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5 de janeiro: o dia que os abusos sexuais nos esports foram expostos. Entenda o porquê

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Depois do caos que foi o ano de 2020 na vida de todos, esperava-se que o seguinte, após as festas, viesse com uma calmaria maior e mais certezas de um futuro próspero. Não foi bem o que aconteceu. Começando diretamente no último dia 5 com notícias que poucos esperavam - e certamente não queriam receber.

A tatuadora Daniela Li, que tem o trabalho bastante reconhecido na comunidade de esports, foi ao twitter para revelar sua terrível experiência de assédio sexual com o ex-técnico e agora caster MiT.

O apoio da comunidade foi em peso, mas ninguém sabia o impacto que aquilo poderia causar, ou o que viria a seguir: uma onda de relatos de outras meninas, que tinham o objetivo de deixar claro como o dia que nunca mais ficariam caladas.

De acordo com a própria, ela desejava ter tido coragem de ter “exposto isso antes” e que nunca foi “questão de amadurecimento”, pois o caso de Daniela aconteceu em 2015, porém outros relatos apontam acontecimentos em periodos recentes. Desde então, MiT se pronunciou em um TwitLonger, recebendo duras críticas nos comentários.

Efeito dominó

Se tem algo que pode descrever o que aconteceu depois do pronunciamento da tatuadora foi um “efeito onda” no qual muitas outras denúncias foram aparecendo envolvendo outros profissionais de diversos cenários dos esports. Até que o tsunami bateu na praia.

A “destruição” deixou marcas, impossíveis de não se ver, sendo uma onda de denúncias que foi praticamente coberta em nível nacional. Um questionamento recorrente de vários internautas foi de “mas as garotas denunciaram à polícia?”.

Como explicado por uma das garotas responsáveis por expor mensagens do jogador de CS:GO Pancc, “a justiça é falha”. Muitos casos de assédio e abuso não são levados a sério em diversas delegacias, o que desencoraja as vítimas.

Bruna “bnz” conta que teve coragem para expor seu lado para que outras não se sentissem sozinhas. Pancc só se pronunciou e pediu desculpas a outra garota em seu esclarecimento.

A jogadora Samarina possui até mesmo uma medida protetiva contra o ex-jogador do Santos, Hyoga, que até agora não se pronunciou. O consenso geral entre todas as afetadas, que deram depoimentos para a ESPN Esports Brasil, é que não importa o que façam, parece que nunca conseguirão a verdadeira justiça após seus traumas.

O “como” dos expositórios já se é sabido, mas o “por quê” é pesadamente ignorado. O motivo é que mulheres e homens cansaram de ter seu espaço e mentes violados por outros, não querendo permitir que isso continue acontecendo pela fama ou importância daqueles que acusam. Não é de hoje que casos de assédio ou abuso acontecem no mundo dos esports, mas depois de 5 de janeiro, espera-se que isso diminua.

A lista é, infelizmente, longa

No total foram mais de 11 denúncias que foram realizadas.

Os nomes notórios de todos os cenários que foram acusados são:

Gabriel “MiT” Souza, ex-jogador e técnico de League of Legends, agora comentarista;
Guilherme Henrique “Kake” Braga Morais, ex-técnico de LoL do Flamengo Academy;
Willyan “Wos” Bonpam, suporte do time de LoL Vorax;
Filipe “Pancc” Martins, jogador profissional de CS:GO pela Sharks Esports Team;
Hamilton “Shu” Neto, técnico de LoL pelo Naguara México;
Gustavo Docil, comentarista de LoL;
Benjamin “Hyoga” de Barbi, ex-jogador de LoL do Santos HotForex;
Célio “Thurizao” Oliveira, ex-manager da KaBuM! Esports;
Han Sol Kim, ex-tradutor de coreano-português para times de LoL;
Marcos “Dryx” Vinícios, ex-técnico da B4 Esports;
Marcelo Almeida, CEO do Team Innova.

Por que agora?

A reportagem procurou algumas das envolvidas, que decidiram se pronunciar após a grande repercussão. Akemi, que é uma diretora de marketing, diz “não tenho mais medo. E nenhuma outra mulher deveria ter. É assustador, eu sei, passar pela situação, se reerguer, lutar contra, mas não podemos abaixar a cabeça. Porque é isso que eles querem, querem continuar cometendo crimes e nos tornar cada vez mais vítimas do machismo, independente do gênero. Cada pessoa que lutou contra seus monstros e se expôs com coragem para alertar mais pessoas dos que crescem com fama, poder, dinheiro, no final, todos somos vítimas deles. Eles não podem continuar ganhando, não podemos parar de lutar jamais.”

Todas elas têm uma coisa em comum: vieram à frente para mostrar que outras não estão sozinhas. Uma delas foi Isabella, estudante, que conheceu Han Sol Kim em um grupo de League of Legends no Facebook. “Com a onda de exposes no dia 5 de janeiro eu tomei coragem pra expor o caso do Han Sol justamente por ler um tweet dele apoiando as vítimas e alegando que uma hora a máscara ia cair pra todos aqueles que fizeram imoralidades e, perante tamanha hipocrisia, finalmente me pronunciei. A repercussão foi muito rápida, em poucos minutos comecei a receber dezenas de relatos de mulheres que passaram pela mesma coisa com ele quando tinham entre 13, 14 e 15 anos”, ela conta.

Samarina, jogadora, expôs seu caso com o técnico Shu pelo mesmo motivo. Ela deu um longo depoimento, contando suas falhas experiências com a justiça e como o caso foi abafado por ter sido relatado tardiamente.

“Quando acabamos em uma situação abusiva é muito difícil enxergar as coisas, por na cabeça que você está passando por algo que não está certo e que a culpa NÃO É SUA! Isso ocorre principalmente, quando já temos um histórico de traumas desde cedo que faz achar ainda mais normal coisas assim acontecerem. Eu sempre tive muito medo de falar tudo pelo que passei, eu sei que muitas meninas ainda carregam esse medo, esse peso, esse trauma, eu sei como é horrível guardar tudo isso pra si e achar que não tem o direito de expor isso, eu sei o quanto é difícil enxergar o seu espaço no meio disso tudo! É como se você não tivesse o direito de estar ali falando sobre algo que pertence a você! Sei como são as coisas e infelizmente nunca são favoráveis para nós.

No dia 5 de Janeiro de 2021 eu tive coragem, depois de anos quieta, depois de mais de um relacionamento abusivo, depois de muitos traumas, eu enxerguei meu espaço aqui e reconheci meu direito, NOSSO direito. Me encorajei através de outras meninas expondo suas situações no Twitter, mas antes eu já tinha procurado ajuda pela justiça, porém o processo é mais lento e sendo bem sincera, não foi o que eu esperava, não tive certeza de que estaria segura imediatamente e em relação ao abuso sexual não tive nenhum apoio, muito pelo contrario, lamentável, mas não deram a mínima para essa situação até o presente momento pelo simples fato de ter sido relatado tarde demais”.

Assim como Samarina, Isabella e Akemi, eu espero que nenhuma outra tenha que passar por isso novamente, que hoje estejam mais seguras e bem acolhidas nas comunidades que se identificam.

A resposta das organizações

Ainda enquanto várias publicações eram feitas e atualizadas, várias organizações se pronunciaram com demissões e promessas de investigações internas com os que ainda eram seus funcionários. A própria Riot, no caso MiT, reiterou para a ESPN Esports Brasil que ele não participará como talento contratado para a Temporada de 2021.

O Flamengo agiu rápido, confirmando a demissão de Kake de sua staff ao público utilizando de sua página do Twitter. Como apurado, a própria organização foi conivente com as acusações e só agiu quando várias testemunhas vieram à tona.

A Vorax postou um vídeo em seu canal do Youtube na noite desta sexta-feira (8), declarando que conversou com todos os envolvidos e determinou que Wos era inocente, sem sanções declaradas. A Sharks fez um post declarando a suspensão de 4 a 6 meses de Pancc, multas e acompanhamento médico obrigatório.

*Colaboração para o ESPN Esports Brasil.