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Análise | Ruined King esbanja carisma e beleza, mas é simples demais para os padrões Riot

Ruined King se passa em alguns dos locais mais icônicos de Runeterra Divulgação/Airship Syndicate

Ruined King é a nova aventura da Riot fora de League of Legends esbanjando beleza e carisma, porém, peca ao não trazer grandes novidades ao gênero, pela pouca variedade de cenários e falta de ambição


Depois de alguns anos sem ouvir falar uma palavra sequer de Ruined King: A League of Legends Story, a Riot resolveu lançar seu game de uma hora para outra, sem preparar os fãs de MOBA para essa história que se passa em alguns dos locais mais icônicos de Runeterra e ainda dando mais diversidade de movimentos para personagens icônicos.

Mas antes de qualquer coisa, é necessário deixar claro que esse jogo não requer que você conheça o universo do LoL para aproveitar essa jornada, porém, se já for fã (principalmente de longa data) vai ter muita coisa para aproveitar nesse RPG por turnos desenvolvido pela Airship Syndicate, a desenvolvedora de Battle Chasers.

Ruined King vai dar aos fãs do LoL a oportunidade de visitar Sentina (ou Bilgewater, caso você prefira jogar em inglês) outra nação do mundo de Runeterra, que neste ano teve a oportunidade de conhecer Piltover e Zaun na animação Arcane.

Um resumo da premissa em poucas palavras seria algo como: a história acontece na nação pirata de Sentina, onde Sarah Fortune, recentemente erguida como rainha após aniquilar Gangplank e sua trupe, precisa encarar uma nova ameaça provinda da Ilha das Sombras. Ao lado de Illaoi, Braum, Pyke, Yasuo e Ahri ela vai encarar uma ameaça maior do que o mundo estava preparado para lidar – a volta do Capitão GP apoiada com uma invasão da Ilha das Sombras.

Ok. Acho que exagerei um pouco no tom de resenheiro de cinema, mas é esse o resumo mais simples que posso fazer da história do jogo sem estragar as surpresas do game. A escolha do tema e a linha do tempo são interessantes, pois se trata de um grande evento que aconteceu em 2015, que contou (meio que por cima) parte dessa trama, ao mesmo tempo em que liga ao ano do Rei Destruído que aconteceu agora em 2021.

Nesse aspecto foi muito bom poder andar pelas vielas de Sentina e poder ver algumas das histórias mais absurdas que seus cidadãos vivem no dia a dia, como a chegada de um gigante das terras geladas de Freljord ou mesmo de dois ionianos em busca de artefatos mágicos. Sentina tem tudo o que é necessário para criar uma boa aventura pontual em qualquer RPG clássico.

A visão isométrica para navegar pelas áreas mostra que o trabalho da Airship Syndicate teve muito dedo da Riot Forge. Quem teve a oportunidade de navegar pelos mares de Sentina em League of Legends, quase vai sentir a brisa do mar batendo em seu rosto. Com detalhes que talvez só os Rioters teriam em suas mentes.

Além de Sentina, você vai conhecer outra área do mundo de Runeterra: a Ilha das Sombras, que é outra área mítica onde os mortos andam em eterno sofrimento em busca de vingança e que é dominada pelo guardião Thresh.

Apesar de parecer uma história para iniciados, Ruined King se dá o tempo para apresentar os personagens, o background e tudo o que é necessário para embarcar na aventura mesmo que você nem sequer saiba o que é League of Legends. Já quem é fã do MOBA vai ganhar mais contexto do que foi apresentado no evento de seis anos atrás.

Por um momento a presença de apenas duas regiões é algo que me incomodou, afinal, o mundo de Runeterra tem tantos outros lugares incríveis para serem conhecidos e tantos personagens para serem abordados que sinto que é algo como se a Airship estivesse com medo de se embrenhar em mais conceitos para apresentar ao jogador.

Mas, depois de passar cerca de 30 horas no jogo, logo entende-se que a decisão foi mais acertada para evitar de afastar os não-iniciados em LoL e focar em uma história mais centrada em um núcleo pequeno de personagens.

Cada herói tem sua característica intrínseca, por exemplo, Illaoi que é uma suporte ofensiva que ao mesmo tempo em que possui habilidades de cura, pode ser uma arma devastadora de dano. Já Fortune e Yasuo são mais focados em causar dano, enquanto Braum é o tanque. O game conta ainda com Ahri, uma personagem que causa efeitos negativos no adversário e Pyke é um assassino de certa forma frágil, mas que causa muito dano em seus golpes.

Dá pra ver que a Airship se inspirou em RPG’s clássicos para adaptar os heróis de LoL dentro do universo de Ruined King. Mas ainda é estranho para os fãs do MOBA ver que alguns personagens possuem características um tanto quanto controversas com o que vemos em Summoner’s Rift.

Além disso, cada um deles possui uma forma de navegar pelo mundo e de interagir com adversários que sempre estão presentes no mapa. Causar um dano com cada personagem cria um status negativo no oponente no início do combate. É uma forma interessante de levar a estratégia de “gank” (emboscada) para o RPG de uma forma simples e que qualquer um domina em poucos minutos.

RPG DO LOL

Talvez a parte que mais deveria chamar atenção seria o sistema de batalha, afinal, League of Legends é um jogo no qual as habilidades mecânicas e estratégia é o seu tema central. Entretanto, é a parte que mais desaponta em Ruined King.

Você controla um time com três personagens para encarar os desafios e você sente que pode criar um trio para chamar de seu. Eu gostei bastante da combinação de dois atacantes e um suporte, variando entre Yasuo, MF e Pyke. Já Illaoi nunca saiu do meu esquadrão – sua variedade de movimentos fez com que eu me sentisse mais apegado a ela do que com qualquer outro campeão.

Os combates funcionam como uma mistura do Active Time Battle de Final Fantasy, mas com um twist importado de LoL chamado de “Rotas”, que funciona assim: no turno de cada personagem você terá a opção de escolher entre criar ações Instantâneas, Habilidades de Rota ou Ultimates.

As ações instantâneas, como explicita, são habilidades que vão desde um ataque normal, usar itens e outros tipos de comandos mais comuns no mundo dos RPG’s tradicionais. Esses comandos não consomem mana e podem ser tanto ofensivos quanto defensivos, tipo o “arroz com feijão” de Ruined King, para fazer o “farm” de experiência.

Já as Habilidades de Rota é onde a mecânica está mais apurada. Esses poderes possuem um tempo de carregamento para serem aplicados e podem ser usados para manipular a barra de iniciativa e fazer com que você consiga realizar ações antes dos adversários. Você pode movimentar a “rota” modificando o tempo de carregamento e também a força da habilidade.

São três rotas, a do Equilíbrio, que é a padrão, Rota Superior, que é mais rápida e diminui a força da magia ou a Inferior, que aumenta o seu poder. Você pode escolher fazer uma ação mais demorada para causar o dano máximo no seu adversário ou fazer uma cura rápida, caso um aliado precise de uma ajudinha.

Já as Ultimates são habilidades poderosas que são acumuladas ao longo de alguns rounds para que você utilize imediatamente. Porém, sendo bem honesto, são as habilidades que dificilmente você vai utilizar tendo em vista que geralmente os combates acabam antes mesmo de conseguir preencher o medidor.

Esse sistema é o que pode fazer com que você se sinta mais ou menos desafiado pelo combate e permite criar estratégias diferentes para dar mais longevidade para o game. Porém, preciso admitir que muitas vezes o sistema de combate se torna repetitivo, principalmente pelo simples fato de o nível “normal” ser extremamente fácil – os inimigos possuem pouca vida e seus movimentos são muito previsíveis. Aumentar a dificuldade pode ser a alternativa para criar mais estratégias de combate, afinal, os adversários vão causar mais dano e aguentar mais porrada.

Para se ter uma ideia, é possível terminar o game em 30 horas na dificuldade normal, ou 45 no nível especialista (eu não tive paciência para terminar o game pela terceira vez no Heróico).

Em conjunto com as mecânicas de rotas, Ruined King traz também um sistema no qual são apresentadas áreas de perigo, que trazem uma penalidade para o jogador. Nas dificuldades mais elevadas essas áreas se tornam mais presentes e criam situações mais adversas.

Mas, novamente, senti que o sistema de combate tem potencial, mas nunca fui realmente desafiado pelos adversários. Na maioria dos casos eu simplesmente usei o ataque básico para eliminar os adversários mais comuns, como se fossem os minions de LoL. Após o combate, basta usar uma poção de cura para voltar à luta como se estivesse novo em folha.

Os chefes, por outro lado, são os que mais exigem uma atitude estratégica, porém, como são escassos, logo o theory crafting acaba se tornando efêmero. Como o combate rende pouca experiência e o level cap dos personagens é bem baixo para um RPG padrão, logo você sente que está fazendo a mesma coisa sempre e empurrando o combate com a barriga.

FALTA VARIEDADE

O ponto alto, então, acaba ficando em torno da história, que é interessante para qualquer jogador, mas, novamente, não é uma história 100% original como é em Arcane. É bacana ver a relação criada pelo estúdio Airship, porém, sendo um jogo com a grife da Riot Forge, eu esperava uma aventura mais ambiciosa e talvez com desdobramentos que poderiam se aprofundar mais no universo de League of Legends.

Um ponto que me incomodou bastante são os escassos pontos de encontro de personagens, pois são nesses lugares onde podemos fazer a troca de equipe para ajudar a dar mais variedade no combate. Entendo que essa decisão para limitar o jogador foi feita para tentar criar um pouco mais de dificuldade, mas acaba que, no fim das contas, não permite a experimentação mais constante e, com isso, uma sobrevida melhor para esse mundo.

Como são apenas dois cenários para serem explorados, o sentimento de estarmos andando em círculos acaba sendo comum. Para se ter uma ideia, os primeiros 45% de jogo acontecem em Sentina, 10% em alto mar e outros 45% na Ilha das Sombras. E por mais que os cenários sejam bastante variados, o tema entre eles (cidade pirata em Sentina, terra amaldiçoada na Ilha das Sombras) também acaba limitando a variedade.

Tem algo que me incomodou um pouco, mas que com toda certeza será ajustado no futuro, que são os pequenos bugs de navegação, principalmente com Pyke, que por vezes fica travado andando em cantos para realizar ações, e que forçam o jogador a ter que reiniciar o jogo. Foram poucas as vezes que isso aconteceu comigo – e todas elas frustrantes – e que, reforço, pode ser corrigido facilmente com um patch ou outro.

No fim das contas, Ruined King é um bom jogo de RPG, mas não tem nada que o destaque além de ser uma história no universo de League of Legends. O sistema de combate tem um potencial e depende unicamente do jogador para extrair seu potencial, tendo em vista que a maioria dos adversários podem ser derrotados apenas com ataques básicos.

Os personagens cativantes e a história podem atrair a atenção de quem tem interesse no mundo do LoL, mas não gosta de jogar um moba. Existia um potencial para que Ruined King: A League of Legends Story fosse muito maior, mais complexo e até mesmo diversos subtemas que poderiam ser explorados (como Arcane fez nas animações). Não sei o quanto liberdade a Airship teve nesse aspecto, mas é notável que existem muitos fatores que podem ser melhor explorados no futuro.