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Zé Love faz forte desabafo, revela como combateu depressão e diz que família o salvou do suicídio

Zé Love, atualmente no Brasiliense, concedeu entrevista emocionante e sincera ao portal UOL


Em uma emocionante e sincera entrevista ao portal UOL, o atacante Zé Love, atualmente no Brasiliense, relatou como vem enfrentando a depressão e relatou até mesmo que teve pensamentos suicidas, mas conseguiu superar a situação com a ajuda da família.

"Estou vivendo um dia de cada vez, é o que posso dizer. A depressão é uma doença silenciosa. Estou sorrindo aqui hoje, mas posso dar dois ou três passos e começar a chorar. Não existe linearidade na dor; há meses, convivo com ela e com essa instabilidade. Tem dia que acordo empolgado e sinto vontade de levantar da cama e treinar; mas geralmente não é assim. Nos últimos dias, tenho acordado e tomado remédio para dormir de novo. Fico ansioso e só quero que o dia passe logo", afirmou.

"Não é a primeira vez que vivo a depressão. Há quatro anos, passei por algo parecido. O gatilho, agora, foi um acúmulo de coisas; uma bomba que estourou no ano passado e envolveu saúde e grana. Sempre fui o cara da família, que bancava minha casa e a casa dos meus pais, e, no meio do caminho, não consegui mais. A ansiedade, que sempre me acompanhou, cresceu e se transformou na impotência da depressão", contou.

De acordo com o jogador, o gatilho para a fase mais recente aconteceu depois de um erro de arbitragem que prejudicou o Brasiliense na disputa da Série D de 2021.

"Acho que toda depressão começa pela ansiedade, a angústia por algo que a gente nem sabe que vai acontecer. No meu caso, pelo menos, começou assim. Hoje, eu visto a camisa do Brasiliense. No ano passado, participei de um jogo muito polêmico contra a Ferroviária. Disputávamos a série D do Campeonato Brasileiro, estávamos na briga para subir, e o árbitro marcou um pênalti fora da área contra a gente. Aquilo me deixou maluco", lembrou.

"Foi um baque. Perdi um ano de trabalho, perdi o sonho de subir de divisão, perdi prêmios individuais. E a gente vive disso, sabe? Aquele jogo foi uma derrota em muitos sentidos. Meu corpo reagiu à frustração: duas semanas depois, fui internado. Senti dores muito fortes no peito, achei que pudesse ser algum problema no coração. Fiquei três dias na UTI até descobrir que era uma alteração renal. Seria o começo do período mais difícil que já vivi. E ainda vivo", lamentou.

Quando retornou aos treinos, Zé Love estava com a imunidade tão baixa que contraiu COVID-19 e influenza ao mesmo tempo. Acabou internado no hospital e ficou em isolamento, longe da família, o que piorou seu estado de saúde mental.

"Fiquei internado de novo e, dessa vez, sozinho. A internação por COVID-19 é muito solitária, a gente fica em uma área isolada. Foram cinco dias no hospital. Cinco dias longe do meu filho, que é minha vida. Comecei a desabar ali", recordou.

"Os vírus foram embora e, de novo, voltei aos treinos com tudo. Caí mais uma vez. Estava em casa com minha esposa, Luciana. Comecei a sentir meus músculos contraírem, como numa câimbra muito forte. Fiquei assustado, não entendia o que estava acontecendo. Não conseguia abrir as mãos, elas se fecharam com muita força e meus dedos não se moviam. Minha pressão despencou e tive uma dor de barriga tão forte que não consegui chegar ao banheiro. Meus braços pareciam estar eletrocutados", comparou.

"Chamamos um médico que mora ao lado de casa, e ele foi até mim às pressas. Me disse a seguinte frase: 'Se você ama seu filho e sua família, corra para o hospital. Você está morrendo'. Achei que estivesse. O diagnóstico veio, hipocalemia —uma doença que reduz absurdamente o nível de potássio no sangue. O índice normal para um ser humano varia entre 3,5 a 5 ml por milímetro cúbico de sangue. Meus exames chegaram a 2,4 ml. Eu estava exposto e frágil", salientou.

'Não me sentia mais um jogador de futebol'

Após mais seis dias internado, Zé Love deixou o hospital e tentou voltar aos treinos e jogos. No entanto, seu corpo, e sua mente, não respondiam.

"Foi depois desse evento que comecei a reconhecer os primeiros sinais da depressão. No primeiro dia de volta ao Brasiliense, fui até o vestiário. Me troquei e, pela primeira vez na vida, fiquei paralisado. Não consegui ir para o campo. Travei. Não me sentia mais um jogador de futebol. Em dois meses, foram três internações. Era como se meu corpo tivesse esquecido como se joga bola", revelou.

Desde então, o atacante não vem conseguindo entrar em campo. Ele segue tendo contrato com o Brasiliense, mas não disputou partidas em 2022.

Neste período de inatividade, Zé confessa que pensou em tirar a própria vida.

"Eu chegava em casa, deitava na cama de novo e não queria ver ninguém. Nem minha esposa. Passava o dia no celular, me distraindo com qualquer bobagem. Nada estava bom. Decidi buscar ajuda quando pensei em tirar minha vida. Eu tinha medo de ficar sozinho, medo de não conseguir controlar o anseio para dar fim à dor. Quando a Luciana precisava sair, eu pedia que ela deixasse meu filho comigo. Não confiava na minha própria força de vontade para me manter vivo", lembrou.

"A Luciana percebe o tamanho da angústia que sinto. Eu verbalizo. Ela passou a esconder meus remédios. Na hora certa, pega o comprimido correspondente e me dá. A verdade é que todo mundo julga quem tem depressão. Quem comete suicídio. Infelizmente, isso acontece porque é uma doença tão maldita, que tira o prazer. O que é mais gostoso? Ter prazer de viver, independência, sair com minha esposa, meu filho, meus pais. Ela tira isso de você. Ela te coloca em um túnel escuro, onde não tem luz", explicou.

"Mas, hoje, tenho certeza de que quem tira a própria vida não tem ideia do que está fazendo. Fica um branco na cabeça, a gente não pensa em nada. Só quer fugir do sofrimento e dar fim à dor que parece não ter fim", ressaltou.

'Todo mundo sumiu'

Zé Love afirma que o amor e o carinho da família o ajudam a superar os momentos mais complicados da doença. No entanto, os remédios também são necessários para que ele consiga passar os dias.

No momento, ele está morando na fazenda de seus pais, no interior de São Paulo, onde passa os dias ao lado dos parentes queridos, da mulher e do filho.

Entre os companheiros de profissão, "todo mundo sumiu". Apenas três jogadores do Brasiliense fazem contato frequente para saber como o atacante está.

"Aos 34 anos, ao lado da minha família, deveria estar na minha melhor fase. E estou na pior. Acordo, tomo um antidepressivo. Almoço, outro remédio. À tarde, umas gotinhas de ansiolítico para acalmar. Depois do jantar, mais um, e, antes de dormir, aquele mesmo ansiolítico da tarde. Estou há um mês vivendo à base de medicamentos", relatou.

"Sei que aqui (na fazenda) é o lugar onde vou receber o máximo de amor possível, e é também disso que a gente, que tem depressão, precisa. Meu filho não imagina a gravidade da coisa, ele só tem seis anos. Meus pais entendem, mas não falam sobre. Sei que minha mãe é quem mais sofre, eu percebo isso no olhar dela. Sento para tomar café, ela está lá. Está comigo, mas não falamos sobre depressão. Entendo que ela não sabe a teoria de como agir, mas a forma como ela age é a melhor possível. Ela está lá. É o que importa", assegurou.

"O suporte que tive foi da família. Todo mundo sumiu. Ou melhor. Quase todo mundo. Tenho três nomes: Moisés, Renan e Jocimar. Todos os dias acordo com mensagens deles, almoço com mensagens deles, durmo com mensagens deles. Um é meu amigo de infância. Os outros eu não imaginava que estariam comigo neste momento. Se eu tivesse que apostar, perderia tudo. Tem outros que mandam mensagens, mas com eles é diariamente. Umas 10 mensagens por dia. 'E aí, o que está fazendo? Posso te ligar?'. Ligam de vídeo, brincam. Isso ajuda bastante. Mas outros amigos, até os de infância, pessoas que estiveram presentes nos momentos bons, pessoas que eu pensava que me faziam bem, esses não estão ao lado", lamentou.

"O mesmo por parte do Brasiliense, clube em que atuo. Quase não recebi ligações de lá. Me deram um suporte de salário, sim, e agradeço, apesar de achar que isso é o mínimo. Mas ligação, contato? Nada. Tem 34 jogadores no clube, e só três me ligaram. Não guardo mágoa, mas exponho isso para deixar claro que a nossa ajuda está em casa. Com a nossa família. E sei que esse desdém é porque muita gente não acredita na minha doença; não acredita em depressão", disse.

Vivendo um dia de cada vez, Zé Love diz que busca encontrar novamente a alegria interior para voltar a ser o mesmo sujeito brincalhão de sempre.

"Estou com saudade do antigo Zé, que ri com facilidade, zoa, brinca. Eu sei que ele está escondido aqui dentro, junto com minha vontade enorme de voltar a bater uma bolinha. Prefiro encarar isso tudo como uma tempestade. Tenho certeza de que não vai durar para sempre. Que, de alguma forma, o sofrimento vai acabar. Talvez o vento leve. O amor cure. Afinal, sou o Zé Love. O mínimo que eu posso fazer é me agarrar àquilo que meu nome leva", finalizou.