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Uma conversa sobre inclusão e diversidade nos esports

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Apresentadora de esports foi reconhecida internacionalmente nos Esports Awards em 2019 (6:13)

O assassinato de George Floyd pelas mãos de um policial em Minneapolis no dia 25 de maio deu início a um debate naquele país sobre o racismo estrutural e a experiência dos negros nos Estados Unidos. Os efeitos foram uma maior consciência pública do racismo e preconceito em muitos aspectos da vida cotidiana. Isso afetou várias indústrias em todo o país, e os esports não foram exceção.

Desde então, personalidades de esportes eletrônicos recorreram às redes sociais para falar sobre incidentes de racismo e expressar seu apoio ao movimento Black Lives Matter.

O ESPN Esports entrou em contato com Samsora (profissional de Super Smash Bros.), Erin Ashley Simon (apresentadora e jornalista, VENN), Amanda Stevens (jornalista e consultora de diversidade e inclusão) e Malik Forte (produtor e apresentador, anteriormente na Overwatch League), que têm apoiado abertamente o Black Lives Matter, para saber mais sobre os problemas que afetam os negros na indústria dos esports, incluindo os desafios que os jogadores negros, criadores de conteúdo, apresentadores e analistas enfrentam e quais equipes, organizações e plataformas de streaming podem fazer para fomentar uma comunidade mais diversa.

Quais são os problemas, desafios ou obstáculos que você enfrentou como pessoa negra na comunidade de esports ou que viu outras pessoas enfrentarem?

Ezra "Samsora" Morris: Não enfrentei muitos desafios nas minhas experiências. Claro, as ocasionais piadas racistas podem aparecer com frequência porque as pessoas pegaram rancor com o meu sucesso no Smash, mas além disso, não tive desafios perceptíveis. Muitos dos melhores jogadores do Smash fazem parte de minorias, incluindo o melhor jogador do mundo, MkLeo, que é mexicano.

Um dos obstáculos que vi os negros enfrentarem na comunidade de jogos é sempre o racismo flagrante. Desde ver clipes de pessoas jogando e ouvir os oponentes dizerem calúnias até comentários racistas que os jogadores fazem em certas plataformas. Sempre foi transparente e eles nunca tentaram esconder isso.

Erin Ashley Simon: Minha experiência ao entrar em cena e me desenvolver profissionalmente não foi o aspecto desafiador, mas o racismo aparece quando você é uma figura pública. Seja nas redes sociais, no chat da Twitch, é um problema que está enraizado na cultura da internet. E como a internet está fortemente ligada à cultura dos esports, isso também faz parte. Então, estive em transmissões onde fui chamada de macaca e outras palavras depreciativas. Sou muito grata pelas várias oportunidades em minha carreira, mas às vezes pode ser difícil, especialmente quando você é a única pessoa negra em uma transmissão, e mais ainda por ser negra e mulher.

Além disso, é importante entender a disparidade entre os esportes eletrônicos que, muitas vezes, não acho que esteja realmente na cabeça das pessoas, não intencionalmente. Mas esta é uma indústria que impulsiona os jogos de computador. Existem várias pessoas dentro da comunidade negra que não podem pagar pelos PCs, então há um nível de desvantagem quando se trata de outras pessoas negras entrando em cena. A tecnologia é e pode ser uma barreira para muitos, mas especialmente para comunidades carentes e com poucos recursos.

"Eu já estive em transmissões onde fui chamada de macaca e outras palavras depreciativas. Sou muito grata pelas várias oportunidades em minha carreira, mas às vezes pode ser difícil, especialmente quando você é a única pessoa negra em uma transmissão, e mais ainda por ser negra e mulher" Erin Ashley Simon

Amanda Stevens: Para mim, pessoalmente, acho que o fato de ser trans surge muito mais do que minha raça, no que diz respeito à discriminação que enfrentei na indústria dos esports. Mas também reconheço que, devido ao fato de ser birracial, pareço ambígua - na maioria das vezes as pessoas geralmente não sabem que sou negra ou questionam que sou negra.

Como Erin disse, uma das maneiras pelas quais tenho visto uma disparidade entre os negros nos esports é o acesso à tecnologia. Quando as pessoas me perguntam "por que não vemos mais profissionais negros nos esportes?", geralmente tenho que entrar em um papo que pessoa não está esperando. Especificamente, os requisitos que vêm junto com estar no 1% de alguém que joga um esport incluem ter um computador e uma internet decente, o que não é o caso de muitas famílias negras.

Separadamente, assim como Erin e Samsora mencionaram, existe o racismo em coisas como o chat na Twitch. Frequentemente, parece que muitos canais da Twitch para eventos de esports não têm uma moderação de chat grande o suficiente, e isso faz com que o chat tenha mensagens racistas. Como alguém que recebe muitos comentários depreciativos por ser trans, imagino que seja a mesma coisa com a raça. Você os nota e eles acabam atrapalhando o seu desempenho.

Malik Forte: Eu poderia ficar com vocês aqui o dia inteiro falando sobre as agressões e muito mais, mas o que mais se destacou para mim foram os momentos em que meu trabalho foi visto sob um microscópio - a ponto de as comunidades e colegas não me darem espaço para crescimento. Já é assustador, assim como tentar se integrar a uma cultura onde você é a minoria (na maioria das vezes eu era a única pessoa negra envolvida), então ser julgado em uma escala completamente diferente e ter pouco espaço para erros foi extremamente frustrante. Houve momentos em que isso trouxe o melhor de mim, porque eu sabia que não havia muito espaço para erro, mas na maioria das vezes isso pode ser muito estressante e até desmoralizante.

Como equipes, organizações e plataformas de streaming podem promover uma comunidade mais diversa e torná-la mais acolhedora para os negros?

Samsora: Eu acho que as equipes, organizações e plataformas de streaming podem promover mais diversidade na comunidade fazendo parcerias com negros. No cenário do Super Smash Bros., é muito bem feito porque havia muitos parceiros negros antes da COVID-19, então boa parte do cenário possui diversidade. Mas quando você olha para outros jogos, como League of Legends, que tem apenas uma pessoa negra (Aphromoo), não parece diverso. Mas acho que é de cada jogo. ... O Smash sempre teve diversidade.

Simon: Equipes, organizações e plataformas de streaming podem fomentar uma comunidade mais diversificada e torná-la acolhedora, deixando claro que não tolerarão qualquer forma de racismo, sexismo, etc. Fornecendo recursos que ajudarão a desenvolver as pessoas para que possam entrar neste espaço. Alinhar-se com faculdades e escolas é uma ótima maneira de envolver os jovens em jogos de PC desde o começo, mesmo que eles próprios não tenham um em casa.

Mas também, o desenvolvimento de carreira é importante para o crescimento sustentável. ... Há tantos streamers, criadores de conteúdo, casters, comentaristas e jornalistas talentosos, mas há muito pouco apoio em termos de explicar o que eles precisam fazer para levar as coisas para o próximo nível. A maioria, por exemplo, nem sabe montar um reel apropriado, e eu também não, mas tive alguém na mídia tradicional que ajudou a me desenvolver. Se eu não tivesse esse desenvolvimento, poderia ter perdido as oportunidades? Possivelmente. E principalmente para quem vem de áreas de baixa renda, essa informação pode fazer a diferença.

Stevens: Quando penso sobre essa questão, acho que a primeira coisa que as organizações realmente precisam considerar é ter certeza de estão sendo autênticas. Obviamente, em algum nível, cada organização quer ser diversa - seja nos jogadores, na equipe que contratam ou nas iniciativas que têm. Mas pode facilmente dar errado se a comunidade não considerá-lo autêntico. A maneira mais fácil de ser autêntico é não ficar pensando no que fazer, digamos, durante o Mês da História Negra, mas como você promove a diversidade o ano todo? Quando converso com os clientes, sempre os lembro de que você não precisa exagerar para fazer dar certo.

Você tem produtos? Use modelos negros. Você trabalha com influenciadores? Tente encontrar influenciadores negros adequados à sua organização. Precisa de um host? Veja os streamers da Twitch que são negros ou ativamente compartilham o trabalho de negros. Uma das coisas que realmente quero abordar é que muitas vezes as pessoas falam sobre encontrar a pessoa "mais qualificada" para uma oportunidade, o que parece ótimo em teoria. Mas quando já admitimos que falta diversidade em nosso espaço, como você acha que as pessoas vão construindo essas qualificações? Precisamos trabalhar em prol da diversidade ou nunca veremos mudança.

Forte: É necessário que haja mais negros, pessoas de cor e mulheres em posições de liderança em todos os lugares. Dos organizadores da comunidade às equipes, às transmissões e produções, é preciso haver mais representação em todos os setores, para que todos se sintam responsáveis e bem-vindos. E não começa apenas com a diversidade - é preciso haver inclusão em todas essas frentes também. Todas as pessoas devem ter a oportunidade de ver as coisas e tomar as decisões, em vez de ser sempre apenas homens brancos falando por todos.

Você diria que a comunidade dos esportes tem sido receptiva ao movimento Black Lives Matter? Como isso mudou desde os protestos por conta da morte de George Floyd?

Samsora: Eu acho que a comunidade de jogadores tem sido altamente receptiva ao Black Lives Matter. Muitas das principais plataformas/streamers /personalidades dos esports têm falado muito sobre a situação e a maioria dos jogadores concorda com eles. Posso dizer que a comunidade Smash tem falado abertamente sobre a situação e tem reações altamente positivas ao Black Lives Matter. Isso cresceu ainda mais após as mortes de George Floyd e Breonna Taylor.

Simon: Eu acho que o mundo e a comunidade de esports acordaram sobre o Black Lives Matter com a morte de George Floyd. Acho que a reação foi muito receptiva nas redes sociais, e foi ótimo ver tantas pessoas se juntando. Mas não consigo falar sobre como é esse efeito no longo prazo, porque levará tempo para ver o quanto a mensagem ressoou em diferentes equipes, pessoas e organizações. No entanto, estou otimista e tenho trabalhado com várias organizações que querem mudar as coisas. Então, foi um ótimo começo, mas esta é uma maratona e não uma corrida de 100 metros. As próximas etapas são cruciais.

Stevens: Honestamente, fiquei um pouco desapontada com a maneira como os esports trataram o Black Lives Matter e com o que aconteceu copmo George Floyd e Breonna Taylor. Embora eu agradeça as mensagens de apoio da maioria dos times da Overwatch League e das várias ligas de League of Legends - isso é tudo que fizeram na maioria dos casos. Apenas palavras. Ainda não ouvimos ninguém falar sobre iniciativas de diversidade ou discutir como planejam capacitar negros para que possam entrar no setor dos esports.

Claro, jogadores e organizações doaram ao Minnesota Freedom Fund, mas esse é apenas um eixo de apoio ao BLM. Isso foi em junho. Que tal julho? Ou atualmente, outubro? As organizações são muito rápidas para mudar seus avatares nas redes sociais ou vender alguns produtos. Se essas organizações realmente desejam se comprometer com o aumento da diversidade nos esports, é necessário que haja algumas conversas difíceis e mudanças sistêmicas acontecendo no setor e, honestamente, não vejo ninguém fazendo esse esforço.

"Obviamente, em algum nível, cada organização quer ser diversa, mas pode facilmente dar errado se a comunidade não considerá-lo autêntico. A maneira mais fácil de ser autêntico é não ficar pensando no que fazer, digamos, durante o Mês da História Negra, mas como você promove a diversidade o ano todo?" Amanda Stevens

Forte: Eu acho que tem havido uma boa conscientização e divulgação por parte das empresas - mesmo com muito disso me parecendo performático. Acho que é muito importante ser persistente sobre as questões dos direitos civis porque uma boa parte da demografia básica dos jogadores é afetada por eles. E muitos streamers notáveis dentro da comunidade de jogos definitivamente têm sido muito eloquentes, como DrLupo e Ninja - tudo isso foi um alívio de ver. O aliado é muito importante, e eu acho que apesar da surdez frequente de muitos homens brancos na comunidade de esports, muitos assumiram a responsabilidade de se posicionar para serem melhores aliados rumo ao futuro.

Já se passaram vários meses desde os protestos generalizados e muitos holofotes foram colocados no Black Lives Matter. Qual você acha que é a melhor maneira de manter a chama acesa?

Samsora: A melhor maneira de manter a chama acesa é falar sobre o assunto ainda mais. Recentemente, tenho ouvido ZERO coisas sobre o movimento BLM na comunidade de esports. A comunidade está especialmente na moda por causa de novos jogos que estão sempre saindo, e esse seria o próximo grande tópico. A principal maneira de manter a conversa é falar com regularidade sobre ela.

Simon: A melhor maneira de manter a conversa é continuar falando, amplificar a mensagem, educar a comunidade e agir. E especialmente abordar questões dentro da comunidade de forma consistente. Esta não deve ser uma conversa que acontece apenas quando é trending topic nas redes sociais. Requer ação, planejamento suporte contínuos. E, especialmente para aqueles que já estão estabelecidos no setor, é nossa responsabilidade também ajudar a manter a conversa e pressionar por mudanças.

Forte: Bem, primeiro gostaria de dizer que os protestos ainda estão acontecendo. Todo dia. Pode não estar recebendo a mesma atenção da mídia nacional, mas ainda existem pessoas por aí colocando seus corpos, vidas e liberdade em jogo para um bem maior. A melhor maneira de manter a conversa é promover pessoas que vivem sob a nuvem da discriminação racial diariamente. Para nós, isso não é apenas um movimento ou um cenário isolado - essa é a nossa experiência desde o momento em que acordamos até quando deitamos a cabeça para descansar. E, por esse motivo, você sempre vai nos ouvir falando regularmente sobre esses assuntos, lembrando às pessoas que os problemas ainda existem.

Stevens: Acho que todo mundo acertou em cheio. Os protestos não param de acontecer. E, para ser franca, não espero que parem até que vejamos uma ampla reforma da polícia neste país. Embora seja importante manter a conversa sobre por que as pessoas estão protestando, acho que é igualmente importante falar mais sobre a parte “Black Lives” do BLM.

Há muito mais na experiência de ser negro nos EUA e no mundo do que ser assassinado e brutalizado pela polícia. É por isso que continuo a achar que muitas das declarações sobre o BLM feitas nos esports são uma farsa. E daí que você conseguiu algumas doações? Você disse que é solidário com a comunidade negra e está chocado com o assassinato sem sentido de George Floyd. Tudo bem. Isso foi há meses.

O que você está fazendo hoje? O que você planeja fazer na próxima semana? Próximo mês? Durante todo o ano? A maneira como nós, nos esports, mantemos a conversa em andamento está dando poder aos negros. Nós sabemos que existe um problema de diversidade e, embora todos digam que querem fazer algo a respeito, não vejo ações. Infelizmente, a conversa será mantida por nós - as pessoas que estão na mira - porque não parece que nossa comunidade nos defende.

Texto originalmente publicado em ESPN Esports.