"Só fizeram daquele jeito por eu ser negro", disse Vinicius Leandro, do Real Noroeste, após prisão em campo no último fim de semana. Comando da polícia garante que motivo foi desacato por xingamento
O jogo Real Noroeste x Nova Venécia no Espírito Santo, pela Série D do Brasileiro, marcou o último fim de semana. É que o zagueiro Vinicius Leandro foi preso e algemado ainda dentro de campo e levado para a delegacia no camburão por desacatar policiais. Em entrevista ao ESPN.com.br, o jogador reclamou da maneira como foi detido e disse que o ocorrido só aconteceu por conta da cor de sua pele. "Só fizeram daquele jeito por eu ser negro", afirmou.
A reportagem entrou em contato com a polícia de Nova Venécia e recebeu a informação de que o motivo da prisão é comprovado por documentos e depoimentos registrados no Boletim de Ocorrência.
O duelo em que aconteceu a prisão de Vinicius Leandro, do Real Noroeste, foi válido pela sexta rodada da Série D, a quarta divisão do Brasileiro. Após um jogo cheio de polêmicas, o time do defensor acabou derrotado por 2 a 1, e a confusão se iniciou.
Com base em vídeos e fotos do momento da detenção, é possível ver um desentendimento entre o atleta e os agentes de policiamento que faziam a proteção da equipe de arbitragem após o apito final. Neste momento, o atleta teve sua detenção realizada e foi direcionado para a delegacia.
Prisão aconteceu por conta da cor da pele
Segundo os documentos da detenção do jogador, que assinou o B.O., o motivo de tudo foi um desacato aos policiais que estavam em campo. Porém, Vinicius Leandro disse à ESPN que o desacato nunca ocorreu. "Em nenhum momento eu xinguei ninguém ali. Só queria cumprimentar a arbitragem, e ele (policial) veio com força abusiva para cima de mim."
Questionado sobre a documentação do caso que, reforçando, está assinada por ele, o jogador foi direto na explicação. "Eles me levaram para a delegacia, me deixaram lá por horas e me disseram que a única forma de eu sair de lá era assinando o documento. Por isso eu assinei. Tinha jogado, estava lá há umas horas e só queria ir para a minha casa", argumentou.
O que diz a polícia sobre o ocorrido
A reportagem da ESPN entrou em contato com a polícia da cidade de Nova Venécia, no Espírito Santo, e conversou com o tenente-coronel Mario Marcelo Dal Col. Segundo ele, a prisão do jogador foi feita apenas por conta do desacato. O oficial também falou sobre a possibilidade de ação ter sido tomada por racismo, como alegou o jogador.
"Ele foi detido por desacatar uma autoridade. O documento assinado pelo próprio atleta confirma isso. Ele xingou o policiamento e foi direcionado para a delegacia. O fato de ele ter sido algemado se deu pelo fato de ele estar alterado, e o vídeo da situação prova isso também", disse Dal Col.
Que seguiu: "Além disso, existe uma alegação do policiamento que o atleta teria sugestionado que a prisão era pela questão racial, o que eu não consigo garantir ainda. Será realizada uma investigação para tentar entender tudo o que aconteceu, se houve abuso de força na forma como ele foi levado para o carro. Vamos averiguar tudo e levar até o fim para entender e definir o que precisa ser feito."
E agora?
Agora, alguns dias após o acontecido, Vinicius Leandro busca pensar um pouco sobre o futuro.
"A data vai ficar marcada, não tem como. Pela forma como aconteceu, vai ficar marcada. Sei que não me define, por tudo que eu sou como marido, pai, filho, irmão, amigo e jogador, mas não tem como esconder que vai ficar marcado. Os advogados do clube estão analisando a situação para que seja tomada a melhor decisão, mas a data vai ficar marcada, sim".
O tenente-coronel da polícia também garantiu que o caso será levado até o fim para que tudo seja esclarecido.
"Sabemos que ele vai levar a situação até o fim e nós, como polícia, também iremos. Posso te garantir que não acabará nessa conversa, em pouca análise. Vamos atrás de tudo para que as pessoas responsáveis pelo ocorrido sejam penalizadas, se for preciso. O que posso te garantir é que a forma como tudo aconteceu me fez pedir uma reunião e mudar as coisas que a gente fazia nas partidas. Não pode voltar a acontecer."
