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LoL: 'Não sou vilão 100% do tempo': Ranger e a torcida um ano após o Mundial

Um ano após eliminação no Mundial, Ranger se redime com torcida e assume última etapa como a melhor de sua carreira Riot Games Brasil

“Se isso acontecesse comigo no ano passado, eu sei que eu seria muito hateado”, comentou, de coração aberto, Filipe Brombilla, conhecido como Ranger. O clima de despedida era pesado na coletiva de imprensa da KaBuM pós-eliminação — favorito ao título, o time havia acabado de cair nas semifinais para a INTZ, vice-campeã da segunda etapa do CBLoL.

“Eu dei uma olhada nas minhas redes sociais… eu sei que eu não deveria, mas eu dei”, confessou o caçador à imprensa, em agosto de 2019. “E eu vi bastante gente me apoiando. Dá pra ver que o pessoal mudou bastante com relação a mim, e eu fico muito feliz”, confessou, pedindo, em seguida, desculpas aos fãs pela eliminação.

Vinicius Aguiar, gerente da KaBuM presente na coletiva, assumiu o microfone para completar a fala do jogador. “Ranger, não é que você mudou do ano passado para cá. É porque eles [torcedores] te conhecem melhor agora”, cravou.


Dez meses antes, no dia 3 de outubro de 2018, Ranger não se desculpou ao finalizar sua campanha no Mundial. “Não vou pedir desculpa, pois treinei 15 horas por dia durante 15 dias, e o resultado não veio”, publicou em seu twitter, na época. A KaBuM deixava o campeonato com uma vitória e três derrotas na fase de entrada.

Ao mesmo tempo, o jogador tornava-se alvo de ódio massivo da torcida brasileira ao pronunciar-se nas redes sociais.

“Aposenta”, dizia um torcedor. “Vai para a reserva”, “você é um m*rda”. “Entrega o mundial e vem fazer piadinha no Twitter”, dizia outro, que reclamava de declarações feitas pelo jungler minutos após a eliminação.

“Gente insignificante me dando ibope é muito poggers”, tweetou Ranger, referindo-se a um torcedor que sugeria suicídio ao jogador. À época, o caçador não percebeu que jogava, ali, a última lenha na fogueira de atenção negativa que o acompanharia durante meses.

OLHO DO FURACÃO

“Na época, eu encarei tudo de maneira muito errada”, confessa Ranger, pouco menos de um ano após a eliminação no Mundial, em entrevista ao ESPN Esports Brasil.

“Eu nunca fui um torcedor muito assíduo de futebol ou de outro esporte, e eu não acho que eu seja fã de ninguém”, diz. “Então eu nunca entendi muito bem até onde vai essa sensação do torcedor. Até onde ele se inclui na vitória ou na derrota de um time, qual é o limite para a cobrança de um torcedor. E, naquela época, eu me senti muito invadido”, assume.

“A torcida julgava que a gente era muito melhor que os outros times e tinha a obrigação de ganhar”, relembra o jogador. “Quando a gente perdeu, tinha muita gente xingando. Muito mesmo. Falavam coisas surreais, que eu não estava acostumado”, diz.

“Teve gente falando até da minha família, sabe. Que eu era uma vergonha, coisa assim”, contou, citando pedidos de aposentadoria e comparações. “Daí eu tive aquele infeliz tweet… eu não me lembro quais palavras eu usei”, ele tenta explicar o discurso. “Eu tava errado em falar aquilo, e com certeza não faria de novo”, crava.

Questiono se, naquele momento, ele entendia que se tornaria alvo.

“No nosso ambiente de time, estava todo mundo recebendo as mesmas mensagens. Tava todo mundo recebendo e comentando ‘pô, que jogo horrível’. Todo mundo falava as mensagens negativas que estava recebendo e, sei lá, todo mundo fica frustrado”, diz.

“Todo mundo tem vontade de retrucar, de responder. Aí eu pensei ‘ah, vou fazer por todo mundo’. Aí, bum, postei. E acabou não sendo uma ideia muito boa”, ele sorri de nervosismo.

“Você sente que não tinha caído a ficha de que você é uma figura pública?”, questiono, e ele é sincero.

“Até hoje eu não entendo”, confessa Ranger. “Eu sou uma pessoa de natureza muito tímida. Se eu tô na rua, eu não espero ser reconhecido, porque eu nunca fui. Agora, se eu vou no cinema, alguém pede uma foto comigo e eu penso ‘sério? por que você quer tirar uma foto comigo?’”, ele ri, sincero. “Não é algo que me incomoda, mas é algo que eu não entendo. Porque alguém ia querer ser meu fã”, divaga.

ABAIXANDO A GUARDA

No início de 2019, Ranger vivia uma fase ruim na carreira — a breve má fase da KaBuM na primeira etapa do CBLoL, em que o time teve seis derrotas seguidas no início do campeonato e finalizou a campanha em sexto lugar. Acumulando meses de estranhamentos com a torcida, o jogador conta que deu a cara a tapa naquele momento ao enfrentar o público em streams.

“O pessoal da Riot me falou que o meu nick, Ranger, era o que tinha o mais engajamento em todas as transmissões”, conta, rindo. “Porque toda vez que eu aparecia, o pessoal mandava ‘Ranger com a cadeirinha de rodas [♿️]’. Às vezes eu nem tava aparecendo, era um jogo tipo, INTZ e Uppercut… se não tinha nada acontecendo, alguém mandava um Ranger com a cadeirinha de rodas. Era um engajamento grande, e eu tava sendo muito hateado”, confessa, descontraído.

“Eu comecei a streamar, e foi muito difícil, porque… o pessoal entrava na minha stream e perguntava: ‘por que você é um b*sta?’”, Ranger relata, e eu rio. “‘Por que você é tão otário?’ ‘Você não cansa de ser ruim?’ ‘Quando você vai se aposentar?’” E eu respondia de boa… ‘Vou aposentar daqui a pouco, tô jogando muito mal mesmo’. Levava na brincadeira”, comenta.

Ele explica que gosta que suas transmissões sejam informativas, ou seja, explica o que faz enquanto joga, fazendo com que o espectador aprenda com ele. “Depois do cara perguntar ‘por que você é um b*sta’, ele perguntava ‘o que você acha desse matchup?’, e eu respondia. Aí o cara falava ‘pô, você é legal. Achei que você era um pau no c*’”, narra. “A galera foi vendo que eu não sou vilão 100% do tempo”, avalia.

RELAÇÃO COM FÃS

Após meses em contato com sua torcida, Ranger afirma que os últimos meses foram os melhores que já teve em sua carreira quando se trata de sua relação com os fãs. “Eu mantive uma agenda de stream no meio do campeonato, então todo mundo que quisesse trocar ideia, perguntar algo ou me acompanhar mais de perto podia, porque eu tinha uma relação muito aberta com a galera”, conta.

“Por mais que o resultado não tenha vindo, acho que foi o melhor split que eu já tive”, confessa, exaltando o trabalho com Wizer, a nova escalação da KaBuM, seu desenvolvimento pessoal e, principalmente, o apoio dos torcedores.

Em meio a opiniões polêmicas e visões divididas entre fãs e companheiros de trabalho, algumas pessoas comparavam Ranger a Tockers, tricampeão brasileiro estigmatizado como anti-herói pela já conhecida postura contraditória. Quando menciono o título, o jogador asserte, afirmando que “se identifica”.

“Eu sempre fui uma pessoa muito aberta com relação à minha opinião. Se eu acho alguém bom, eu falo, assim como eu falo se acho alguém ruim”, comenta. “Com situações, também, eu sempre falo o que eu penso de verdade nas minhas redes sociais”, diz.

“Eu sempre me identifiquei com opiniões contrárias”, assume. “Sinto que muita gente é travada, quase ninguém fala o que realmente pensa. É meio triste não poder ser você mesmo, não poder falar o que realmente pensa. Eventualmente, eu percebi que não tem problema ter uma opinião diferente. Sempre vai ter opiniões diversas, e é bom para o cenário que tenha gente que fala o que pensa”, opina.

APRENDIZADO

Apesar do dolorido terceiro lugar na última etapa do CBLoL, Ranger avalia 2019 de coração aberto. “Eu aprendi muita coisa que me ajudou a evoluir como pessoa. Meu objetivo é continuar essa evolução. Acho que eu tenho um trajeto a percorrer como jogador”, projeta.

Seu foco na própria evolução não foi deixado de lado após o fim da temporada. Ele revela que tem como objetivo para o final do ano fazer um bootcamp na Europa ou na Coreia do Sul, com a KaBuM ou sozinho. “Para chegar no CBLoL afiado”, brinca.

Sobre a relação com os fãs, Ranger tem leveza em seus ombros ao comentar sobre a redenção da visão da torcida com relação a ele. “Sinceramente, é muito mais fácil lidar com o público quando os comentários são positivos.”

“A imagem que os jogadores passam no CBLoL não é nem 5% do que eles são de verdade. O pessoal hateia o Duds, por exemplo. Diz que ele fala demais, que não joga nada. Agora que ele tá fazendo stream, eu tenho certeza que a galera vai conhecer ele melhor e ele vai receber muito menos hate, por ver que ele é um cara tranquilo e esforçado. Aconteceu comigo”, compara.

“Hoje em dia, é muito mais tranquilo lidar com redes sociais, para mim. Eu sinto que qualquer coisa que eu fizer e for honesto, eu vou ter apoio. Que vai ter gente torcendo pra eu me dar bem. Isso é muito gratificante, depois de tantos anos apanhando”, Ranger aponta.

O jogador expressa gratidão ao finalizar a entrevista. Questiono sobre o que os novos fãs podem esperar dele para as próximas temporadas, e o resultado é imediato. “Podem esperar dedicação, que nunca faltou pra mim”, garante. “Mas agora direcionada, do jeito certo.”

“Quero trazer um gameplay melhor, porque afinal de contas, independente do que eu sou como pessoa, todo mundo que me acompanha me acompanha como atleta, então meu foco sempre vai ser desenvolver minha habilidade”, diz.

2019 não trouxe títulos a Ranger. Em 2020, o objetivo é que os aprendizados da temporada sejam revertidos em cada vez mais resultado. “Esperem uma versão melhorada minha”, crava.