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Opinião: A falta de profissionalismo que faz do cenário brasileiro o pior no League of Legends

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Worlds: Shini fala sobre afobação da INTZ no Mundial de LoL: 'acho que está faltando paciência' (0:43)

Time brasileiro sofreu três derrotas consecutivas e está prestes a ser eliminado (0:43)

A cultura do esporte no Brasil, independente de qual seja, é que, no geral, os jogadores têm dificuldade de aceitar sua função num elenco. Como acontece, por exemplo, no futebol, quando técnicos e diretores acabam sendo derrubados de seus cargos por conta da insatisfação de alguma estrela no elenco.

Esse fato também se reflete na anti-profissionalização do cenário de League of Legends brasileiro, que teve nomes capazes de fazer a diferença aqui, mas foram impedidos de fazer 100% do seu trabalho.

HIERARQUIA

Quando se fala de hierarquia, a primeira coisa que se pensa é sobre alguém mandando noutro alguém. Não é sobre isso. Hierarquia é sobre divisão de tarefas. O manager não pode jogar, essa é a função do jogador - assim como o jogador não pode e nem deve montar o time e nem decidir coisas que não lhe competem. O treinador não deve tratar da administração financeira do clube, assim como o dono/CEO não deve escalar o time. É tudo sobre a divisão simples de tarefa.

Mas o que isso tem a ver como cenário de League of Legends? Infelizmente, tudo.

NELSON, CHAWY, TABE, GEVOUS, STARDUST…

Tivemos excelentes nomes para comissão técnica que passaram pelo CBLoL e não tiveram nenhum sucesso. Não faz sentido que o Nelson e o Tabe sejam bons suficientes para a LPL (China) e não sejam para o Brasil. Não faz sentido que o Gevous seja bom suficiente pra a Europa, para levar um time europeu para o Mundial, e não seja bom para nós. Não faz sentido que o Stardust receba proposta de dois times de LCK, recuse-as para treinar aqui, e não seja bom o suficiente para poder escolher quem joga de titular no time dele.

O antiprofissionalismo sabota o Brasil. As derrotas para Japão, Oceania, Sudeste Asiático, não são reflexo de um nervosismo específico em uma partida, nem de uma jogada ou um draft equivocado; são, na verdade, reflexo da profissionalização que cresce à cada dia nos outros cenários e se estagna no nosso.

Vamos dar outro exemplo, agora os dos nossos amigos wildcard que alcançaram alguma relevância internacional.

Mas ao contrário de muitos exemplos no cenário, a INTZ é um dos times que agem com mais profissionalismo. O problema é que em nada do mundo dá pra ser bom sendo a exceção. A regra ao seu redor prevalece. Os adversários que você enfrenta são a régua que te indicam se você é bom ou ruim. Mesmo que nenhum desses exemplos tenham acontecido na INTZ e que eles tenham uma comissão técnica consolidada, eles são prejudicados por conta do cenário à sua volta.

Ainda que, claro, não estejam livres da culpa de mais um fracasso internacional do Brasil, não são um exemplo de anti profissionalismo na região.

LEGACY, RAINBOW7, SUPERMASSIVE, UNICORNS OF LOVE

A Legacy, grande surpresa da fase de entradas, tem um planejamento perfeito no ano de 2020. Perderam no meio do ano uma das estrelas do time, ENEMES, mid laner e tiveram que se contentar com o novato Halo e o então top laner Tally (que trocou de posição). Além de tudo, perderam o técnico singapurense Jensen para a liga do Pacífico (PCS) e subiram o assistente para a posição principal. Todas as tomadas de decisão do elenco foram feitas por Denian, técnico novato que assumiria o posto. Conseguem imaginar isso acontecendo no Brasil?

A Rainbow7 fez o principal mid laner da região, Leza, trocar de posição para trazer um jovem talento: Aloned. O meio driblou o ego para fazer o que era melhor para o time. Além disso, tiveram a coragem de dispensar Renyu, um dos principais nomes de atirador da região. Toda a autonomia da equipe é assinada por Skin.

E não para por aí: seu adversário na final, All Knights, substituiu a lenda da região, Plugo, por um novato de 17 anos que recém havia jogado o tier 2 do LATAM: Kiefer. Todas as mudanças assinadas pela excelentíssima comissão técnica dos sul-coreanos VicaL e Soulstrikes.

Já a SuperMassive deu o time para GBM, técnico que havia recém rebaixado a Griffin da LCK (Coreia do Sul) para a Challengers Korea. O técnico escolheu KaKAO e Snowflower para o time e teve autonomia suficiente para controlar o ego de seus jogadores e, no final das contas, fez um dream team funcionar. Uma das maiores dificuldades que se vê no League of Legends é fazer isso acontecer, já que, geralmente, a maioria dos times dos sonhos são tragédias anunciadas. Já vimos acontecer no Brasil, mais de uma vez.

A Unicorns of Love, time que está em outro patamar, é verdade, mas vale o destaque: resgatou uma line-up que jogava junto na Vega Squadron, mas com um coach diferente. É tão difícil ver cinco jogadores que já jogaram juntos se juntarem e mudarem seu estilo de jogo para o que o técnico quer que eles joguem. Sheepy conseguiu isso. O técnico que fazia parte da lendária UOL que jogou na liga europeia, fez uma line-up inteira joga à sua maneira e teve autonomia para fazer acontecer do jeito que quis. Profissionalismo.

DISCURSOS ULTRAPASSADOS

O primeiro discurso de alguns jogadores que fracassaram lá fora era de que não tínhamos estrangeiros tão bons quanto as outras regiões. Um fato que vem à memória do torcedor é de quando Blank, campeão Mundial pela SKT T1, foi anunciado na Sengoku Gaming e um jogador do cenário brasileiro citou dizendo que faria “qualquer coisa” para tê-lo em seu time, que o cenário estava atrasado por conta disso, etc.

O resultado: Blank não conseguiu vencer nenhum título na LJL. Detonation FocusMe e V3 foram os campeões nas duas etapas de 2020. Era esse o problema? Ok, vamos supor que era.

Como a Legacy, que tinha apenas Topoon como estrangeiro (jogador que atua na Oceania há muito tempo) chegou ao segundo lugar de seu grupo, com 4 australianos que não são os melhores de sua região? (Visto que os melhores estão em solo internacional).

Puxando a própria Oceania como exemplo, podemos falar de outra muleta que foi quebrada em 2020: a do isolamento geográfico. A região é tão isolada quanto o Brasil e conseguiu o triplo de vitórias em seu grupo. Mais uma desculpa sendo superada, enquanto nunca se discute como tivemos o pior macro do Mundial e temos o cenário menos profissional dentre todos no mundo.

A GLAMOURIZAÇÃO DA DERROTA

A vitória contra a Team Liquid não pode e nem deve esconder que fomos a pior região do Play-in em 2020. Nas palavras de Maestro, técnico da INTZ, em entrevista para o ESPN Esports Brasil, o time disse ter “ficado com medo de splitar” contra a MAD Lions. Ora, como pode um time ter medo de usar uma função tática do jogo?

Numa outra entrevista, Shini, caçador brasileiro, também para o ESPN, disse ter usado Nidalee pois “estava no meta e tinha que jogar”, após derrota contra a SuperMassive. Veja como os discursos mostram uma visão completamente alheia de League of Legends do resto do mundo. É desconexo.

O pensamento de “meta” foi superado em 2019, quando a Riot equilibrou quase todos os campeões do jogo e teve seu objetivo cumprido: qualquer um deles pode ser usado e feito dar certo. Justifica mesmo usar um campeão que ele não joga há quatro anos profissionalmente em uma decisão para se adequar a um meta?

As melhores campanhas wildcard foram feitas usando o meta próprio da região. Em 2016, a Albus Nox fez história usando Poppy topo, Brand suporte, Anívia meio. Forçou o banimento em Brand nas quartas-de-final do Mundial daquele ano. Em 2020, pudemos ver a UOL utilizando Ziggs meio, Orianna bot. Pudemos ver a PSG Talon utilizando Ekko selva, Sett mid (que virou “meta” depois do Uniboy ter usado na sua liga).

E depois, no final das contas, ouvir que “lutamos até o final”, “quase vencemos a MAD Lions”, “quase vencemos a DAMWON”, esconde a real origem do problema: não falamos sobre League of Legends, não discutimos a falta de profissionalização no cenário e nos agarramos em muletas.

DAQUI PRA FRENTE…

As franquias chegam em 2021 e, com elas, a esperança do torcedor em algo diferente para os próximos eventos internacionais. Infelizmente, no geral as discussões e os “in-houses” morrem nas redes sociais depois que o assunto baixa de popularidade.

Torcemos sempre pela melhora do Brasil, mas só mudar o método de competição não será suficiente para mudar que, hoje, somos a pior região no cenário de League of Legends do mundo.