um doador. Ele buscou nos quatro irmãos, e o único compatível foi o caçula Edson, justamente o que tinha mais medo da sala de cirurgia. O outro desafio era estrutural.

“Eu fui o quarto paciente da fila de transplante no Hospital Santa Marcelina, na zona leste. Na época, eles estavam começando a construir alguma coisa, e você olhava para trás e não tinha referências. Eu me lembro que o primeiro transplantado tinha falecido. O segundo estava mal. O terceiro era uma menina que ainda não tinha resultados. Aí vinha eu”, disse Renato.

O cenário daquela época em nada se compara ao atual, com mais recursos e mais informação. A cirurgia de Renato deu certo. Alguns anos depois, em 2001, ao buscar uma atividade física ele acabou descobrindo na prática do esporte um alimento para a saúde e para a alma.

“Não tinha como bancar um técnico, uma academia, nada. Aí desenvolvi um método de treinos e deu certo. Participei da São Silvestre, de provas de ruas e dos Jogos para Transplantados”, disse.

Neste último, ele foi o campeão nos 200 m rasos e também da corrida de rua (6 km). Ganhou também medalha de prata na natação (costas) e a de bronze nos 100 m rasos.

“Meu objetivo é estar na Olimpíada no ano que vem, mas é difícil. Não tem patrocínio para a nossa causa. Hoje, a gente é que arca com nossas próprias despesas. O surgimento da Liga é esperança para mudar isso e também para que mais gente entenda a nossa mensagem sobra a doação”.

Em nome do amor

A advogada Luciane de Lima, 43, também acumula títulos. Nos Jogos Brasileiros de 2019, ela foi campeã nos 400 m rasos e nos 800 m rasos, e prata nos 100 m e nos 200 m. Há uma semana, ela e o marido, Antônio Carlos Lisboa, 52, foram disputar uma prova na neve no sul da Argentina.

Dez anos atrás se alguém dissesse que ela deixaria o calor de Sorocaba, onde eles moram há sete anos, para enfrentar temperaturas glaciais, Luciane provavelmente riria desacreditada.

Em 2013, ela foi diagnosticada com insuficiência renal, o que mudou completamente a rotina da família. Eram sessões de hemodiálise durante a semana e a torcida por um novo rim.

De cara, cinco candidatos estenderam a mão para ela. Os três irmãos, um primo e também o marido, que “corria por fora” por não ter parentesco sanguíneo.

“A chance de compatibilidade nesses casos é de uma para cem mil”, disse Luciane.

“Eu não queria saber. Ela é tão especial para mim que o rim é pouco. Eu daria meu coração se ela precisasse, literalmente. Romanticamente, já é inteiro dela”, afirmou Antônio Carlos.

A rotina nessa época era bastante dura. Luciane morava em Apiaí, pequena cidade do Vale do Ribeira, e encarava mais de três horas para fazer hemodiálise em um hospital em Botucatu.

“Para piorar, de repente ela ficou sem doadores. O irmão caçula e o primo foram descartados por terem menos de 30 anos. O irmão do meio foi trabalhar na República Dominicana e ficou difícil pela distância. Um exame apontou um ponto branco no meu rim e fui barrado pelos médicos. Já meu cunhado descobriu um problema de cálculo renal e foi proibido”, disse Antônio Carlos.

Luciane sentiu tristeza com a notícia, embora o marido continuou dizendo que ele seria o doador. Em uma das idas ao hospital ele pediu o laudo do exame para entender o tal “ponto branco”.

“Inicialmente só tínhamos a imagem, e achavam que era um cálculo renal. Com o lado em mãos, a médica viu que aquele pontinho branco era um pequeno cisto. Não havia problema”, disse.

Antônio Carlos podia doar o rim à esposa. A notícia deixou todos emocionados, e o casal passou a enxergar a própria história como um milagre. Relembraram o início do namoro, quando ela morava em Apiaí, e ele em São Paulo, e tudo começou numa conversa em um chat na internet.

Aquilo foi no final dos anos 90, quando o acesso à internet era difícil e caro no país. Os recursos também eram precários. Tinham de dividir o computador com outras pessoas e para enviar uma simples foto ao outro era necessário um Scanner. Após alguns meses, Antônio Carlos encarou quase cinco horas de estrada para conhecer Luciane. O namoro começou no primeiro encontro.

“Não tem como não pensar que toda essa história ocorreu por vontade de Deus. Só ele para nos juntar diante dessas circunstâncias e colocar meu marido como meu doador”, disse Luciane.

“Que as pessoas se colocam no meu lugar. Fui doador, vivo bem, não tenho restrições e prático esportes. Mais do que isso: a doação possibilitou que eu salvasse uma vida preciosa para mim. Hoje em dia eles têm um grupo de transplantados que não vão competir para ganhar prêmios. Eles se reúnem nos Jogos para celebrar a vida”, disse Antônio Carlos, que vai competir nos Jogos Brasileiros na categoria estreante reservada a doadores.

Missão nobre

A doutora Luciana Haddad faz parte da equipe de transplante de órgãos do aparelho digestivo do Hospital das Clínicas e também é vice-presidente da ABTO (Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos). Ela atendeu a reportagem para dar um panorama atual da fila de doação.

“A gente ainda tem um deficit importante frente a nossa necessidade. Embora o Brasil realize um número significativo de transplantes por ano, afinal é um país populoso e tem um sistema de transplantes muito forte e organizado, ainda não atendemos nossa necessidade”, disse.

De acordo com ela, a pandemia do novo coronavírus foi um baque maior no sistema, com a redução de doadores. O momento atual tem sido de retomada, mas é preciso conscientização.

Dados recentes da ABTO mostram que no Brasil cerca de 55 mil pessoas estão na fila de espera de doação. Só no ano passado mais de 4.000 pessoas morreram sem conseguir o transplante.

Para mudar essa realidade, uma simples atitude pode ajudar.

“O caminho para ser um doador no Brasil é simples. Converse com seus familiares porque no país quem autoriza a doação de órgãos é sempre um familiar. A gente tem uma taxa de recusa muito alta. Ano passado 46% das famílias não autorizaram o transplante”, disse Luciana Haddad.

Quem quiser fazer mais pode consultar o site da ABTO ou as redes sociais da Liga de Atletas Transplantados, que está empenhada nessa missão para ajudar, quem sabe, futuros campeões.