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Valorant: As expectativas para o cenário feminino em 2021

Naxy foi uma das jogadoras que decidiu migrar para o Valorant Reprodução

Em 2020, Valorant foi o mais novo título da Riot Games a ser lançado, com o objetivo de disputar os mais altos números dentro do cenário de esports com seu concorrente direto, CS:GO. Desde então, o cenário competitivo do mesmo passou a ser moldado através dos campeonatos da Série de Ignição, torneios organizados por empresas e pelo First Strike - realizado pela própria Riot Games.

Um dos grandes destaques do cenário competitivo de Valorant no último ano e algo que não recebe tanta atenção em outras modalidades, foi a preocupação e vontade da comunidade e organizações em, desde o nascimento do mesmo, fazer com que as mulheres tenham visibilidade e oportunidades de crescer e mostrar seu talento dentro de jogo.

Rivals Women’s Cup, Ascent Women’s Cup, Metrópole Rivals Women’s Cup e o Girl Pwr Valorant, são alguns dos campeonatos realizados e dedicados inteiramente para o desenvolvimento do cenário feminino.

Apesar dos estigmas causados pela comunidade masculina quanto ao talento das jogadoras (em todas as modalidades, não só em Valorant) e os constantes episódios de assédios dentro de jogo direcionados a elas, as jogadoras vem desde o começo marcando seu espaço e provando que, diferente do que muitos acham, possuem talento para trocar bala e conquistarem títulos dentro de um cenário majoritariamente dominado por homens.

OS PROBLEMAS ENFRENTADOS

Apesar da chegada impactante das mulheres e do espaço já estabelecido, dificuldades antigas retornam como empecilhos gigantes, que parecem não ter fim. Os esports sempre foram mistos em sua essência, mas nenhuma jogadora sente-se confortável em compartilhar seu espaço com um homem pela maneira que ainda são tratadas.

"Equipes mistas estão um pouco longe de acontecer com frequência, pois nós mulheres ainda estamos tentando conquistar nosso espaço. É muito difícil homem preferir jogar com mulher por questões de conforto deles. Tanto eu como muitas amigas, já tentamos jogar em times mistos e é aquela coisa, a gente tem que se provar muito mais por ser mulher dentro daquele time”, comenta a jogadora Tayhuhu, da INTZ Angels.

“Você acaba tendo que jogar na função que eles mandam e a maioria das suas chamadas não tem credibilidade como dos outros companheiros de time. É meio complicado, por enquanto não vejo times mistos dando certo até que tratem as mulheres como tratam seus parceiros em time!", completa.

Um escândalo recente foi outra figurinha repetida na questão do machismo: um servidor compartilhado para que jogadores pudessem ter experiências melhores nas filas ranqueadas chamado BVL teve suas regras abusivas e dono expostos pelas próprias convidadas. Elas eram retiradas ou excluídas dos jogos sem motivo algum.

Em resposta, as participantes criaram seu próprio servidor de jogo. A ação as protege, mas também retorna a outro tópico, que é a exclusão e isolamento das jogadoras femininas do resto do cenário.

EMPURRÃO NECESSÁRIO

Como iniciativa para estimular o crescimento desse cenário, a Riot Games divulgou através de seu regulamento para o Champions Tour - circuito de campeonatos para 2021 - que uma única organização poderá participar do circuito com duas equipes, desde que seja uma equipe masculina (ou mista) e outra feminina.

“Foi uma iniciativa maravilhosa. A Riot abriu portas para que muitos times grandes, que já possuem times masculinos, pudessem integrar times femininos também. Isso faz com que as pessoas tenham mais olhos para o cenário e talentos femininos, não só para os jogadores homens que aparecem o tempo todo”, diz Naxy.

A paulista de 21 anos, e também uma das grandes promessas do cenário competitivo, acredita que a medida tomada pela desenvolvedora seja um passo na direção certa para o desenvolvimento do cenário, e facilitará a abertura de portas para os talentos femininos.

“Com isso, nós também vamos conseguir ter um pouco mais de destaque, porque com o ‘poder’ das organizações grandes, conseguiremos ter mais visualização e isso ajuda novos talentos a surgir, não só masculinos, como femininos. Inclusive, essa iniciativa da Riot abriu portas até para mim”, revela Naxy.

O QUE VALORANT PODE APRENDER COM OUTROS CENÁRIOS

Por conta de seu sucesso recente, é impossível não comparar o Valorant com outros jogos de sucesso — seja de uma maneira boa ou ruim. Apesar das comparações, o principal é que esses jogos podem e, principalmente, devem aprender muito um com o outro. Quando se trata sobre a migração de jogadoras, há dois cenários que se destacam: o de CS:GO e o de League of Legends.

Consolidado como o maior FPS do cenário de esports a pouco menos de uma década, CS:GO é sem dúvidas o pioneiro na categoria e, dentro do Brasil, apesar dos poucos incentivos da própria desenvolvedora, é um dos cenários que mais estimula os talentos femininos.

Ex-jogadora de CS:GO pela Team oNe e vice-campeã da GameXP e BGS 2019, Mittens acredita que a Riot pode sim aprender algumas coisas com a Valve - desenvolvedora do CS:GO - para o futuro, como a criação de uma liga feminina.

“Tirando como exemplo o CS:GO, algo que eu acredito que a Riot possa desenvolver ao longo desse ano é uma liga feminina, atualmente importantíssimo para dar visibilidade ao cenário e incentivar mais mulheres a jogarem e se tornarem jogadoras profissionais. E juntos, comunidade e desenvolvedora, vamos aos poucos formando um cenário competitivo inclusivo, e nós mulheres, alcançando o nosso espaço”, comenta Mittens.

“No CS:GO todo esse caminho pro cenário chegar onde está foi iniciado pelas próprias jogadoras, desde os primeiros campeonatos femininos, e naquela época não tinha suporte da Valve. O que eu vejo que é bem diferente no Valorant, claro que há muita ajuda da comunidade ainda por ter um cenário competitivo muito novo, mas a Riot já começou a abrir as portas pra nós com menos de 1 ano de jogo, e sinto que tem muito mais por vir”, conclui.

Vale ressaltar que a movimentação feminina intensa também se deve ao fato de que as mulheres não querem que aconteça o mesmo que se deu com o MOBA da Riot, o League of Legends.

Enquanto o Valorant possui pretensões em anunciar uma estrutura de Liga Feminina, segundo o gerente de marketing da empresa global, Zanne Wong, em entrevista ao GamesReactor UK, o cenário do seu outro game de sucesso é deserto para elas.

EXPECTATIVAS PARA 2021

Depois de um 2020 marcado por superações, 2021 será um ano de evolução para a Riot Games como um todo, principalmente em seus maiores títulos. No League of Legends, assim como outras ligas, o CBLoL, por exemplo, receberá o sistema de franquias - e melhor ainda, a presença de três mulheres na equipe de transmissão.

No Valorant, o mundo se prepara para o início do primeiro circuito competitivo do jogo, que começará a desenvolver o cenário com mais afinco. Conhecendo o histórico da empresa, os planos para 2021 são grandes e os primeiros passos para o desenvolvimento do cenário feminino já foram dados.

O que resta agora, é continuar investindo e incentivando.

Segundo Hannabacon, jogadora da Team Vikings - primeira organização brasileira a anunciar uma equipe no FPS -, “um campeonato [feminino] organizado pela própria Riot seria um bom começo, com presencial, como foi o First Strike”.

As mulheres querem fazer parte do cenário, logo o mais importante é dar a oportunidade das mesmas conquistarem seu espaço em meio aos homens e mostrar que é possível uma jogadora atuar ao lado dos mesmos em pé de igualdade - tanto dentro, quanto fora de jogo.

"Acredito que também deveriam incentivar a criação de equipes mistas. Mostrar um ambiente igualitário. Ver as minas no topo dá a impressão de que ninguém é diminuído por ninguém”, observa Hanna.

As expectativas são grandes, mas isso só será possível com um bom planejamento e um cenário feminino bem estruturado, que dará maiores oportunidades para as jogadoras se provarem e incentivará a entrada de novas, assim fazendo com que o cenário cresça.

“Permitir que a mesma organização tenha um time feminino e masculino participando do Champions Tour com certeza foi um grande passo. Mostraram igualdade, pois normalmente quando ocorre isso, só o time masculino joga”, conclui a jogadora.

O começo de 2021 veio acompanhado dos primeiros passos para o desenvolvimento do cenário feminino e isso é importante, mas mais importante ainda é não parar de dar esses passos.