Hads, Nicolino e Schaeppi dão dicas para novos narradores

Da esquerda para direita: Hads, Nicolino e Schaeppi são algumas das principais vozes da narração de esports brasileira Acervo Pessoal/Jessica Liar/Divulgação

Hoje em dia o cenário de esports abre um leque enorme de carreiras que podem ser seguidas dentro do meio: jogador profissional, fotógrafo, comentarista, jornalista, enfim. Dentre essas, uma das que chamam bastante atenção é a de narrador. Responsável por trazer todas as emoções dos jogos competitivos, o ofício é crucial para manter os espectadores conectados e vidrados nos jogos.

Por isso, reunimos grandes nomes da narração brasileira de esports como Hads (Free Fire), Nicolino (Valorant) e Schaeppi (LoL) para darem dicas de como começar e manter-se relevante na cena para aqueles que desejam seguir a carreira dentro do mundo dos esports - e talvez até mesmo fora dele, porque não?

Os primeiros passos dentro dessa caminhada são sempre os mais difíceis e para que esses sejam os passos certos, é importante atentar-se em alguns fatores. Dois pontos extremamente importantes que foram unânimes na hora em que os narradores falaram sobre como se destacar são: autenticidade e qualidade.

“Principalmente hoje que temos a profissão um pouco mais consolidada não só nos esportes tradicionais mas também nos esports, é importante achar seu estilo tá ligado? Tem muita gente já hoje e às vezes você vai acabar pegando alguns de referência, isso é bem normal, mas não dá pra todo mundo narrar LoL falando ‘pei na torre’ porque é do Gruntar sabe? Então é tentar achar uma particularidade sua como narrador, isso é importante”, responde Nicolino sobre como se destacar no cenário em resposta ao ESPN Esports Brasil.

O narrador que hoje atua na transmissão do competitivo de Valorant é um dos exemplos de profissional que chegou em um cenário com uma característica única que não se via tanto nas narrações de esports. Com sua particularidade brincalhona conquistou o coração de milhares de espectadores, além de agarrar seu espaço e se tornar uma das vozes mais importantes do título.

Por outro lado, optando por um estilo de narração mais sóbrio do que quando comparamos com o estilo de Nicolino, Schaeppi é a prova viva de que sair do senso comum de que os narradores devem ser “brincalhões” e focar em sua técnica como profissional pode ser uma alternativa de sucesso; a parte de entretenimento é importante para um narrador, mas não deve ser o foco principal.

Para o narrador baiano a busca pela melhor qualidade possível de narração sempre esteve como uma de suas prioridades durante todos esses nove anos nos quais atua no cenário de esports, “seja em quesitos técnicos ou quesitos do trabalho da voz”. A intenção de focar nisso é enriquecer seu trabalho como narrador, e acredita que investir nisso é uma forma de ficar passos à frente da concorrência.

“O meu tipo de trabalho sempre foi a qualidade e prezar por critérios técnicos e que vão enriquecer meu trabalho como narrador. Acho que isso nunca vai mudar, quem investir em qualidade e técnica, sempre vai ter passos à frente. Sabemos que claro, quando falo isso não é algo de ter que ser sisudo e sério, mas acho que investir extremamente e exclusivamente em entretenimento puro pode te dar visibilidade por um tempo, mas depois o que fica não é isso”, comenta.

A qualidade é algo que não só os profissionais de narração buscam, mas todos aqueles que se dedicam a entregar a melhor experiência para aqueles que estão usufruindo de seu trabalho. Mas como fazer para chegar nela?

SAIBA QUE NÃO É FÁCIL

’’Não estou dizendo que é fácil, muito pelo contrário, é bem difícil. Mas se você realmente quer trabalhar com isso, levanta e vai’’, crava Hads.

Se tornar o melhor em um cenário cheio de pessoas extremamente talentosas e que se esforçam a anos para trazer seu trabalho com a melhor qualidade possível pode ser algo complicado (digo isso por conta própria), mas não é impossível. A calma nesse momento inicial é outro fator extremamente importante, afinal as coisas não acontecem de um dia para o outro.

“Hoje em dia a demanda é muito maior. Então é aquilo: passos pequenos, entenda que vai demorar e não é instantâneo, pode ser que seja muito rápido seu sucesso mas a tendência é que não. Então paciência, primeiro trabalhe localmente para depois almejar as ‘grandes cabeças’ de esports. O principal de tudo que eu repito é para definir seu estilo. Acredite na qualidade, no estudo e no profissionalismo”, diz Schaeppi.

Apesar de Schaeppi não ver muita necessidade em procurar cursos e especializações uma vez “que é uma área muito nova”, Hads acredita que buscar esse tipo de conteúdo é uma boa para iniciantes entenderem e aprenderem conceitos básicos da narração que poderão ser aplicados durante sua carreira.

Vindo da rádio antes de entrar no mundo dos esports, o narrador, conhecido como a Voz do Trovão no cenário de Free Fire, acha “muito importante ter uma formação. Você não vai sair do curso o Galvão Bueno, mas ensina muito as técnicas que você vai usar pro resto da vida”.

É importante ressaltar que o estudo não se resume apenas à parte técnica da profissão, mas também daquilo que está sendo narrado. Ou seja, é de extrema importância para o narrador saber do que está falando e entender como funciona o jogo que está sendo apresentado.

Para Schaeppi - assim como para os outros dois narradores -, estudar a própria modalidade que está sendo narrada é de suma importância. “Estude o jogo. Não precisa ser o melhor do mundo jogando, mas entenda do que você está falando, aplique seus preceitos de narração em cima da emoção daquele jogo, saiba trabalhar sua voz da melhor maneira possível”.

Entre outros exercícios estão algo simples como uma inalação ou o acompanhamento junto de um fonoaudiólogo, que ajudará muito o profissional a aperfeiçoar a maneira de como usa sua voz e que é levado por Schaeppi como vital para a evolução de sua narração, e também um “exercício pode parecer bobo, mas faz uma diferença gigantesca no trabalho”: ler em voz alta sempre que puder, segundo Hads.

PRATIQUE E TENHA RESPONSABILIDADE

Além de todas as técnicas e conselhos apresentados até aqui, é muito importante começar de algum lugar, independente de onde seja. Remunerado, não remunerado, em um estúdio ou dentro do seu próprio quarto. A prática é a principal forma para aprender e chegar em novos patamares.

“Quando falo de dicas a primeira coisa que sempre sugiro é a pessoa experimentar. Buscar um jogo, colocar no mudo, narrar, gravar, chamar um amigo que gosta de comentar e tentar fazer isso para ela poder assistir depois para realmente fazer a coisa e entender”, recomenda Nicolino sobre um exercício que pode ser feito por aqueles que estão iniciando.

“A maneira como eu comecei a narrar foi: eu entrava no LoL, assistia a partida dos meus amigos e começava a narrar muitas vezes para mim mesmo, sozinho. Às vezes chamava um amigo, fiz streams disso e comecei a pedir para participar de eventos ao redor da minha cidade de graça para poder ter chance de começar a mostrar meu trabalho”, completa Schaeppi.

Uma das grandes preocupações que os narradores já consolidados devem ficar atentos, e também algo que não deve fugir dos que estão em formação, é a responsabilidade com a mensagem que está sendo transmitida, devido o fato da mesma estar alcançando milhares de pessoas e poder influenciar tanto positivamente quanto negativamente.

“Tem que tomar muito cuidado também com o que fala porque é uma responsabilidade gigantesca né? Então tem que sempre estar atento com a mensagem que vai passar, o jeito que ela vai ser passada”, aconselha Nicolino.

‘’Quando eu coloco minha imagem para exposição, existem pessoas que se espelham em mim, então eu tenho que ter muita responsabilidade em como estou influenciando essas pessoas. De certa maneira, também estou ajudando na formação e quebra de novos e antigos conceitos’’, finaliza Hads.