Conheça a história de Jonathan Calleri, da base até o retorno ao São Paulo
Guillermo Calleri não foi um grande atacante. O máximo que conseguiu na carreira foi vestir a camisa do All Boys 12 vezes em jogos da terceira divisão argentina no início dos anos 1990. Marcou dois gols. Mas o futebol e a vida dão muitas voltas.
Anos mais tarde, já na função de técnico do ‘Baby’ (categoria equivalente ao ‘fraldinha’ no Brasil) do Clube Atletico Mitre, Guillermo ouvia as reclamações da mulher, Bettina, para que escalasse o pequenino filho Jonathan entre os titulares.
Jony começou a ter chances anos mais tarde, quando o pai voltou ao All Boys para treinar a base. Mas o menino foi crescendo e passou a ser treinado por outros profissionais. Tinha pouca chance pelo mesmo motivo: ainda era considerado sem porte físico. Ironias do destino. Calleri tem hoje 1,81m e pesa 81 quilos.
Naquele período, Jonathan não era um centroavante, mas um ‘ponta de lança’ que jogava por trás do camisa 9. Foi a chegada de um técnico famoso que mudou sua história. Julio Cesar Falcioni ficou pouco tempo no All Boys, mas o suficiente para mover Calleri até a área e indicar sua contratação ao Boca Juniors.
O Xeneize tinha crédito junto ao pequeno clube de bairro de Buenos Aires e assegurou uma futura compra ao adquirir dez por cento dos direitos de Calleri por US$ 300 mil sem precisar mexer em seu cofre. No campeonato de 2014, apesar do rebaixamento do All Boys, Calleri fez gols contra o River Plate e o próprio Boca. Meses mais tarde, Carlos Bianchi pediu a efetivação de sua contratação.
Muito tímido e desconfiado, Calleri teve dificuldades de adaptação ao Boca e pensou em deixar o clube, mas aos poucos os caminhos foram se abrindo. O titular Gigliotte foi vendido para a China e seu substituo, o polêmico Daniel Oswaldo, não deu certo. A posição de centroavante ficou para o menino descoberto no All Boys.
Para a segunda metade da temporada de 2015, ele ganhou um presente: a parceria de Carlos Tevez, que voltou à Argentina para espanto do futebol europeu após ser vice-campeão da Champions League com a Juventus. Com os dois comandando o ataque, o Boca faturou campeonato e a Copa da Argentina. Calleri apareceu para o mundo marcando vários gols, um deles de letra aplaudido simplesmente por Maradona das tribunas da Bombonera.
Boca, conto de fadas no São Paulo e ida à Europa
Um centroavante de sucesso no Boca repercute no Velho Mundo. Surgiram vários rumores de propostas para transferências. Um deles dava conta do interesse do Chelsea, à época de José Mourinho. A saída era inevitável, e Calleri foi vendido.
Mas o time que o comprou não foi nenhum grande europeu, e sim um grupo de investidores. Aí pode estar um dos motivos para o fracasso de Calleri em sua aventura pelas maiores ligas do mundo. Seus direitos econômicos ficaram ligados ao pequeno Deportivo Maldonado, do Uruguai. Como o mercado europeu estava fechado, ele foi emprestado ao São Paulo por seis meses e viveu um romance com a torcida tricolor: nove gols marcados em 12 jogos de Conmebol Libertadores e mais três nas cinco partidas do Brasileirão que disputou. Era um grande atacante num clube grande que lhe dava chance de brilhar.
Mas o conto de fadas terminou, e a realidade que viria a seguir era bem diferente. Calleri partiu para a Inglaterra não como o ativo de um grande clube, mas emprestado ao West Ham - que na época brigava contra o rebaixamento. Marcou apenas um gol nos 19 jogos em que esteve em campo pela equipe londrina. Nunca chegou a ser titular absoluto. Sua média foi de 41 minutos em campo por duelo. Finalizou 21 vezes, uma a cada 37 minutos. Difícil brilhar assim.
Peregrinação na Espanha
Pior foi quando, no ano seguinte, Calleri acabou emprestado ao Las Palmas, da Espanha. Ele ganhou minutos e fez mais gols (12 em jogos oficiais), mas o clube acabou rebaixado. Foi então para um ano no também espanhol Alavés, no qual deixou nove gols em 34 pelejas. O time terminou em 14º lugar, e Calleri seguiu para o Espanyol: lá, anotou apenas cinco gols e viu a equipe ser rebaixada ao terminar a temporada em último lugar. A parada seguinte foi o Osasuna, com mais seis gols marcados e a honrosa (porém despretensiosa) 11ª posição.
Uma jornada sofrida por clubes pequenos da primeira divisão espanhola tirou Calleri do caminho do sucesso internacional e o afastou da seleção argentina. Sua participação na albiceleste também não ajudou. Marcou apenas um gol nos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, quando a Argentina se viu eliminada precocemente na primeira fase.
Aos 28 anos, Calleri ainda tem muito futebol pela frente. Os misteriosos empresários que o contrataram perderam dinheiro. Não vão mais recuperar os 14 milhões de euros que pagaram ao Boca em 2016. Mas o que realmente sofreu com o negócio foi a carreira do artilheiro, mal conduzida pelos seus investidores.
Ufa, uma decisão correta
Ano passado, enfim, uma decisão correta: a volta ao São Paulo. Clube estrangeiro em que foi mais feliz. Os números provam que Calleri e a agremiação tricolor têm um casamento perfeito. São 18 gols marcados desde a sua reestreia, em setembro do ano passado contra o Atlético-MG. A melhor média (0,45) desde que saiu do... São Paulo.
Se olharmos apenas o ano-calendário de 2022, a média sobe para 0,66 gol por jogo. Calleri não ficou mais do que três jogos sem balançar as redes. Lidera a artilharia do Campeonato Brasileiro com seis gols, marca superior aos 4,36 esperados pelo Wyscout na métrica XG. É o homem-gol de que o time tanto sentiu falta ano passado.
O bom momento tem feito com que os olhares se voltem para ele na Argentina em ano de Copa do Mundo. A ‘Scaloneta’ (apelido que a seleção treinada por Lionel Scaloni ganhou após a conquista da Copa América de 2020) não tem um camisa 9 com o porte dele. Uma boa temporada no São Paulo pode fazê-lo ser lembrado pelo técnico.
Quem também não encontrou ainda seu 9 é o rival tricolor deste domingo (22). Aliás, desde que voltou ao Brasil, Calleri marcou dois gols contra o Corinthians, e o São Paulo ganhou os três duelos disputados. Por isso, o centroavante pode ser o diferencial do clássico. Ajudar o São Paulo a conquistar a primeira vitória na Neo Química Arena seria um passo importante na reconstrução de sua carreira. Papai, o ‘viejo’ Guillermo Calleri, estará de olho.
