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Warriors contrata a primeira mulher da NBA 2K League

Depois de mais de três horas de chá de cadeira e estresse, Chiquita Evans ouviu seu nome ser chamado.

Ela se levantou, sorriu, vestiu o boné do Warriors e andou até o palco com a onda de aplauso mais alta da noite. Alguém colocou um microfone na frente dela e perguntou como ela estava se sentindo. Foi então que ela finalmente desengasgou:

“Isso muda tudo”, ela disse. “Isso significa muito para mim”.

Evans se tornou a primeira mulher a ser escolhida no draft da NBA 2K League na noite de terça-feira (5), indo no quarto round para a Warriors Gaming, que é operada pelo Golden State Warriors da NBA.

Ex-jogadora semiprofissional de basquete dentro e fora da universidade, Evans é agora a primeira jogadora profissional da liga - uma entre os 126 que receberão entre US$ 33 mil e US$ 37 mil pela temporada, além de benefícios e estadia.

Chega de trabalhar como treinadora na Planet Fitness. A nativa de Chicago está partindo para a Bay Area.

“Parece surreal”, revela.

Evans foi uma das duas únicas mulheres a se qualificarem para o draft da 2K League deste ano por meio das qualificatórias online. A outra, Brianna Novin, não foi escolhida no draft, mas ainda pode ser contratada como uma “agente livre”. A NBA organiza a liga em conjunto com a Take-Two Interactive, desenvolvedora e publicadora do jogo, e não havia nenhuma mulher na temporada inaugural da liga.

Antes do draft do ano passado, o comissário da NBA, Adam Silver, afirmou que a falta de diversidade de gênero era “uma decepção para todos nós”.

A liga tentou resolver esse problema ao convidar grupos de jogadoras mulheres para discutir e encontrar possíveis barreiras para a questão. Um grande problema foi encontrado: Dados mostraram que jogadores homens não estavam passando a bola para as companheiras de time que eram mulheres -- algo que não foi visto quando a liga analisou os jogadores para formar a lista do draft de 2018.

“Isso fez com que colocássemos mais ênfase na destreza de um jogador quando ele está com a bola nas mãos”, afirmou Brendan Donohue, diretor da 2K League. “Essa é a única parte que eles conseguem controlar”.

A liga também monitorou a comunicação entre jogadores com mais cuidado neste ano, removendo diversos jogadores por comentários sexistas.

Esse tipo de assédio não é novidade para Evans, ou para mulheres nos esports em geral, e é um dos maiores desafios na hora de uma jogadora encontrar companheiros de time em um jogo que depende muito de trabalho em equipe.

Jogadoras podem tentar ignorar um oponente ofensivo - e há muitos deles na comunidade do 2K -, mas, assim como na vida real, não é possível defender uma investida adversária se seus companheiros de equipe não querem se comunicar.

Evans jogou a maior parte de seu tempo no competitivo com uma equipe mista - neste momento, cinco dos 12 jogadores são mulheres -, e isto a ajudou a prosperar como atacante. Já a experiência dela fora deste time, tanto com companheiros de equipe quanto com oponentes, não foi das melhores.

“Eu já ouvi muitos comentários sexistas”, revela a jogadora. “Já me falaram que eu devia voltar para a cozinha, que ‘2K não é para mulheres’, coisa do tipo. Não há dúvidas disso”.

A jogadora também sofreu ataques das redes sociais quando anunciou no mês passado - em seu 30º aniversário, inclusive - que havia se qualificado para o draft.

“Foi o único momento que me senti desencorajada”, afirma Evans. “Senti que as pessoas arruinaram aquele momento que era tão bom para mim”.

Outros jogadores no draft de terça-feira estavam entusiasmados em acolher Evans e Novin.

“Homem, mulher, cachorro, gato, sapo, não me importa”, disse Alexander Bernstein, um jogador que retornou para jogar pelo 76ers Gaming. “Se você é o melhor do mundo, você merece conseguir jogar”.

Isso não significa que as mulheres não sofrerão um ceticismo adicional. Kimanni Ingram, outro jogador que estava disponível no draft, jogou com Evans e respeita a maneira como ela enfrentou o desrespeito de outros jogadores. No entanto, até os elogios dele vieram com um “quê” de machismo. “Ela tem um [alto] conhecimento de basquete para uma garota”, disse Ingram. “A maioria das pessoas diria: ‘Estou jogando contra uma mulher. Ela não vai saber o que fazer’. Mas ela sabe o que está fazendo. É possível ver isso”.

A notícia da seleção de Evans se espalhou rapidamente. Técnico do Warriors, Steve Kerr foi perguntado sobre a jogadora antes do jogo contra o Boston.

“Acho que é muito legal que ela seja apaixonada e inspirada e tenha quebrado uma barreira”, afirmou Kerr. “Isso é incrível”.

“O esports se tornou algo muito grande”, disse Kevin Durant, jogador favorito de Evans. “Mais pessoas que gostam do jogo podem ter a oportunidade de se tornarem profissionais e ganharem dinheiro com isso… Acho que isso é legal”.

Jogadoras têm uma dificuldade maior em entrar na cena competitiva dos esports. Entre os circuitos mais populares, a liga norte-americana de League of Legends e a Overwatch League tiveram ou têm apenas uma jogadora mulher - e elas receberam muitos elogios e críticas nas mídias sociais.

A NBA quer ajudar Evans e Novin a cuidarem disso.

A 2K League tem um programa de transição baseado no simpósio de novatos da NBA, e adicionou sessões específicas para Evans e Novin para ajudá-las a lidar com o papel de “potenciais quebradoras de barreiras”, incluindo auxílio com mídias sociais.

Uma coisa que a 2K espera mudar em breve: O jogo ainda não inclui jogadoras mulheres.

Ao contrário da série NBA Live, da EA Sports, que inclui as escalações da WNBA e a habilidade de criação de jogadoras mulheres, o NBA 2K ainda é um jogo com apenas homens. Donohue diz que a 2K está trabalhar para adicionar mulheres nas versões futuras do título.

Mas isso não desanima Evans no momento. Ela já está escrevendo sua lista do que precisa fazer para sua nova casa em Oakland.

“Quero ver se consigo uma competição de arremessos na vida real com [Stephen] Curry”, afirmou. “Eu era conhecida por isso. Quero ver se consigo arremessar com o melhor”.