Conheça algumas das melhores histórias de Vanderlei Luxemburgo, que completa 70 anos nesta terça-feira
“Não adianta, estão me dando porrada e cobrando de mim. Estão falando um monte, mas eu sou como vara de marmelo: eu envergo, mas não quebro, p***!”
Essa frase acima dita por Vanderlei Luxemburgo aos jogadores do Palmeiras nos anos 90 pode resumir bem um dos maiores técnicos da história do futebol brasileiro em seus 70 anos de vida, completados nesta terça. Polêmico, genioso e muitas vezes genial, o treinador colecionou grandes histórias ao longo de uma carreira com mais de 30 anos.
Chegada ao Palmeiras
Após ter sido campeão paulista em 1990 pelo Bragantino e ter passagens por Ponte Preta e Flamengo, Luxa foi escolhido pela Parmalat (co-gestora do futebol do Palmeiras) para substituir Otacílio Gonçalves, o "Mestre Chapinha", durante o Paulistão de 1993. O Verdão vivia uma fila de títulos desde 1976.
“Os dirigentes me perguntavam sobre ele porque tínhamos trabalhado juntos no Flamengo. Ele era um dos nomes e estudavam a possível vinda dele. Queriam um treinador mais jovem com novas ideias. Eu disse: ‘Pode trazer, é um baita treinador. Muito estudioso, tático, tem leitura de jogo e sabe formar um grupo de jogadores. É diferenciado, cheio de energia. Tem temperamento muito forte, tem que ser controlado. Vai encher o saco de vocês, vai pedir, mas se vocês derem condições de trabalho tem tudo para dar certo’”, disse Zinho, atualmente comentarista dos canais Disney, ao ESPN.com.br.
“Pela primeira vez na minha carreira eu vi uma preleção com slide e computador. Como não tinha uma equipe de trabalho tão grande nem um pessoal de vídeo, como hoje em dia, muitas vezes ele pedia para que eu passasse os slides. Tinha um programa que os bonequinhos se mexiam, era sensacional. Lembro de uma preleção que o Amaral não entendeu nada (risos). Ele falou: Ô (César) Sampaio, lá no campo você fala quem eu sou porque nos bonequinhos não dá para saber’”, recordou Zinho.
Luxa também investia em outras áreas pouco comuns no Brasil tanto na ciência do esporte - como a preparação física individualizada para cada jogador e um trabalho integrado entre a fisiologia e a fisioterapia do clube - quanto na tecnologia.
'Querem o vídeo da derrota ou sair da fila'?
O Palmeiras chegou até a final do Paulistão de 93 como favorito, mas perdeu a primeira partida por 1 a 0 para o Corinthians com um gol de Viola, que imitou um porco na comemoração.
“Nós ficamos depois a semana toda concentrados. Teve muita cobrança, fomos chamados de mercenários e de time de empresa. Lembro que na preleção antes do jogo, o Vanderlei colocou um vídeo com todas as coisas erradas que havíamos feito durante o campeonato, torcida nos vaiando e o Viola imitando o porco. O (técnico do Corinthians) Nelsinho Baptista e o Neto falavam que na final era hora do time do povo. Em seguida, colocou outro vídeo com tudo de maravilhoso que tínhamos feito na temporada e a torcida nos apoiando", disse Zinho.
“Quando acabou o vídeo, ele não entrou na parte tática. Ele só falou: ‘E aí? Vocês querem ficar marcados com esse vídeo da derrota ou vamos sair da fila hoje e ficarmos marcados para sempre na memória do palmeirense?’ Nisso, acabou a preleção e fomos para o ônibus ‘babando’ querendo o jogo. Estávamos com brilho nos olhos”.
O Palmeiras venceu no tempo normal por 3 a 0 e após marcar 1 a 0 na prorrogação foi campeão após 16 anos.
Isso aqui é uma mina de ouro
Dono de uma personalidade explosiva e descrito pelos jogadores como um disciplinador, Luxemburgo não pensava duas vezes antes de dar uma bronca. Quem mais sofria com isso eram os mais jovens, como Edmundo, que chegou a ser suspenso por uma discussão, mas os veteranos também escutavam poucas e boas...
“A gente estava tendo muitos jogos em sequência naquela época, e o César Sampaio foi conversar com o Vanderlei. A gente queria tirar um dia de concentração e diminuir um pouco o tempo das preleções, que eram bem grandes porque tinham muitos vídeos. O Vanderlei ficou louco: ‘Vocês tão querendo entrar no meu trabalho? Eu tô atrapalhando? Eu vou embora. Treina o time vocês!’. A gente tentou acalmá-lo, mas não teve jeito. Nisso, o (goleiro) Gato Fernández falou: ‘Você acha que ele vai embora? Isso aqui é uma mina de ouro. Vamos ganhar tudo! Se o Zinho não está bem, ele pega outra pedrinha e vai só lapidando. Sempre vai ter uma pedrinha de ouro’ (risos)”, lembrou o meia titular no tetracampeonato da seleção brasileira em 1994.
De fato, o Palmeiras venceu depois no fim de 1994 o Brasileirão sobre o Corinthians. Porém, pouco antes da decisão, o clube alviverde precisou contornar uma crise. Os jogadores ficaram muito tempo presos em um hotel sem nada para fazer. Era uma época que não tinha smartphones, redes sociais ou videogame nas concentrações.
Um dia, os laterais Roberto Carlos e Claudio entraram com extintores de incêndio e os esvaziaram no quarto dos volantes Flávio Conceição e Amaral.
“Os caras ficaram todos brancos (risos). Quando o Luxemburgo soube do caso, ele disse que os quatro estavam fora do jogo. Eram quase todos titulares do time (risos). Eu disse: ‘Vanderlei, dá uma dura nos caras e uma multa, mas não tira do jogo. Isso vai dar muito falatório na imprensa. Vamos ser campeões de novo!’ Ele respondeu: ‘Você não tá satisfeito? Arruma a tua mala e vai embora também. Não preciso de você’”, lembrou Zinho.
Os jogadores precisaram apelar aos profissionais da comissão técnica do Palmeiras para tentar domar a fera. Eles recomendaram que o meia mexesse com a vaidade de Luxa para que os colegas fossem perdoados.
“Eu falei: ‘Ô professor, o time está todo encaixado e foi o senhor que fez isso tudo. Desculpa’. Aí massageou o ego e ele amoleceu (risos). O Vanderlei não gostava de perder a liderança e ser confrontado, mas depois conversava e aceitava o diálogo”.
Estrategista
Apelidado pelo jornalista palmeirense Roberto Avallone, que fazia sucesso no programa Mesa Redonda (TV Gazeta) de “O Estrategista”, Luxa gostava de inovar nos treinos e na parte tática. O técnico costumava fazer algumas atividades com apenas os 11 titulares em campo e usar cones para corrigir o posicionamento defensivo e ofensivo.
Além disso, o técnico mudava a função de alguns jogadores para que rendessem mais nos jogos. O centroavante Evair muitas vezes recuava para o meio de campo e virava um garçom dos atacantes Edílson e Edmundo. O treinador gostava do esquema tático 4-4-2 com o meio campo jogando em formato de losango.
“Nosso time era muito organizado e todo mundo sabia o que tinha que fazer. Durante os jogos, ele gesticulava muito e lembrava do número dos cones”, contou Zinho.
“O Vanderlei tem a capacidade de lapidar jogadores que viraram astros depois. Ele sabe tirar o melhor dos caras. Tive muitos treinadores fantásticos na minha carreira como Carlinhos, Lazaroni, Parreira, Felipão, Telê Santana e Tite. Mas o grande treinador com quem venci mais títulos e joguei meu melhor futebol foi o Vanderlei”.
Professor de Marketing
Luxemburgo inovou em outras práticas. Foi um dos primeiros treinadores a usar terno e gravata. Além disso, criou o costume de deixar o campo poucos minutos antes do apito final em partidas que conquistaria um título.
“Nas primeiras vezes eu não percebia que ele ia embora para o vestiário antes, mas depois vimos as imagens dos jogos. Ele dizia que era um momento dos atletas. Não sei se era um marketing dele, nunca perguntei (risos). Já usava terno e gravata, já tinha uma visão europeia e estava preparando a carreira para a seleção. Ele sabia que tinha que ser diferente para chamar atenção”, recordou.
O treinador tinha uma visão de que deveria ser um manager, ao estilo de Alex Ferguson no Manchester United, que comandasse todos os departamentos ligados ao futebol. Ele tinha costume de participar das negociações ligando para os jogadores. Na época, isso não era bem visto no Brasil e rendia críticas da imprensa.
“O Klopp e o Guardiola fazem isso hoje em dia. O Gabriel Jesus foi ao Manchester City muito porque recebeu uma ligação do treinador. Quando você alcança sucesso e inova, tem caras que ficam incomodados. Ele desperta o ódio e o amor, tem personalidade e fala o que quer. Se tivesse na mídia social ou ele estava mais consagrado ou estaria morto, seria cancelado (risos)”.
Fralda ou faixa?
“Vanderlei tinha conteúdo na escolha de time, planejamento e nos cuidados com a parte física. Ele gostava de motivar o atleta por meio de desafios. Isso era um diferencial”, comentou Zinho.
Quando comandava o Cruzeiro antes da final da Copa do Brasil contra o Flamengo no Mineirão, Luxemburgo ficou sem zagueiros e precisou colocar Gladstone, de apenas 18 anos. Na preleção, o técnico deu dois envelopes ao jovem e pediu para que abrisse na frente dos colegas.
Em um deles, tinha uma fralda, enquanto no outro havia uma faixa de campeão.
“Ninguém sabia que ele faria isso. O Vanderlei disse: ‘Qual deles você vai querer? Vai se borrar todo e usar a fralda ou vai vestir a faixa e ser campeão?’. O Gladstone respondeu que queria ser campeão. Daí, o Vanderlei mandou ele colocar a faixa. O olho do Gladstone brilhou! Ele foi bem e nós fomos campeões. Foi um trabalho psicológico com essas tiradas do Vanderlei”, disse Zinho.
Não é falta de humildade
Um dos episódios mais marcantes da carreira de Vanderlei ocorreu durante o Brasileirão de 2004. A mãe de Robinho, principal astro do Santos, foi sequestrada e o atacante ficou várias rodadas sem atuar. O treinador precisou gerenciar um clima pesado e manter a equipe motivada até o fim para brigar pelo título.
“Ele falava: ‘Vocês vão concentrar mais forte do que extrato de tomate, mas no fim vai compensar. Vocês confiem em mim porque eu sou bom pra c***. Isso não é falta de humildade, mas reconhecimento do meu trabalho’. Na última rodada ele levou uma caixa no vestiário com camisas escritas ‘Santos, campeão brasileiro’. E fez a gente usar. O Robinho voltou a jogar e foi sensacional. Só pelo ambiente a gente já sabia que venceria", contou o ex-volante Zé Elias, atualmente comentarista dos canais Disney.
Luxa não deixava o time se acomodar. Mesmo depois de uma goleada, costumava dar uma dura nos jogadores e mostrar os erros durante a partida.
"Ele era muito atento aos pequenos detalhes. Em um jogo em Criciúma eu fui titular, e o Preto Casagrande ficou meio sentido no banco de reservas. Ele mandou os auxiliares falarem com o Preto. Com 30 minutos de jogo, o árbitro ameaçou me expulsar. Eu avisei o Vanderlei, que colocou o Preto, que jogou bem", disse o ex-volante.
Zé conta que um jogador do Santos costumava vazar informações para o mesmo repórter na imprensa. Desconfiado, Luxa soltou uma lista falsa para pegar o "cagueta".
"Ele descobriu e cinco minutos já estava na imprensa. No dia seguinte, ele foi no meio do cara: 'Você é sem vergonha, safado. Se você não correr agora eu vou soltar toda a história porque você está prejudicando o meu trabalho e a instituição chamada Santos'. O cara ficou mal pra caramba, mas era importante para o elenco porque não tinha reserva. Incrível a capacidade do Vanderlei de leitura das pequenas coisas que aconteciam no vestiário", afirmou.
Meu santo é forte
No Santos, Ricardinho contou para Luxemburgo que Zé Elias tinha o hábito de imitá-lo no vestiário. Nisso, o treinador mandou o volante fazer a performance na frente de todos os jogadores, que deram risadas.
"Nós fomos para o jogo contra o Fluminense e eu machuquei o meu joelho marcando o (meia) Felipe com 30 minutos, que sempre dava aquele drible de futsal".
Em seguida, Zé foi para o vestiário e começou o tratamento com gelo na perna.
"No intervalo, o Vanderlei passou por mim e perguntou: 'E aí, o que aconteceu?' Respondi que tinha rompido o ligamento. Ele disse: 'Se f***. Fica me imitando dá nisso. Meu santo é forte!' (risos). Ele saiu e começou a rir (risos). Ele sabe deixar o vestiário bem motivado. Era muito bom treinador e boa pessoa", falou.
"O Vanderlei ficou mais de 14 anos no auge como um vencedor. Ele construiu uma história e mudou a forma de se pensar sobre os treinadores no Brasil. Antes, eles eram vistos apenas como mais uma peça. Essa importância que eles têm hoje em muito se deve ao Vanderlei", finalizou Zé.
