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Análise: MLB The Show 21 mostra que o salto na magia entre gerações de consoles ainda existe

Andorinhas voam ao fundo do Dodger Stadium e suas sombras se projetam no campo. A rede de proteção além dos muros do campo externo estão com suas fibras visíveis em minha tela. Estes muros têm textura, têm dobras do tecido que lhe protegem. De repente, tiro minha visão de rebatedor do centro da tela e tento enxergar mais longe. Como são bonitas as árvores em Chavez Ravine, nunca tinha reparado nisso.

Meus olhos descem na tela e percebem que há milhares de grãos de terra, cada um com sua identidade, cada um com... Um cheiro diferente. Confesso que subestimei o PlayStation 5 e sua capacidade gráfica. O 4K, o HDR, o SSD de armazenamento, isso tudo deu uma sinestesia para quem joga. O tato sente o controle vibrar como uma luva quando você faz uma defesa. Os grãos de terra no home plate são tão definidos que me fazem sentir o cheiro da terra.

Achei que nunca mais ia me sentir como criança antes. Você lembra como foi a primeira vez que parou numa loja de videogame que tinha o inalcançável PlayStation 2 rodando Final Fantasy X? Ou quando jogou Grand Theft Auto III pela primeira vez e sentiu o poder da não-linearidade e do “fazer o que quiser”? Essas sensações estavam cada vez mais rarefeitas. Achava que estava ficando velho e chato, mas a grande questão é que a geração atual estava estagnada. Veio o HD, maiores detalhes na textura mas o sentimento de magia no videogame talvez tenha se perdido – principalmente para os mais velhos.

Esse sentimento de olhos brilhantes com cada detalhe na terra e a consequente dança de sensações volta com o PlayStation 5 e as referidas capacidades de resolução e o DualSense sendo mais imersivo. MLB The Show 21 foi pensado para o console e é um salto de qualidade – mesmo que seja difícil disso acontecer em lançamentos anuais e que ainda estejamos no início da nova geração.

THE SIMS EM ESCALA ESPORTIVA

A grande novidade do MLB The Show 21 para o PlayStation 5 – e praticamente única exclusiva da nova geração em termos de modo de jogo – é a possibilidade de criar um estádio. Só que não é novidade nos videogames: MVP Baseball 05, último jogo com a Major League Baseball da EA Sports, já trazia essa possibilidade – só que não com esse nível de detalhes.

O modo lembra muito a construção de sua base no game Fallout 4: você escolhe um objeto e ele aparece “no ar” para você posicioná-lo. Quando falo em objeto, trata-se de tudo: de um poste de luz às arquibancadas.

O modo de criação, confesso, não é tão refinado como gostaria – ou tão intuitivo como o da Bethesda em Fallout 4. É difícil posicionar as peças grandes uma do lado das outras e mais difícil ainda entender como a câmera funciona. Requer algumas horinhas, literalmente, para pegar o jeito. Ao se dominar, porém, as possibilidades são imensas. Vai desde recriar alguns estádios clássicos do beisebol até mesmo colocar um campo no meio do deserto.

A criação de estádios é o maior avanço para o Franchise Mode. Era um tanto quanto estranho criar um time – na edição do ano passado recriei o Montreal Expos, por exemplo – e não ter um estádio para chamar de seu. O San Diego Studio poderia ter criado estádios genéricos, como há no FIFA, para compensar isso, mas não havia. Então não dava a imersão adequada. Isso está mais do que solucionado agora.

ROAD TO THE SHOW… SIMPLIFICADO?

Confesso que foi agridoce perceber como o modo Carreira foi simplificado no aspecto RPG que tanto gostava. O San Diego Studio aproveitou a onda Shohei Ohtani para possibilitar que você, tal como o astro dos Angels, seja rebatedor e arremessador ao mesmo tempo. Confesso que gostei bastante.

Por outro lado, os arquétipos foram removidos. Você poderia criar uma carreira e ser um líder, como Derek Jeter, e ter “poderes” de influência quando um colega estivesse no bastão e você em posição de anotar corrida. Isso foi pro buraco. Os arquétipos agora estão resumidos àqueles que influenciam suas habilidades e tão somente isso.

Também foi para o espaço os treinos antes do Draft, que davam um elemento de imersão interessante. Você já “pula” direto para a Double A depois de ser escolhido no Draft da MLB – e agora tem mais poder de escolher para onde vai.

Além do modo de criação de estádios, outra exclusividade da nova geração é um “podcast/vídeo” que conta a narrativa de sua carreira, com participação de jornalistas que cobrem o dia-a-dia da MLB em sua rede de TV dos Estados Unidos. Dá uma imersão a mais, só que de toda forma ainda sinto esse modo mais raso do que vemos no NBA2k.

GAMEPLAY: O QUE MUDOU?

Seguindo na toada da “magia” que encabeça esta análise, a questão dos 60 FPS torna o jogo mais fluido e ajuda bastante na questão da imersão. Afinal de contas, esportes são baseados em movimentos atléticos e o dobro de quadros por segundo na tela deixam esses momentos mais realistas. Acaba sendo uma questão matemática.

Para além disso, as funcionalidades imersivas do DualSense ajudam bastante. Se seu jogador recebe uma bola com a mão esquerda, vindo da esquerda, você sente do lado esquerdo do controle. Esse elemento do controle foi bastante subestimado pelo público no salto de geração e é questão de ver para crer. Ou sentir para crer, no caso.

Em termos de mecânica de jogo, tivemos algumas mudanças interessantes. As capturas no campo externo – em especial perto do muro – estão consideravelmente mais realistas. A exemplo do timing de botões, que é usado à exaustão em Spider-Man e que é moda na indústria desde os tempos de Resident Evil 4, você se sente mais no controle dessas defesas. Fica bem mais possível roubar um home-run com essa mecânica de timing, coisa que era meio que impossível até o ano passado.

A grande novidade para esta edição – e que não é exclusiva para o PlayStation 5, também está na versão de PS4 – é o pin-point pitching. Em resumo, é uma mecânica nova de arremesso para o jogo. Até então, havia algumas possibilidades, mas elas normalmente se resumiam em apertar o botão duas vezes. Agora, cada arremesso pede um desenho na tela que é feito com o analógico de seu controle. A bola rápida de 4 costuras é “para cima e para baixo” – os arremessos com efeito, como slider e outros, pedem desenhos mais difíceis. É como o “destravar” de celulares Android.

Confesso que gostei muito da novidade e estou jogando só com esse modo de arremesso. A velocidade do movimento é difícil de “pegar o jeito”, mas assim que você entende o que o jogo te pede na execução, há uma satisfação imensa de lançar uma bola de curva perfeita. Pela primeira vez, arremessar deixou de ser uma parte... Carregada de tédio no jogo. Ponto imenso para o San Diego Studio.

COMPENSA NA NOVA GERAÇÃO?

Honestamente? Sim. Testei o Madden 21 para PlayStation 5 e não senti tantas mudanças, em especial na jogabilidade – coisa que a EA trouxe no FIFA, em especial na imersão gráfica que não senti presente no Madden. Em MLB The Show, o salto é significativo. Seja na diferença gráfica entre as gerações, que você precisará de uma TV 4k para realmente sentir, seja na jogabilidade que tira mais do DualSense do que o PlayStation 4 tira do DualShock 4.

Ainda não completamos nem seis meses de PlayStation 5 no mercado e aos poucos os jogos vão começando a aproveitar a capacidade do console. MLB The Show 21, até por ser de um estúdio do guarda-chuva da Sony, o faz com maestria. É o tipo de jogo imperdível para os fãs de beisebol e para quem quer aprender mais da modalidade – até por conta da novidade do modo de jogo para iniciantes, que te ensina sobre os nuances e regras do esporte.

“Parece filme”, disse minha namorada quando liguei o jogo na frente dela. Acho que isso resume o salto de geração, que honestamente subestimei. A magia está de volta.

MLB The Show 21 está disponível para PlayStation 5, Xbox Series X|S, Xbox One e PlayStation 4.