Uma sombra me seguiu enquanto eu caminhava para a Arena Palacio Vistalegre, no sábado (26), para as quartas de final do Campeonato Mundial de League of Legends.
A atual campeã, Invictus Gaming, jogaria com a Griffin, seguida de FunPlus Phoenix contra a Fnatic e pela multidão barulhenta. Havia uma grande chance de que, no final do dia, a liga chinesa — a League of Legends Pro League (LPL) — não tivesse mais equipes disputando o título.
Antes de uma notícia particularmente ruim, as pessoas costumam dizer após o fato que sentiam que algo estava prestes a acontecer. De que havia uma sombra pairando sobre tal dia e que ninguém estava cientes do que ela significava até a coisa horrível acontecer ou as más notícias surgirem. Depois do acontecido, a sombra faz sentido, ficando maior em retrospecto e na recontagem de tal dia.
No ano passado, fãs, analistas e meios de comunicação sul-coreanos afirmaram ter sentido isso em Busan, de 20 a 21 de outubro, quando as duas equipes remanescentes da liga sul-coreana (LCK) foram eliminadas do torneio em casa. Me sentei no Auditório BEXCO, chorando com os aplausos persistentes para a KT Rolster entre os jogos 2 e 3. Horas depois, testemunhei a KT, o único time de que sou fã, perder para a eventual campeão, Invictus Gaming.
Eu senti a mesma sombra no sábado.
É difícil seguir a LPL no Ocidente, especialmente na América do Norte. A primeira partida na China geralmente começa às duas da manhã na minha cidade natal, Los Angeles, e se um fã casual precisa escolher entre a LPL e a LCK, ele escolherá a LCK por ser quase sempre mais proeminente.
A LPL não tinha uma transmissão oficial da Riot Games até 2015. Um grupo de intrépidos fãs da LPL — dois dos quais estavam na mesa de analistas de língua inglesa nas quartas de final deste ano, assistindo a iG e FunPlus Phoenix — transmitiram o torneio em 2014.
Dedicar-se à LPL é difícil. Os jogos nem sempre fazem sentido do ponto de vista do macro, as equipes farão coisas no Rift que você nunca pensou que fosse possível ou de todo aconselhável, e há muitos jogos para acompanhar.
Simplificando, você não consegue seguir a LPL sem amá-la; é muito trabalho para pouca recompensa. E a LPL não costuma amar você de volta.
Comecei a assistir a liga chinesa em 2014, quando um dos meus jogadores sul-coreanos favoritos, o ex-jungler da KT Rolster Bullets, Choi “inSec” In-seok, foi para a Star Horn Royal Club. Até então, eu acompanhava o torneio Champions da OGN (que mais tarde se tornaria a LCK) na Coreia do Sul há vários anos.
A Star Horn era um time confuso, com vários problemas internos e rumores de que inSec e Jian “Uzi” Zi-Hao se recusavam a conversar. Eles chegaram à grande final do Mundial naquele ano e foram atropelados pela Samsung Galaxy White por 3-1.
Então, aconteceu a offseason de 2014-15.
A maioria dos jogadores sul-coreanos que eu admirava foi para a LPL em busca de salários exorbitantes. Eu os segui, aprendendo mais sobre a liga chinesa no processo. Eu não a amei a princípio. Nada fazia sentido, especialmente para alguém que acompanhava a LCK.
INSEC
Não entendi por que as equipes tomavam certas decisões. Elas avançavam sem visão, contestavam todos os minions na rota — mesmo quando era desvantajoso fazê-lo — e lutavam em momentos estranhos.
No final de 2015, quando a China deveria se sair bem internacionalmente depois que a EDward Gaming venceu o Mid-Season Invitational, todas as três equipes chinesas foram eliminadas nas quartas de final do Mundial. Duas delas, LGD Gaming e iG, não passaram da fase de grupos.
Fãs de todas as regiões caíram em cima dos jogadores, comissão técnica e de quem ousou seguir a LPL naquele ano com um nível de crueldade que ainda é incomparável na minha experiência.
Por incrível que pareça, foi isso que finalmente me fez amar a LPL: uma solidariedade estranha e autodepreciativa. Eu a segui não com um interesse passageiro, mas com um amor genuíno.
Naturalmente, me convencer a admitir essa paixão pela LPL é difícil, pois as equipes da LPL vão te decepcionar — e da pior maneira possível. Apenas uma equipe vence o Mundial, e enquanto isso significa que todas as outras equipes do torneio perdem, as equipes da LPL carregam o estigma de perder da maneira mais dolorosa possível.
A dor da Royal Never Give Up não ter conseguido sair da fase de grupos deste ano é certamente melhor que a derrota esmagadora da RNG no ano passado nas mãos da G2 Esports. Embora a iG tenha conquistado o título, a vitória foi um curativo meia boca para a ferida criada pela RNG.
Para piorar a situação, as principais equipes da LPL no torneio deste ano sofrem com estilos de jogo hiper-focados. Quando precisam jogar fora de sua zona de conforto, elas parecem significativamente piores. Isso é mais visível na FunPlus Phoenix, mas a iG também tem culpa no cartório. Ambas agora são semifinalistas e se enfrentarão na próxima rodada, garantindo pelo menos uma equipe da liga chinesa na grande final deste ano.
Eu estava errada sobre tudo no sábado.
A FunPlus Phoenix historicamente faz um draft ruim no primeiro jogo de uma melhor de cinco. Mas ela não fez isso contra a Fnatic. De alguma forma, uma das estrelas do time, o mid laner Kim “Doinb” Tae-sang, conseguiu pegar seu melhor campeão, Ryze, em três das quatro partidas. O caçador Gao “Tian” Tian-Liang e o suporte Liu “Crisp” Qing-Song alinharam o time de forma perfeita para o sucesso.
A Invictus Gaming, que já confessou ser um time emocionalmente volátil, deixou esse aspecto afetar sua jogabilidade em grandes palcos no passado. Isso não aconteceu contra a Griffin. O MVP do Mundial de 2018, Gao “Ning” Zhen-Ning, pareceu ter uma sinergia forte com a equipe, e as rotas solo da iG foram espetacularmente bem.
Tanto a iG quanto a FunPlus falaram com a imprensa após vitórias de 3-1 em cima da Griffin e da Fnatic, respectivamente, com sorrisos enormes. A sombra que eu sentia havia desaparecido — por hora.
O que as pessoas não te contam sobre essa sombra de um desastre iminente é que ela não significa exatamente um desastre, mas antecipação. Se a KT tivesse vencido a iG no ano passado, eu teria pensado nessa sensação horrível e nauseante de nervoso no meu âmago como outra coisa. A alegria que eu sentiria com a vitória da KT seria recompensadora.
A sombra que senti no sábado foi medo, mas, também, apesar de tudo, esperança. O que as pessoas não te contam é que a esperança prospera nessa sombra desconhecida porque os jogos ainda não aconteceram. Ninguém ganhou, ninguém perdeu, e há sempre um fiozinho de esperança de a FunPlus não ser tão instável quanto mostrou na fase de grupos, ou que a iG vai usar sua emoção como força.
Em dias como aquele sábado, a LPL me ama de volta.
