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Adeus, Exodia: o fim e o legado do quinteto mais vitorioso do CBLoL

Riot Games Brasil

O esporte cria lendas. Cria narrativas que, favorecidas por resultados, episódios ou declarações, entram para a história.

Não são os resultados, sozinhos, que eternizam um jogador. São o que seus feitos significam.

Esse relato é sobre o início e o fim do quinteto mais vitorioso do League of Legends brasileiro.

No dia 22 de maio de 2019, o mid laner Tockers despediu-se da Vivo Keyd, concretizando a saída completa da escalação que disputou a primeira etapa do Campeonato Brasileiro de League of Legends (CBLoL) desse ano. Tockers, no entanto, não deixava apenas a organização — deixava Yang, jockster, micaO e a alcunha de Exodia.

Revolta, o elemento restante do quinteto mais icônico do Brasil no LoL, deixara o time no ano anterior, partindo para a Red Canids. Na primeira etapa de 2019, as expectativas do caçador não foram atingidas, e seu time caiu nas semifinais do Circuito Desafiante. A derrota na segunda divisão foi marcante na carreira do tricampeão brasileiro — no entanto, não tão expressiva quanto o rebaixamento que seus ex-companheiros sofreriam, semanas depois.

Em 2016, Yang, Revolta, Tockers, MicaO e Jockster entraram para a história ao dominar o cenário brasileiro com assertividade e conquistar uma das mais importantes vitórias de brasileiros no League of Legends.

O quinteto encaixava de maneira quase perfeita. Os erros e acertos de seus membros se completavam em uma sinergia inédita até então — a lane segura e as rotações de Tockers casavam com o ritmo de Revolta na selva, que conversava com a utilidade de MicaO e com a assertividade e a facilidade em criar jogadas de Yang e Jockster. O estilo de jogo era orgânico, fluido e completo, até sua quebra.

Em 2018, o time reunia-se com a missão de repetir o mesmo feito. Em 2019, pela primeira vez, os cinco separavam-se por completo.

“Eu acho que a gente estendeu um pouco a nossa sorte”, divide Jockster, atual suporte da Redemption, desviando o olhar para o céu na parte externa do estúdio da Riot Games, na primeira semana do segundo split de 2019.

Online do escritório de seu novo time, o mid laner Tockers usa a expressão “bola pra frente” para referir-se à mentalidade do quinteto. “Todo mundo daquele time é muito maduro, bastante rodado. A gente sabe que ficar pensando no que aconteceu não vai levar a nada.”

“Todo mundo é muito competitivo e quer muito continuar ganhando. Ninguém pensa no passado naquela line-up”, crava Tockers.

A Havan Liberty sabia disso. Assim como a paiN, a Red, a INTZ e a Redemption.

O Exodia, enfim, desmembrou-se.


“A gente brinca, tira sarro do fato de ter sido considerado o Exodia”, confessa Tockers, negando que sinta desconforto com o termo. “Não acho que alguém se incomode, mas ninguém se deixa levar por isso. Pra mim, eu dificilmente me refiro como Exodia. Me refiro como quinteto”, aponta Tockers.

Ele continua: “Não cabe a nós julgar o que a gente fez no passado, o que as outras pessoas dizem. Pra gente, nós não somos nada mais do que aqueles cinco moleques que foram lá e ganharam tudo. Não tem essa mistificação do Exodia.”

A história do Exodia no CBLoL começa em 2015. A INTZ era recém-chegada nos esports e no League of Legends, e a escalação, até então sem estrelas, teve a adição de Revolta, caçador em má fase buscando redenção.

É difícil apontar na história do LoL brasileiro contratações mais certeiras que Revolta na INTZ de 2015. O jungler parecia ser a peça que restava à escalação, que deixou para trás no campeonato os principais times da época: a paiN de brTT e Dioud foi derrotada nas semifinais, enquanto a Keyd de Emperor e Daydream caía na grande final. Dois sonoros 3 a 0 inauguraram a história vencedora do quinteto, que conquistava seu primeiro título.

A não-classificação ao Mid Season Invitational de 2015, no entanto, manchou a história do time, que, à época, não tinha o apoio da comunidade ao seu lado. O período marcou, também, a primeira saída do caçador, que rumava sozinho à Keyd Stars. Sem Revolta, a INTZ caiu para a paiN na grande final da segunda etapa. Com Revolta, a Keyd teve o mesmo destino, mas na semifinal.

Revolta não esperou a temporada terminar para retornar ao time de Yang, tockers, micaO e Jockster. A INTZ foi campeã do torneio de pós-temporada do CBLoL e, no início de 2016, em meio a vitórias e empates nas melhor-de-dois da liga, o quinteto, treinado pelo técnico Abaxial e pelo analista Peter Dun, criava um recorde: a escalação que nunca perdeu em solo brasileiro.

Outra primeira etapa vencida, outra qualificatória para o Mid Season Invitational perdida. A derrota no International Wildcard Qualifier trouxe descrédito do time pela torcida brasileira, que regrediu massivamente em apoio, apesar da dominância nacional do grupo. Na segunda etapa, 3 a 1 contra a CNB na grande final. Na qualificatória internacional, o 3 a 2 contra a Dark Passage garantiu a vaga para o Mundial 2016.

Na estreia do Mundial, a conquista do quinteto era, possivelmente, maior que qualquer um dos títulos nacionais conquistados até então. Com um baile de Revolta em Clearlove, a INTZ venceu a campeã chinesa EDward Gaming, uma das vitórias mais expressivas de um time brasileiro no competitivo.

O restante da campanha no Mundial não seguiu os passos da estreia, e a equipe voltou ao Brasil após a fase de grupos. A janela de transferências da pré-temporada 2017 marcava a segunda separação do quinteto — dessa vez, em três partes.

SEPARAÇÃO

Em 2017, Tockers deixou a INTZ rumo à Red Canids, onde foi campeão do CBLoL. “Para mim, me separar já não é… parece um casamento, até”, ri. “Eu já sei como é não estar jogando ao lado deles, porque eu fui o único que realmente se separou, que jogou sozinho. Foi positivo, porque eu saí completamente da minha zona de conforto”, assume o mid laner.

Não apenas redimido dos erros do início de sua carreira como também com o reconhecimento de melhor caçador do país na época, Revolta levou Yang em seu retorno à Keyd Stars. MicaO e Jockster permaneceram na INTZ. Sozinho, Tockers juntava-se a uma Red Canids em ascensão, rumo a seu quarto título brasileiro.

“No início, foi até um pouco estranho. Depois, com o tempo passando, você aprende. Eu acho que pra alguns deles, o baque vai ser maior”, arrisca. “Talvez pro Jockster e pro Yang seja muito diferente. Eu tô ansioso pra ver como eles vão se adaptar a isso”, afirma Tockers.

MicaO e Jockster, em 2017, levaram três companheiros de equipe inexperientes à liderança da fase de pontos do CBLoL com a INTZ, mas caíram nas semifinais para a explosiva Keyd de Revolta e Yang. Na grande final, a liderança massiva de Tockers na Red Canids fez seus companheiros de equipe passearem sobre a Keyd, conquistando a vitória. O quinteto, mesmo dividido, prosseguia dominando o cenário brasileiro.

Mas faltava algo. Na segunda etapa, nenhum dos cinco se classificou para a grande final. A INTZ, mais uma vez, perdeu nas semifinais. Tockers sofria de uma lesão no pulso, e a Red vinha em decrescente. A Keyd, em baixa, disputou uma série de promoção — e, depois da campanha, decidiu buscar o que, aparentemente, faltava.

Os boatos na janela de transferências de 2017 para 2018 apontavam uma possível ida de tockers, MicaO e Jockster para a Keyd. A comunidade, com a fé no cenário brasileiro fragilizada por campanhas difíceis nos torneios internacionais daquele ano, animou-se com a possibilidade, e criou o meme que tornaria-se nome próprio: a Keyd tentava, na época, reunir as cinco peças do Exodia da INTZ. Deu certo.

REUNIÃO

A escalação estreou na Superliga, mas o resultado foi quase desconsiderado — a coisa só aconteceria de verdade no CBLoL. A vitória na estreia, contra a INTZ, foi simbólica. A derrota, na semana seguinte, também — o quinteto perdia, enfim, a invencibilidade nacional.

O estilo de jogo não era mais o mesmo. A falta da comissão técnica da INTZ era apontada, e o quinteto de 2018 em nada parecia-se com o de 2016. O Exodia, reunido, era irreconhecível — o jogo não encaixava, os papéis assumidos eram diferentes, as engrenagens engasgavam.

A campanha passou longe de ser perfeita, mas a Keyd escalou até a grande final. A derrota contra a KaBuM apontou o que os fãs temiam em acreditar: apesar de ter as mesmas peças, o quinteto de 2016 não existia mais. A segunda etapa mostrou uma Keyd fragilizada, com dificuldade em emplacar seu estilo de jogo.

Em 2018, o Exodia não dominava mais o cenário brasileiro.

O time classificou-se para as eliminatórias, mas caiu para a CNB, terminando o torneio em quarto lugar. Ao fim da temporada, o Exodia era opaco, e pouco enxergava-se da escalação de Peter e Abaxial.

Revolta, mais uma vez, foi o primeiro a sair. Os outros quatro prosseguiram na Keyd e, ao lado do caçador Laba e do técnico Nelson, buscaram mais uma chance na elite do LoL brasileiro. A campanha em 2019 foi abaixo do esperado. Os estrangeiros deixaram o time e o país antes da série de promoção.

Para Jockster, a última etapa, com a Keyd, foi um momento “ingrato”. “Tivemos muitas oportunidades de ganhar vários jogos e demos uma trollada ou outra. Isso se repetiu o split inteiro. Foi difícil pra todo mundo. A gente treinava muito e sentia que não estava dando frutos, porque, apesar da gente jogar bem alguns jogos, a gente sempre cometia alguns erros grotescos assim”, confessa.

“Talvez eu tenha ficado um pouco chocado, sim”, assume Tockers, questionado sobre os resultados do quinteto desfalcado em 2019. “Porque os resultados não estavam vindo. Mas, ao mesmo tempo, eu acho que, depois do que aconteceu, todo mundo olha pra trás e sabe exatamente o que aconteceu e qual foi o problema, e a gente sabe que saiu um pouco do nosso controle. Isso nos deixa mais tranquilos”, afirma o mid laner.

“Pra falar bem a verdade, no final, como quarteto, a gente não tinha qualquer briga. Acho que nosso clima nunca tinha sido tão tranquilo em tanto tempo… a gente literalmente não tinha nenhum problema quanto à convivência. Racha, briga, desconforto. A gente simplesmente se separou…” Tockers busca a palavra certa para referir-se ao fim do quinteto. “Bem, foi destino. Simplesmente aconteceu.”

Talvez na posição mais frágil de sua história, o quarteto buscou resistência contra uma Team One ascendente. Não funcionou. Yang, Tockers, MicaO e Jockster caíram ao Desafiante, e o Exodia, desgastado, morreu.


Quatro anos de altos e baixos marcam a história de Yang, Revolta, Tockers, MicaO e Jockster. O final inesperado não apaga os feitos do quinteto considerado o Exodia, e, de acordo com os próprios integrantes, não abala a relação construída ao longo do trajeto.

“A amizade sempre fica”, diz Jockster, que se recusa a guardar mágoas. “Até com o Revolta, que foi o primeiro a sair, a gente sempre foi muito amigo. Não rola clima tenso, porque a gente sabe que não deu certo dentro de jogo, mas não é por isso que não daria fora de jogo”, opina.

“Acho que foi um final ruim”, assume o suporte. “Fiquei triste que a gente não conseguiu conquistar mais nada depois de 2016. Mas eu acredito que, daqui pra frente, vai ser melhor pra todo mundo. Foi uma experiência muito boa, o tempo que passamos juntos. A gente estava precisando dessa mudança”, confessa o suporte, que lidera o início do CBLoL com seu novo time.

“Não houve briga nenhuma”, reforça Tockers. “Todo mundo sabe que todo mundo tentou seu máximo. A gente treinou muito, muito mesmo, nesse primeiro split, mas o resultado não veio, foi bem ruim pra a gente. Não ficou hard feelings entre ninguém. A gente ainda é muito amigo, e eu desejo sucesso a todos eles.”

CONTRIBUIÇÃO

Após a saída do Exodia, Yang integra a rota superior da paiN, dividindo posição com Ayel. Revolta é peça-chave na Red Canids, Tockers é a voz da experiência na Havan Liberty, MicaO volta para casa na INTZ e Jockster assume uma das rotas inferiores mais experientes da América Latina na Redemption, ao lado de WhiteLotus.

“Eu tenho total certeza de que, individualmente, a gente contribui bem mais para o cenário”, crava Tockers. “Todo mundo tem um conhecimento de jogo muito grande. Todos têm habilidade de liderança, talvez tirando o Yang, que também é um jogador muito bom. Eu acho que, pro cenário, de uma forma geral, foi melhor se separar”, declara o mid laner.

“Eu acho sempre bom quando certas… eu não queria dizer panelas, mas pessoas que jogam há muito tempo juntas, se separam. É positivo para o cenário. São novas pessoas entrando, novos conhecimentos se mesclando. Eu acho muito bom para o cenário, sim”, assume.

Tockers declara que espera o melhor para seus ex-companheiros de equipe após a separação. “Enquanto eu estou nesse campeonato e eles em outro, eu espero que todos vão muito bem individualmente. Que tenham o reconhecimento que eles merecem”, diz. “Mas, quando eles jogarem contra mim, eu espero que eles percam”, revela o mid laner, descontraído.

No Circuito Desafiante, a disputa será entre Tockers e Revolta. “Jogar contra o Revolta, para mim, é indiferente”, diz Tockers, sem rodeios. “É como jogar contra qualquer outro jogador. Já jogamos um contra o outro quando ele estava na Keyd e eu na Red, não é novo. Eu espero que a gente tenham bons jogos, apenas”, afirma o mid laner.

No CBLoL, Yang, Jockster e MicaO se enfrentarão — para os dois últimos, pela primeira etapa em suas carreiras. “É sempre legal jogar contra ele [MicaO], porque fica uma disputa de quem sabe mais que o outro”, diz Jockster. “Eu também tenho muita vontade de ganhar deles, porque tem essa rivalidade. É sempre muito divertido jogar contra qualquer um do Exodia”, afirma.

LEGADO

Entre 2015 e 2019, Yang, Revolta, Tockers, MicaO e Jockster fomentaram o cenário como nenhuma escalação havia feito antes. A INTZ foi o primeiro grupo sem estrelas que atingiu o topo, a liderança isolada.

No auge, o quinteto mostrou aos novos jogadores que é possível atingir o céu vindo do nada. Partidos, espalharam entre dezenas de jogadores de seus novos times os segredos de um grupo que, simplesmente, encaixava. Na queda, escancarou aos fãs e profissionais que boas fases não são eternas e que, principalmente, não existe fórmula mágica para a vitória.

No possível fim definitivo do Exodia, a questão é se, em outro momento, existirá um quinteto que conquistará tanta relevância e que causará tanto impacto no cenário quanto os cinco ex-INTZ.

Tockers discorda da possibilidade. “Em quantidade de títulos e importância para o cenário, não acho que vai ter, na verdade. Acho muito difícil alguém igualar. Mas nada impede que venha um quinteto que consiga resultados melhores que nós internacionalmente”, opina.

Para Jockster, é difícil que outro quinteto como o Exodia apareça no Brasil — não por misticismo, mas pela cultura imediatista da região. “Os times, geralmente, procuram resultado imediato. (...) É muito difícil cinco jogadores ficarem juntos por tanto tempo, aprender e evoluir juntos para chegar no nível que a gente chegou”, relembra.

“Na INTZ, tivemos muito tempo para trabalhar juntos. Eu, Yang, Tockers e MicaO estávamos juntos antes do Revolta entrar, e ele nos ensinou bastante coisa, também… Foi um período de tempo que nos ajudou a chegar onde chegamos. Se você simplesmente monta cinco jogadores, acho difícil chegar no resultado que chegamos”, diz o suporte.

Em momento algum, os integrantes falam com pesar, mágoa ou ressentimento sobre qualquer parte de sua história. Tockers conclui apontando que, “sem dúvida”, a palavra que define a história do Exodia é “gratidão”.

“Querendo ou não, na história de todo mundo aqui, sempre vai ter o nome um do outro. Porque foi o tempo da vida de todo mundo, a não ser que alguém consiga um feito muito grande.”

O mid laner, assim como seus ex-companheiros, não se abala com a morte do Exodia. “Em relação ao que a gente passou e como a gente passou por tudo isso, todo mundo vai levar um ao outro o resto da vida. Foi muito bom ter convivido com todos eles”, finaliza