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Brasileiras que competem no Rainbow Six querem chegar nas grandes ligas via torneios de acesso

Fabi é uma das guerreiras que estão buscando um lugar ao sol no Rainbow Six Ubisoft

Poder disputar o Brasileirão e a Pro League é o sonho de grande parte daquelas que fazem parte do cenário feminino de Rainbow Six. Mas as jogadoras não querem chegar nessas competições de forma direta, isto é, sendo convidadas. Pelo contrário. As competidoras querem estar nas grandes ligas por merecimento, conquistando vagas via seletivas.

Capitã do Brave Soldiers, Chl0e é uma das jogadoras que não acham benéfico para o cenário feminino uma equipe ser alçada diretamente para as grandes competições. “Tem que ir por merecimento. Peitar geral e ganhar. Não acho válido darem vaga para a campeã do Circuito Feminino [no Brasileirão ou na Pro League] porque existem times na Challenger que estão batalhando bastante”, opinou em entrevista ao ESPN Esports Brasil.

Discurso semelhante tem Myss1, a atual campeã do Circuito Feminino junto a Black Dragons: “Não concordo com isso de dar vaga porque, da mesma forma que os meninos chegaram no BR6, a gente também pode. Me sentiria injusta. Acredito que nas meninas e que todas possuam potencial para chegar lá. Não acredito também que tenha que ter um campeonato exclusivo para o cenário feminino”.

Já a Intrépida Fabi vê que uma vaga direta nesses campeonatos “ao mesmo tempo que é uma coisa ruim, com muita gente vendo como um afago, acho que seria um jeito de a gente conseguir disputar um torneio de alto nível, melhorar e crescer mais. Tem os prós e os contras”.

“O primeiro time que entrasse, iria tomar hate. Mas o segundo não tomaria o mesmo e assim vai. No mundo hoje o feminismo está forte e leva hate. Mas é a primeira coisa, é o primeiro passo. O primeiro teria que bater no peito mesmo e defender a bola, o resto ia conseguir se inserir. Hoje falta um pouquinho disso”, afirmou a jogadora da INTZ.

Integrante da Resilience, Brun4 acha que “seria muito benéfico se a gente fosse direto”, mas afirma que as equipes “iam sofrer muito hate” por isso. Na opinião da jogadora, todos “iam falar ‘ganhou só o Circuito Feminino e já foi para o Brasileirão. Os homens jogaram contra todo mundo e se classificaram’. Se tivesse uma seletiva a gente teria mais chance de mostrar que damos bala iríamos evitar de sofrer o hate”.

RESPEITEM AS MINAS

Três das entrevistas relataram que, apesar do crescimento do cenário feminino nos dois últimos anos, as equipes sofrem em conseguir treinar contra equipes masculinas e, quando esses treinos acontecem, ainda rola muito preconceito por parte dos homens.

De acordo com a integrante da INTZ, “é muito difícil conseguir treino” e quando consegue, “é com time que tilta no meio do jogo, quita do jogo e até xinga”. A jogadora relatou ao ESPN Esports Brasil que “já teve treino que os caras começaram a xingar porque estavam perdendo e quitaram da partida.

Contudo, a Intrépida falou também sobre a dificuldade de treinar com equipes femininas porque muitas querem “esconder táticas”. Na opinião de Fabi, “a gente peca nisso porque não temos que esconder nada. Temos que saber jogar contra qualquer time e saber se movimentar, saber mudar quando precisa. Os times masculinos treinam um contra o outro. Nisso, falhamos um pouco. Temos que jogar e mostrar mesmo, mudar quando tem que mudar”.

Um dos problemas que a Resilience enfrenta ao treinar contra times masculinos, de acordo com Brun4, é o desrespeito que as jogadoras sofrem dentro do jogo: “É muito difícil acharmos um time que nos respeitem. Os caras ficam rushando, mandando indiretinha no chat e nos desrespeitando. Às vezes até ficamos desanimadas com o ódio gratuito que recebemos nos treinos

Sem citar nomes, Chl0e contou de um caso que aconteceu com a Athenas num treino com uma equipe masculina em que os jogadores mandaram no chat aberto que “o jogo estava fácil igual uma partida casual”. A jogadora classificou o episódio como “uma puta falta de respeito”. A integrante do Brave Soldiers, contudo, fala que “existem times que nos respeitam e gente que estão nos apoiando. Nossa torcida, por mais que pequena, existe”.

INCENTIVO AO CENÁRIO FEMININO

Se tem uma modalidade que mais apoia o cenário feminino, atualmente, no Brasil esta é o Rainbow Six. Desde a última temporada as jogadoras contam com um torneio próprio, o Circuito Feminino, que em três edições teve as finais sendo disputadas num importante evento de esport presencial.

O incentivo que o cenário feminino de Rainbow Six recebe “é de uma importância muito grande” de acordo com Fabi. “Sou um pouco mais velha que as meninas que estão disputando [o Circuito Feminin]. Tenho 31 anos e sempre fui apaixonada por videogame e sempre enfrentei a barreira de que menina não sabe jogar. Tive aquela época em que cheguei a usar nick masculino para não levar rage. Mas com esse incentivo estamos sendo mais respeitadas do que antes. Contudo, falta muito caminho ainda”, relatou.

Para Brun4, as oportunidades que estão dando as jogadoras de poderem disputar eventos presenciais ajudam a atrair mais competidoras. A integrante da Resilience afirmou ter certeza “que ainda existem muitas meninas que se escondem, mas elas estão aparecendo. Antigamente eram dez times e hoje já temos quase 20 e muitas meninas novas surgiram, querendo se arriscar”.

Chl0e revelou ao ESPN Esports Brasil que com a ajuda do incentivo ao cenário feminino, “já consegui converter meninas a virem para o competitivo”. A jogadora contou que a sexta integrante da Brave, “graças ao Circuito, começou a usar nick feminino. Antes ela usava um masculino. [As competições] Incentivaram muitas meninas a virem para o competitivo. É mais chance de mostrarmos que damos bala e crescermos”.