<
>

Planos e dificuldades em jogo: CEO da SPQR revela como é gerenciar uma equipe de FIFA no Brasil

Fioravante (centro), na Romênia, ao lado dos jogadores SPQR Longaray e SPQR Senna Divulgação/Arquivo pessoal

O FIFA Global Series, cenário competitivo de FIFA, tem nos dois últimos anos se firmado como um circuito de torneios importantes, desenvolvimento de sua estrutura e aumento de premiação. Buscando o mesmo patamar de popularidade que tem no futebol, o simulador da EA já tem diversas organizações e equipes investindo em jogadores profissionais para aumentar sua qualidade.

No Brasil, uma equipe em especial tem se destacado por colocar diversos de seus jogadores nos majors de FIFA 19, os chamados FUT Champions Cup. Trata-se do SPQR Streaming & Gaming, organização que conta com jogadores como Paulo ''SPQR pauloneto999'' Neto e Matheus "SPQR Longaray" Longaray.

O ESPN Esports Brasil conversou com o CEO da organização, Rodrigo Fioravante, para falar sobre como surgiu o projeto da SPQR, cenário nacional, investimento e como seus jogadores foram escolhidos.

Para começar, perguntamos como é ter e gerenciar uma equipe de esports no Brasil. Fioravante acredita ser prazeroso e desafiante ao mesmo tempo: “é um grande prazer ter uma equipe de algo que gosto, que me diverte, como jogar videogame. Ao mesmo tempo, trata-se de algo muito desafiador ao gerir uma série de pessoas jovens, que ainda estão se acostumando e migrando de uma prática que era casual para profissional. Além disso, é um desafio enorme por se tratar de um segmento que cresce muito no mundo, e precisa de trabalho diário para que também se desenvolva no Brasil”.

A SPQR Streaming & Gaming foi criada em agosto de 2018. Perguntamos ao dirigente quais são as principais dificuldades no início. Fioravante abordou o planejamento e a busca por apoio como primeiros obstáculos: “a principal dificuldade no começo é ter a confiança das pessoas que vão fazer parte do projeto. É preciso ter capacidade de argumentação e um plano estratégico que prove para estas pessoas que você está certo no deve ser feito”.

Fioravante cita mais desafios: “outro ponto é a absoluta dificuldade em ter apoio em geral, tanto da mídia, quanto de patrocinadores, porque o esport em que trabalhamos, FIFA, não é uma modalidade barata. Ela precisa de um determinado investimento para ter retorno, precisa de dedicação, divulgação e uma série de fatores que, infelizmente, sem recursos financeiros, você não consegue fazer como desejaria. Com trabalho, em pouco mais de cinco meses de equipe, já tivemos resultados e engajamento espetaculares”.

Rodrigo citou o videogame como um prazer, mas o que motivou a iniciar por FIFA nos esports? Para o CEO, a experiência que teve com o cenário do simulador fora do Brasil foi um motivador: “para começar, gosto do jogo. Agora, o negócio ficou sério quando, em minhas viagens para fora do país, tive a visão dos resultados na Europa e em países mais desenvolvidos. O Brasil tem muito potencial, muito campo e muito trabalho a ser feito. Então estamos investindo em FIFA para colher os frutos lá na frente. Nós, como país, temos um engajamento e um potencial muito grande para ser explorado, e pelos mais diversos motivos no Brasil, isso ainda não é uma realidade. Nós, assim como outras equipes, estamos trabalhando para que o sucesso do exterior seja uma realidade em nosso país”.

O CEO da SPQR disse que houve um retorno técnico rápido com os resultados obtidos no FIFA Global Serie. O retorno, até o momento, valeu ou não era o esperado? “É uma pergunta complexa. No momento, estamos num processo de investimento, portanto não estamos esperando um retorno agora. O retorno que estamos tendo é de engajamento, do pessoal aprovando o projeto, querendo conhecer o SPQR e como fazer parte dele. O retorno financeiro no momento não é nossa prioridade, e como é um projeto que tem de quatro para cinco meses, ainda estamos maturando e investindo. Com a certeza absoluta que lá na frente - principalmente se conseguirmos agregar apoiadores, patrocinadores e anunciantes, o projeto terá um retorno fenomenal em todos os aspectos, sejam eles esportivos, de marca ou financeiro”.

Como o patrocínio pode alavancar uma organização como a SPQR? Fioravante aponta como o apoio pode transformar um projeto já em curso: “não vou falar apenas em patrocínio, mas colocar também parcerias e anúncios. Nós temos 20 milhões de minutos assistidos por mês nas nossas transmissões ao vivo e nas nossas plataformas. Assim como no futebol real, alguns dos melhores jogadores do Brasil vão defender equipes da Europa, porque lá as organizações têm condições financeiras de pagar um psicólogo, condições de fechar parcerias para explorar sua, de fazer ginástica laboral para ajudar em sua saúde, eles conseguem ter um plano de acompanhamento e análise de desempenho, uma plataforma de treinamento fixa e profissional para os atletas. No Brasil, hoje, mesmo com todo o esforço, nós não temos todas essas condições”.

Fioravante completa: “gostaria de citar o exemplo do Pedro Resende, brasileiro que joga numa equipe grande da Alemanha – o Team Özil – que em cinco meses de investimento foi campeão de um Major. O Nicolas "Nicolas99FC" Villalba, um argentino, que em cinco meses que está no Basel, da Suíça, já foi campeão geral em etapa do Global Series. Na América no Sul, temos muito talento, mas precisamos de patrocínio, apoio e parcerias para poder dar as melhores condições para os nossos atletas, para que eles possam realmente se dedicar a isso e ter o suporte que precisam para, aí sim, ir para os campeonatos da EA e bater de frente com a organização que o pessoal da Europa tem. E nós, infelizmente, estamos atrás nisso, na questão de apoio e de preconceito com o esport”.

Perguntamos como se dá a venda de um projeto como a SPQR e se as equipes de futebol ainda não têm interesse. Fioravante fala sobre a construção de uma base e dos motivos que brecam a ação de clubes nos esports: “num primeiro momento, estávamos nos preocupando em construir o que eu chamo de ‘base da pirâmide’. Após construir nossa base, deixando nossos atletas conscientes da responsabilidade, pois é a imagem que queremos passar do Brasil, de que podemos competir, que temos talento, que temos organização, que podemos sim nos estruturarmos aqui. Construída a base, estamos partindo para a parte de conseguir parceiros e patrocínio”.

Rodrigo completa sobre os times de futebol: “quanto as equipes de futebol, muitas delas ainda não têm interesse porque têm contrato com a concorrente do FIFA, Pro Evolution Soccer, jogo da Konami. No mundo, a quantidade de unidades vendidas de FIFA é muito maior que o concorrente. Então as equipes de futebol do Brasil possuem um contrato com o jogo que não é líder no mundo e ainda não possuem uma cultura formada sobre como entrar nesse segmento. Nos organizamos para não depender de clubes de futebol, onde há mudanças frequentes de diretoria e de projetos. Não gostaria de colocar um projeto tão sério na mão de uma diretoria que pode, daqui a dois anos, decidir que não vai mais investir e deixar todos os nossos atletas numa dúvida constante”.

O formato do cenário competitivo de FIFA ajuda ou atrapalha? Fioravante crê mais na segunda opção: em certos aspectos ajuda muito, mas em outros atrapalha. Em todas as etapas a EA paga apenas as despesas dos atletas, não da equipe. Os custos do técnico, psicólogo, pessoal de mídia são pagos pelas equipes. É um custo muito grande para nós irmos até a Europa, local da maior parte das etapas, do que para as equipes europeias, que estão a uma ou duas horas de trem do local. Isso reflete no desempenho dos atletas brasileiros, porque muitos acabam indo sozinhos, pela primeira vez em uma viagem internacional. No Brasil também não temos muitos campeonatos presenciais, enquanto na Europa eles acontecem praticamente de forma semanal. Isso faz muita diferença”.

Para terminar, perguntamos como funciona o processo de escolha dos atletas da SPQR: “no começo, foi por meio de interação com atletas já profissionais. Conhecemos 90% deles pessoalmente. Foi muito prazeroso e difícil, porque muita gente boa merece oportunidade, mas pela falta de recursos e falta de apoio ao cenário, acabamos tendo que escolher a dedo. Em um segundo momento, foi por desempenho e indicação, pois nossos atletas acabam enfrentando outros profissionais e estão sempre conversamos para ter um feedback de seu desempenho.

Fioravante cita também a Weekend League como uma espécie de fonte de talentos e quais os requisitos de um bom profissional: “há a Weekend League, onde acompanhamos o ranking e vemos quem está se destacando. Há também o feedback da própria comunidade, que indica alguns jogadores e atletas. Outra coisa muito importante dentro da nossa equipe é que não basta ser bom. A pessoa tem que ter um comportamento adequado sadio, estar comprovadamente indo à escola. Cobramos e incentivamos estas condições.