Na última sexta-feira (02), a Riot Games Brasil encerrou o mistério e divulgou as 10 organizações convidadas a serem franquias do CBLoL a partir de 2021. Entre novos nomes, como LOUD e Cruzeiro, e times tradicionais, como paiN e INTZ, a comunidade sentiu falta de uma velha conhecida: a Vivo Keyd.
Presente no cenário competitivo de League of Legends desde seus primeiros passos, a Keyd despede-se do jogo após um 2020 difícil — mas com seu nome marcado na história do jogo. Ao longo de oito anos, a organização teve dezenas de representantes, foi pioneira na importação de jogadores coreanos e abriu caminho para investimentos gigantes e sólidos para o esport brasileiro.
“O League of Legends faz parte do DNA da Vivo Keyd”, diz Eduardo Kim, fundador da organização, em resposta à Coluna da Evelynn no ESPN Esports. “Nós crescemos juntos, estávamos lá junto com a Riot construindo o cenário. Investindo, trabalhando, vivendo em função do jogo. Participamos de tudo, da construção do zero, vimos a história sendo feita, o cenário sendo formado. A gente teve grande participação nisso também”, relembra.
O executivo afirma que a organização aplicou para as franquias, mas teve um “baque” com a recusa. “O projeto visava investimentos agressivos, construção de um centro [de treinamentos] novo para a equipe academy, um prédio de cinco andares que já está até construído”, relata.
O planejamento da organização envolvia ainda “muita produção de conteúdo” e contratação de fortes nomes para a escalação, a fim de voltar a brigar pelo título. “Me surpreendeu, porque estávamos bem confiantes. (...) A Keyd ajudou a construir a história do CBLoL”, avalia Kim.
Assim, a trajetória de 8 anos da Keyd com o League of Legends encerra-se em 2020. O time despede-se após marcar presença durante todo o competitivo brasileiro do MOBA, dos torneios amadores em feiras de games à grandiosidade do CBLoL como é hoje.
Relembre os passos da organização e o que ela deixa ao cenário de LoL:
PIONEIRISMO
Criada a partir da união entre Eduardo Kim e André Pontes, a Vivo Keyd tem como raiz o Starcraft II — mas sua base foi, desde sempre, o League of Legends. Quando o CBLoL ainda era um sonho distante dos competidores, a Keyd Team já marcava presença na “Go4LoL”, série de torneios amadores que foi o ponto de partida para o cenário brasileiro.
Ainda em 2012, o primeiro grande torneio internacional teve sede no Brasil. A IEM Global Challenge aconteceu na Campus Party, em São Paulo, e teve presença da Keyd com os jogadores Mylon, Volcan, Snowlz, Rafes e Loop. Ao longo de 2013, o time prosseguiu entre os mais fortes do Brasil, rivalizando diretamente com a paiN, fenômeno no jogo desde aquela época.
Em 2014, a Keyd Stars surgia com o ambicioso e pioneiro projeto de trazer coreanos para jogar no Brasil. A ideia não veio do nada: pela impossibilidade contratual de ter os melhores jogadores brasileiros, a diretoria do clube olhou ao cenário internacional e trouxe Winged e Suno ao cenário brasileiro, inaugurando uma tendência que dura até hoje. Na Primeira Etapa do CBLoL 2020, 21 estrangeiros foram inscritos no torneio, entre jogadores e comissão técnica.
Na época, Winged e Suno atropelaram seus rivais e conquistaram o primeiro título da organização no torneio equivalente à primeira etapa do CBLoL 2014. Naquele ano, o time foi parado apenas pela KaBuM, primeira representante brasileira no Mundial.
A vinda dos coreanos Winged e Suno representou um salto importante na profissionalização e no nivelamento do cenário nacional de League of Legends. O conhecimento de jogo trazido pela dupla ecoou em toda a região — e, até hoje, a vinda de boas importações auxilia no desenvolvimento do nível de jogo nacional.
PROFISSIONALIZAÇÃO
A Keyd foi também um dos primeiros times a disponibilizar uma gaming house como centro de treinamentos para seu time. Eduardo Kim relata, neste contexto, a “evangelização” nas famílias dos jogadores para os esports, realizada em uma época em que viver de videogames era coisa de outro mundo.
“Hoje em dia, não precisa mais explicar o que é LoL, o que são esports. Mas antigamente a gente tinha que ir lá [até as famílias] e explicar o que era”, diz o fundador, afirmando que diversos jogadores campeões brasileiros tiveram a apresentação do meio às suas famílias feita pela Keyd.
Além das contratações e da estrutura, a Keyd ainda mantém um dos primeiros grandes patrocínios nos esports: o da Vivo Fibra. A parceria foi firmada em 2014 e, em 2020, renovada por mais dois anos. Em um mercado que ainda lutava por reconhecimento, a organização abriu portas com a entrada de uma marca forte em todo o país.
TOMBOS
Apesar dos grandes patrocínios e da gestão pioneira, a história da Vivo Keyd no League of Legends foi marcada por decepções e resultados aquém do esperado. Da eliminação precoce com Winged e Suno ao fracasso do Exodia reunido em 2018, a organização deixa lições valiosas com base em suas experiências negativas.
Quatro vice-campeonatos, algumas quedas nas semifinais e um rebaixamento figuram no currículo de uma das organizações mais tradicionais e queridas pelo público de LoL. Em meio a diversos “times dos sonhos”, a Keyd confundiu-se em seu próprio planejamento algumas vezes ao longo dos anos, deixando os resultados como exemplo negativo.
Entretanto, uma experiência positiva impera: a retomada do time na segunda divisão em 2019. Sem grandes estrelas, o clube apostou em um bom scouting com importações emergentes e promessas nacionais. A escalação com mumus100, Grell, NOsFerus, Klaus e Professor reconquistou a vaga no CBLoL e surpreendeu a comunidade, provando que boas campanhas não dependem de medalhões.
Bem-sucedidos ou não, os planos e resultados da Keyd ficam para a história e servem como base teórica para o planejamento de times não apenas do CBLoL, mas dos esports em geral.
DESPEDIDA (OU ATÉ LOGO)
Despedindo-se da vaga no CBLoL, Eduardo Kim tem respeito e gratidão pelo que a Keyd viveu no CBLoL. “Os momentos de alegria, de tristeza, tudo isso deve ser levado em consideração. A história que a gente formou não é 1, 2 anos. Não são 4 anos. São 8 anos, desde o começo, então é um legado. O amor ao esport, o profissionalismo, as mudanças”, diz.
Sobre os próximos passos da organização, o executivo ressalta que a Vivo Keyd começou como um time de League of Legends, mas que, atualmente, é um clube de esports com diversas modalidades. Ele cita Free Fire, Counter-Strike e Valorant, e fala de “investir pesado” nos FPS, realocando recursos.
Apesar de ser um dos planos para a franquia, Kim volta a falar de criação de conteúdo, afirmando que será um dos grandes focos da Keyd de agora em diante. “A gente não vai ficar fora do LoL porque estaremos criando conteúdo de LoL. Só não vamos estar no competitivo”, diz, emendando um ‘por enquanto’.
O fundador da Vivo Keyd reforça que a não-entrada nas franquias não é um adeus. “Por mais que a gente tenha tomado esse baque, (...) não tem como negar a ligação que a Vivo Keyd tem com o LoL. Se chegamos nesse lugar, foi a Riot que nos ajudou, que mudou as nossas vidas. Enxergamos como um até logo, vamos trabalhar pra isso. Obviamente, o planejamento mudou, mas sempre vamos estar ali para o LoL, faz parte do nosso DNA. Não tem como ficar longe do lol, até pelo carinho e pela história. Considero como um até logo”, finaliza.
Evelyn Mackus é colunista do ESPN Esports Brasil. Siga-a no Twitter e no Instagram
