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Exclusivo: Entenda como foram suspensos 15 jogadores da Liga NFA; paiN e LOUD não aceitam decisão

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Na última semana uma grande polêmica chegou no cenário competitivo de Free Fire, no qual 15 jogadores foram banidos por usar programas de trapaças na Liga NFA (National Free Fire Association).

O ESPN Esports Brasil teve acesso às investigações da Liga, que envolvem softwares que alteram os registros dos computadores e que auxiliam a mira.

A Liga divulgou na última terça-feira (10) que suspendeu de seus torneios online os jogadores Blackn444 (Anarchysons), Device (Sem Org), Dan (Tropa Free Fire), GS e Jordan XP (Noise/LOUD), BLACKVX5 e Bigzao (AmazonCripz), OAKLEY (Singularity), Moreno333, Rekkon, Higo e Bluck7 (Faz o P/paiN), DaBala (AllBank) e FBE (PM Gaming). A suspensão vai até o dia 5 de abril de 2021 por usarem programas de terceiros.

A TRAPAÇA

A Liga NFA é um torneio independente de grande visibilidade no cenário nacional e que tem como diferencial o uso de emuladores de dispositivos Android para rodar Free Fire em computadores.

As investigações revelaram um enorme sistema de comercialização de programas que fazem alterações nos registros do Windows em grupos de Discord e WhatsApp, além de mensagens privadas no Instagram. Os preços desses programas variam entre R$ 100 e R$ 150.

A divulgação desses programas acontece no YouTube e um dos mais populares, o ELITE REGEDIT, teve seus primeiros vídeos lançados em agosto e o narrador diz que “O intuito de nossa regedit é auxiliar a sua mira, aumentando sua estabilidade”.

Essas mudanças ajudam o usuário a travar a mira na cabeça dos adversários nas partidas de Free Fire – o game já tem em sua configuração padrão uma assistência de mira, entretanto as alterações facilitam ainda mais os abates. Com esses registros alterados, o jogador possui uma grande vantagem e consegue acertar disparos certeiros mesmo a longas distâncias.

Em uma busca simples no site de vídeos, além do ELITE REGEDIT, é possível encontrar diversos outros programas e “dicas” para alterar o registro dos emuladores e no funcionamento do mouse no Windows.

É importante lembrar que o Registro do Windows é um banco de dados presente em todos os computadores com o sistema operacional da Microsoft. É nesse sistema que são armazenadas todas as configurações dos aplicativos e hardware. Alterar as entradas podem expor o computador do usuário a programas maliciosos, criar backdoors e também causar mau funcionamento do computador.

A INVESTIGAÇÃO

Por ser independente, ou seja, sem vínculo com a Garena, a NFA atua em conjunto com desenvolvedora BlackBox para monitorar o uso de trapaças durante as partidas do campeonato.

As investigações começaram após a NFA receber denúncias anônimas sobre jogadores que aparentemente estavam utilizando desses métodos durante os torneios, afetando assim, a integridade da competição.

Com o método de trapaças descoberto, a BlackBox e a NFA desenvolveram uma técnica para coletar os dados dos computadores dos competidores e, com isso, identificar quem estaria utilizando as trapaças no torneio. Foi assim que a NFA chegou aos nomes dos jogadores que estavam utilizando as trapaças.

Para disputar nas competições da NFA os jogadores precisam executar o programa anti-cheat da BlackBox e deixar o software sendo executado em segundo plano durante todo o período de competição.

O BlackBox identifica se o registro do Windows foi alterado, buscando as modificações executadas pelos programas trapaceiros e outros softwares de cheat. Essa funcionalidade foi desenvolvida com exclusividade para a NFA identificar os jogadores que possam se utilizar desse expediente durante as competições.

Além disso, o BlackBox baixa o log de sistema do Windows para identificar se o registro foi alterado e, mais tarde, retornado ao seu estado original. Porém, existem traços residuais nos quais o programa anti-cheat consegue identificar.

Por ser uma técnica de detecção recente, a NFA não consegue definir a data exata de quando o uso de trapaças começou a circular entre os jogadores profissionais de Free Fire.

A punição por uso de trapaças está previsto no livro de regras da Liga NFA, assim como o uso obrigatório do aplicativo BlackBox no computador onde o jogador disputa as partidas da NFA, como aponta o artigo 7º:

7.1 BlackBox

É obrigatório o uso do aplicativo BlackBox por TODOS os participantes dos times. Caso o mesmo não seja identificado como ATIVO e sob monitoramento, o mesmo será REMOVIDO da sala e o time continuará para a partida com jogadores a menos.

O JOGADOR DAN

Outro jogador que inicialmente foi suspenso, foi Dan, da Tropa Free Fire. Entretanto, a decisão foi revertida. Segundo a NFA, a organização explicou o ocorrido.

O software BlackBox identificou que o computador que jogador estava utilizando tinha um programa ilegal. A questão é que Dan estava utilizando o PC de um dos diretores da organização e, por falta de conhecimento das regras do BlackBox, não realizou a devida formatação da máquina antes de entregá-la ao jogador DAN.

O diretor admitiu que o programa utilizava o programa para jogar TIBIA, o qual após ter as informações em mãos, os desenvolvedores da BlackBox constataram que o programa esteve em execução durante as partidas da NFA, mas não tinha scripts designados para o Free Fire.

Com isso, a punição foi designada para a Tropa Free Fire, que acabou perdendo 30 pontos na tabela da Liga NFA.

IMBRÓGLIO COM OS TIMES

A NFA entrou em contato com os times e ofereceu apresentar as provas para as equipes desde que assinassem um termo de confidencialidade para que as técnicas de detecção de trapaceiros não fossem divulgadas.

Anarchysons, Sem Org, Tropa Free Fire, AmazonCripz, Singularity, AllBank e PM Gaming concordaram com os dados revelados pela investigação e acataram as punições. A LOUD (que é a dona da NOISE) e a paiN (Faz o P) não aceitaram os termos e decidiram se retirar da liga.

A NFA, entretanto, alega que as negociações ainda não terminaram e que estuda chegar em uma definição amistosa com as equipes.

Segundo Marcelo Camargo, CEO da NFA, a empresa não visa “acabar com a carreira profissional dos jogadores, entretanto a punição deve existir para não prejudicar a integridade competitiva do torneio”.

Porém, após a divulgação de que a NOISE (equipe de emuladores da LOUD) e a Faz o P (da paiN) estariam se retirando da competição, a Liga começou a sofrer ataques por parte dos torcedores.

A NFA decidiu revelar o processo de investigação para a reportagem do ESPN Esports Brasil e vai divulgar os dados para outros veículos ainda nesta segunda (16).

O ESPN Esports Brasil procurou a LOUD e recebeu o seguinte comunicado:

"A LOUD foi informada pela NFA sobre as acusações 1 dia antes de seu anúncio oficial. Compartilhamos nossas preocupações com eles para analisarmos os relatórios oficiais primeiro, porque anteriormente tivemos uma outra situação com uma acusação equivocada, que envolvia a Blackbox e resultou em toxicidade contra nosso jogador de apenas 14 anos. Por causa desta situação, estabelecemos uma comunicação direta com os proprietários da NFA para evitar que esta situação desastrosa se repetisse.

De forma alguma a NFA tentou resolver os problemas conosco nas semanas que antecederam o incidente. Apenas forneceram um termo de confidencialidade horas antes do anúncio que era legalmente preocupante e quando perguntamos sobre uma possível revisão do caso, a LOUD foi informada de que todas as provas supostamente estariam 100% certas de que todos jogadores eram culpados, mas um dia após o anuncio dos jogadores banidos, já existem relatos que em uma revisão recente feita para outra organização foi revelado que os arquivos detectados pelo Blackbox poderiam não ter relação com o Free Fire.

A LOUD reforça a decisão de deixar a NFA, devido à essas e outras preocupações com a forma de gestão da competição."

A paiN Gaming informa "que a line-up 'Faz o P' recebeu da organização da NFA um NDA, e por não concordar com a unilateralidade do termo de confidencialidade apresentado, não assinou o documento. A equipe também informa que não irá participar da NFA".

A Garena oficialmente não apoia o uso de emuladores para seus jogos, apesar do ecossistema mobile ser profundamente afetado pelos usuários do PC que compartilham filas normais e ranqueadas. Jogos como PUBG Mobile identificam jogadores que estão jogando em emuladores e colocam esses jogadores em uma fila separada.

O ESPN Esports Brasil procurou a Garena para comentar sobre o uso de emuladores para jogar Free Fire, porém a empresa optou por não se pronunciar.

O QUE É O BLACKBOX?

O BlackBox é um software anti-cheat desenvolvido no Brasil e que atua junto com diversos organizadores de torneios para identificar o uso de softwares de trapaças (cheats). Com tecnologia de machine learning, o BlackBox consegue rastrear diversos usos de programas maliciosos em nível de Kernel e também alterações no registro de sistema (similar ao Vanguard, utilizado em VALORANT).

Além da NFA, a OnGame, de Point Blank, e a Z8Games, Crossfire, também utilizam a ferramenta para a organização e aferição de seus torneios.

FUTURO DA NFA

Tendo em vista os problemas gerados por conta dos torneios online, a NFA declarou ao ESPN Esports Brasil que em 2021 todos os seus torneios passarão ser presenciais. Este processo ainda está em fase de estruturação, porém, esse é um motivo secundário para que a suspenção dos jogadores fosse de apenas de seis meses.

Em comunicado, a organizadora diz que a própria Liga NFA se encarregará de zelar pela integridade das máquinas dos players. “Com isso queremos que o cenário do Free Fire seja levado a sério como um esport profissional de alto desempenho”, diz Marcelo Camargo.

“Assim, os players que se sentiram injustiçados pelas punições podem provar seu valor como jogadores profissionais nas futuras competições presenciais da liga”, conclui o comunicado.