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Copa Rebecca Heineman de League of Legends é o primeiro campeonato exclusivo para pessoas trans

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Os tempos são outros e a comunidade - não apenas de League of Legends, mas de games no geral - têm mudado bastante. Uma prova disso é a realização da Copa Rebecca Heineman (CRH) de League of Legends, um campeonato exclusivo para pessoas transgênero.

Idealizada por Sher “Transcurecer”, secretária geral do CapaciTrans e streamer, o torneio acontecerá no dia 29 de janeiro, no Dia Nacional da Visibilidade Trans. A transmissão acontecerá no canal oficial da Twitch da STrigi Manse e contará com premiação em dinheiro e periféricos. Além do campeonato, será realizado também um workshop de casters para pessoas trans que desejam se inserir neste meio.

“Eu comecei nessa vida de esports bem cedinho, e sempre tive vontade de participar de campeonatos. Em 2015, conheci o LoL, e depois de dois/três meses eu já tava indo em eventos presenciais… Em uma Mega Arena que fui aqui no Rio de Janeiro eu tive a oportunidade de ver um confronto entre dois times e naquela hora eu fiquei encantada e pensei que queria muito estar ali um dia”, conta Sher. “Mas eu ainda não tinha feito minha transição e eu ainda era vista socialmente como uma pessoa de gênero masculino, eu me via naquele espaço, mesmo assim entendia que aquilo ali não seria pra mim, por que a sociedade ainda me via como um menino gay, e as pessoas que estavam ali eram todas cis héteros brancos”.

É inegável: o cenário dos esportes eletrônicos está mudando, mas, por muito tempo, era majoritariamente branco e masculino. Os próprios jogadores estão tendo iniciativas para que, cada vez mais, tenhamos um cenário inclusivo e sem preconceitos.

“Ao longo desse tempo jogando LoL e acompanhando o cenário, eu nunca encontrei alguém que eu pudesse falar que me representasse, sabe? No começo, eu não via ninguém que estivesse onde eu queria estar que me representasse e me mostrasse que eu também podia estar lá”, revela Sher. “Por isso eu sempre pensei que a gente poderia mudar isso. Eu não acho que vai ser a Riot Games a mudar isso, acho que enquanto não tiver nenhum movimento que a gente possa trabalhar e nos mostrarmos, de fato, eles não vão ver a gente, é óbvio, sabe? Precisamos fazer nossos movimentos e mostrar que também temos grandes jogadores, grandes casters que podem estar ocupando esses lugares.”

É necessário dar mais visibilidade para todos os tipos de causas para não perdermos talentos e pessoas que podem contribuir positivamente com o cenário. Ele, por si só, já é bastante assustador e intimidador, e precisamos de mais iniciativas como a CRH para que as pessoas não tenham medo de se mostrar.

Sher conta que, ano passado, criou um regulamento a fim de fazer um campeonato focado na diversidade trans, LGBTs+, mulheres, pessoas negras entre outros, mas que, com a chegada de janeiro, se atentou à uma data importante: o Dia Nacional da Visibilidade Trans, comemorada no dia 29 de janeiro. E foi quando a STrigi Manse também entrou em cena: chamou Sher para conversar e, juntas, pegaram o regulamento já pronto e transformaram na Copa Rebecca Heineman.

Dentre as motivações para realizar o campeonato, Sher também menciona sobre as pessoas trans que conhece no meio. “Eu acho que só conheço 4 pessoas trans nesse meio e nenhuma delas é negra, sabe? Não que elas não deveriam estar lá, mas a gente consegue enxergar que ainda tem muito chão pela frente para dar visibilidade para todos nós. A gente sabe como é o espaço de jogos eletrônicos, ele é cruel”, reforça Sher. “É só ver o que aconteceu com a Remilia, ela teve a vida interrompida porque foi praticamente forçada pela organização de esports a fazer a cirurgia de redesignação sexual. Não fazia nenhum sentido essas exigências, sabe? Não existe regulamento nenhum que diz que o cenário é exclusivamente masculino, é pra ele ser misto, mas na prática não é isso que acontece. A gente sabe como somos tratadas dentro desses espaços.”

Sher se refere à Maria “Remilia” Creveling, conhecida como a primeira mulher transsexual a competir na LCS, que faleceu em 2019 devido a consequências de uma cirurgia clandestina de redesignação sexual exigida pelo Renegades, time que jogava.

Outro caso também mencionado quando falamos em ocupar um espaço e se manter lá é o da apresentadora e streamer Isadora Basile, que foi desligada da empresa Xbox Brasil após sofrer ataques e ameaças da própria comunidade de fãs da empresa.

“Qualquer pessoa tem capacidade de ocupar espaços relevantes nesse cenário, mas a gente precisa abrir os olhos para tudo o que acontece lá. Olha o que aconteceu com a Isadora, ela sofreu ataques e ameaças e ainda assim foi desligada, não é o certo”, diz Sher. “Precisamos prestar atenção em quem consegue chegar lá e se manter lá, não podemos deixar que aconteça o que aconteceu com ela, não mais.”

Copa Rebecca Heineman

O campeonato, que inicialmente seria chamado de “Copa Transcurecer”, por causa da marca de Sher Machado, teve seu nome alterado após uma conversa entre as idealizadoras. “Eu assisti, há um tempo atrás, aquele documentário chamado High Score na Netflix, que fala sobre vídeo-games através da perspectiva de desenvolvedores, fãs, atletas etc e tem a participação dela, da Rebecca, então pensei “por que não usar esse nome?”, a gente vai mostrar quem foi ela, que ela foi a primeira vencedora de uma competição de esports presencial nos Estados Unidos e dar essa visibilidade para a causa, mostramos que ela é trans e que não é de hoje que temos pessoas trans nos joguinhos, que não é algo novo. Então concordamos com o nome e nasceu a Copa Rebecca Heineman”, recorda Sher.

Depois de muitos casos transfóbicos e preconceituosos dentro do cenário, Sher acredita que “atuar contra o preconceito não é questão de abrir um livro e estudar, você não vai colocar nada na cabeça da pessoa assim, mas a convivência, isso sim ajuda, ver pelo que o outro passa gera a famosa empatia, isso sensibiliza as pessoas e fazem elas pensar no por que de fulano estar passando por aquilo e ciclano não. Você só consegue ver se te mostram de perto, se deixam isso visível na tua frente, fora isso, vai ser só no imaginário, e no imaginário você não chega nem perto de sentir o que a outra pessoa tá sentindo de verdade”.

Durante a live do campeonato, será feita uma arrecadação de donates que serão dados para Ana Lumi, uma mulher trans que está juntando dinheiro para comprar um PC e poder continuar jogando e se dedicando à carreira de caster de Valorant. “A Ana Lumi é muito boa jogadora, ela é incrível e tem um potencial enorme, mas ela joga com o notebook da empresa que tá com ela por causa da pandemia do COVID-19, e quando isso tudo acabar, eles provavelmente vão pegar o notebook de volta, e aí ela vai ficar sem equipamento pra jogar e se dedicar ao casting, por isso queremos fazer isso por ela, para não perdermos esses diamantes que temos na nossa comunidade. Tem muita gente boa por aí que não tem oportunidade e por isso não se destaca, precisamos mudar isso”, afirma Sher.

Mais diversidade em castings e staffs também

“Queríamos que o casting fosse 100% de pessoas trans, mas quase não temos pessoas trans que jogam de forma competitiva, imagina alguém que se dedica a casting, análises? Então pensamos que, se queremos mais pessoas trans em mesas de análises, comentários e narração, o que precisamos fazer é capacitar essas pessoas e apoiá-las nesse sonho, por isso vamos fazer também um workshop para quem quiser ser um caster (análise, comentários e narração)”, anuncia Sher.

Com pessoas experientes e dispostas a ajudar, o workshop servirá como porta de entrada para pessoas trans que desejam investir na carreira de caster, tanto analista, comentarista ou narrador. Entre os palestrantes, estão nomes como Ken Harusame e Maria Fogeta.

“Vamos ter ajuda do Lucas Simones, que entende bastante sobre LoL, por que é coach e consegue dizer o que é bom analisar, o que o precisa ser visto numa partida e o que precisa ser comentado para que o público entenda um pouco, sabe? E aí a Maria Fogeta que é caster de Valorant e LoL e entende sobre preparo vocal, sobre o que fazer nas narrações… essas coisas. E o Ken Harusame que tem muita experiência e bagagem em análise e casting de League of Legends”, explica Sher. Ela também mencionou que ficou muito feliz em ter Ken Harusame se voluntariando para participar do projeto. “Ele é uma referência pra mim, foi uma das primeiras pessoas pretas que eu conheci no cenário de LoL”, confessa.

Além de preparar pessoas trans para o casting, caso queiram, é importante também lembrar que o League of Legends está com uma nova proposta de Ligas Academy e a Copa Rebecca Heineman também vai servir para que todos os times possam ficar de olho em novos talentos.

Ser inspiração para que todos possam ser o que quiserem

“Quando estão jogando SoloQ, as pessoas são xingadas, sofrem transfobia, racismo, precisam aturar machismo… e isso tudo acaba afastando essas pessoas do jogo. Tendo esse campeonato, espero que as pessoas percebam que terão apoio e estarão ali acompanhadas, e que isso aproxime cada vez mais pessoas trans do LoL. E que possamos falar para eles que estamos ocupando muitos outros lugares além desse”, diz Sher.

Ela conta que, antes de transicionar, em 2018, tinha muito medo de fazer a transição por medo do que as pessoas iriam falar. “Eu queria ser professora e tinha muito medo de fazer a transição porque ficava pensando se eu ia conseguir chegar na sala de aula… e antes da sala de aula era preciso passar pelos diretores da escola, o governo, os pais e aí os próprios alunos. E eu ficava com medo do que eles iriam pensar de mim dentro daquele espaço… eu pensei muito e cheguei a achar que a prostituição seria o único caminho para mim”, confidencia Sher. “Sabe, sem brincadeira, na minha cabeça, lá em 2018, eu só via pessoas trans na prostituição… eram poucas as pessoas trans que tinham espaços relevantes, e - ainda bem - eu tive contato com essas pessoas e elas foram uma fonte gigantesca de inspiração para mim. Eu olhava e pensava que, ‘po, eu posso sim fazer o que eu quiser e posso ocupar o lugar que eu quiser’. A minha ideia com esse campeonato é justamente essa: mostrar que podemos ocupar o espaço que quisermos, normalizar nossa vivência dentro de qualquer espaço e ser, nem que seja um pouquinho, uma fonte de inspiração pras pessoas que querem entrar no cenário de jogos eletrônicos”.

O desejo de Sher é que os times possam olhar com carinho para todos que irão participar da Copa Rebecca Heineman e que os considerem por suas capacidades e habilidades.

Ela também explica que “algumas pessoas trans ainda lutam bastante contra a dismorfia. Existe a dismorfia e a disforia de gênero, a diferença é que a disforia de gênero é você não se sentir confortável com o gênero do qual você faz parte, e a dismorfia é você ter qualquer tipo de desagrado com alguma parte do seu corpo, você sentir que aquilo não te pertence, e muitas pessoas trans tem esse problema e acabam não aparecendo e não se mostrando por que tem vergonha desses aspectos, e isso pode fazer com que eles percam muitas oportunidades boas, sabe? Então queremos estar aqui e mostrar que eles podem ser o que quiserem e que não precisam ter vergonha de quem são, e nem medo de se mostrar”, explica Sher.

O campeonato conta com o apoio de figuras importantes do cenário de esports como as streamers Camila “Kalera”, BryannaNasck, Samira Close e também a jogadora de CS:GO da Black Dragons Olga “olga”. A Copa Rebecca Heineman está aberta para receber o apoio e parcerias de quem se interessar em ajudar.

As inscrições para jogadores podem ser feitas através deste link. E, para parcerias e apoio ao campeonato, as DMs da Sher “Transcurecer” e da STrigi Manse estão abertas à todos. Bora apoiar e dar visibilidade para essa causa!