<
>

Após denúncias, paiN comenta questões de salário, multas e premiações com time de Dota 2

Danylo "Kingrd" Nascimento (esq.) e Rasmus "MISERY" Filipsen (dir.) da paiN Gaming. Reprodução

A conturbada relação entre a paiN Gaming e seus jogadores de Dota 2 foi exposta na última quarta-feira (5) pelo site Esports Heaven. Entre as práticas questionadas estão os valores de salários, multas rescisórias e a divisão de premiação entre os jogadores e a organização.

O site afirmou ter tido acesso a documentos que comprovam salários de cerca de R$ 1 mil, multas rescisórias 200 vezes maior que o valor de tais salários, uma divisão de 50/50 da premiação de torneios e uma cláusula que indicava que os jogadores pagavam os próprios bootcamps com parte das premiações. Além disso, diz que a premiação de alguns torneios ainda não foi paga e que alguns jogadores estão defendendo a organização sem contrato, como “agentes livres”.

O ESPN Esports Brasil teve acesso aos documentos e confirmou que o salário dos jogadores gira em torno do valor divulgado, assim como a multa rescisória, que pode alcançar dígitos parecidos com as de jogadores de League of Legends. Verificamos com a paiN que o documento citado na matéria do Esports Heaven era a primeira versão do contrato, criada em novembro de 2017, e que, mais tarde, outras adicões foram feitas, sendo todas aprovadas pelos jogadores. Em uma nova proposta enviada aos jogadores, a paiN afirma que tem intenção aumentar o investimento na equipe.

Também foram confirmadas as cláusulas da divisão igualitária das premiações entre organização e jogadores, assim como a que indicava que os próprios integrantes teriam descontados de suas premiações os custos de bootcamps.

Após ter acesso aos documentos, o ESPN Esports Brasil entrou em contato com a paiN para discutir as denúncias e o que realmente está acontecendo com a equipe de Dota 2 da organização. A reportagem também entrou em contato com os jogadores para esclarecer alguns pontos, mas não recebeu resposta até o momento de publicação.

BOOTCAMPS E PREMIAÇÕES

Participaram da conversa com o dono da paiN, Arthur “Paada” Zarzur, o CEO Thomas Hamence, o Esports Manager Fernando “Erlich” Hamuche e o assessor de imprensa Dado Nogueira. O grupo frisou que os documentos conseguidos pela imprensa são confidenciais, mas que foram assinados pelos jogadores brasileiros da equipe em novembro de 2017. No entanto, munidos de documentos, garantem que a cláusula de desconto de bootcamps nunca fui cumprida e que a paiN arcou com todos os períodos de treinamento da equipe até o momento.

Outro ponto mencionado foi a questão da divisão da premiação em 50/50 entre organização e jogadores, considerada alta para qualquer cenário. Segundo eles, isso aconteceu apenas durante os três primeiros meses porque a proposta original feita pela paiN em outubro de 2017 aos jogadores não pôde ser sustentada no mês seguinte, mas que a divisão da premiação foi renegociada verbalmente, após os jogadores começarem a ir bem em qualificatórias do Dota Pro Circuit.

Erlich conta que a renegociação aconteceu após a Dota 2 Asia Championships (DAC) - em abril - e, na ocasião, os jogadores puderam escolher entre ter um salário maior, uma parte maior da premiação, ou uma mistura dos dois. “Eles decidiram ter um pequeno aumento de salário e ter uma parte maior da premiação”, revela o manager. “Após a renegociação, pagamos tudo retroativo desde as qualificatórias da WESG, disputada em fevereiro”.

O resultado foi um aumento de salário e uma renegociação para 80% das premiações ser dos jogadores, e 20% da paiN, que foram pagos de forma retroativa desde as finais da WESG.

Os representantes confessam, no entanto, que houve um problema de comunicação da paiN e que não explicaram aos jogadores, em detalhes, quando e como receberiam as premiações - e se elas já haviam sido pagas pelos torneios.

“Isso é algo que já corrigimos em nossa comunicação e os jogadores já estão cientes disso”, garante Thomas. “O que acontece é que, às vezes, o torneio demora para pagar, ou o banco demora alguns dias para concluir a transferência. Para evitar futuras confusões, pedimos aos últimos torneios que pagassem diretamente aos jogadores a parte que era deles”.

A paiN também revela que, representados por uma advogada, os jogadores também receberam dívidas trabalhistas que estavam atrasadas por problemas burocráticos e um bônus que havia sido prometido em relação a qualificatórias.

“No momento, só estamos com problema com a premiação de um único torneio, que não podemos mencionar por contratos de confidencialidade”, informou Dado.

MULTA RESCISÓRIA: PRISÃO OU PROTEÇÃO?

Uma das grandes discussões nesta denúncia é sobre a multa rescisória em relação aos jogadores da paiN. Enquanto muitos - inclusive os jogadores e times interessados em comprá-los - acham os valores altíssimos, principalmente para um cenário competitivo que ainda está em crescimento na América do Sul, a paiN afirma que o valor é para a sua própria proteção.

“Nós investimos muito no time. Muita gente acha que ganhamos rios de dinheiro com a equipe de Dota 2, mas não sabem os investimentos que fizemos para ter apenas uma parte como retorno”, diz Paada.

Os representantes lembram que pagaram pelo custeio de todos os bootcamps, salários e direitos trabalhistas, uma nova gaming house separada da de League of Legends, máquinas para que os jogadores pudessem fazer seu trabalho e alimentação. Outros benefícios, como viagens para visitar a família, em caso do jogador morar fora de São Paulo, também foram contabilizados.

É claro que muitos dos itens citados acima eram mais do que a obrigação da paiN disponibilizar. No entanto, a organização acredita que qualquer valor abaixo do estipulado no contrato abre caminho para que outras organizações comprem o passe dos jogadores sem abrir espaço para negociação. Além disso, também possui documentos confirmando que já investiu mais de R$ 1 milhão no time, o que seria outro motivo para o valor da multa rescisória.

Outro ponto levantado pela paiN, no entanto, é que os valores não são fincados em pedra. “Estamos abertos a negociações”, garante Thomas. “Até recebemos propostas e tentamos negociar, mas os valores oferecidos foram muito abaixo e sem sentido. Praticamente vergonhosos”.

O impasse que a paiN passa com seus jogadores no momento, é basicamente sobre a multa rescisória. Animados com as propostas que receberam de organizações internacionais, os se sentem enganados e presos pela paiN, enquanto a organização reafirma que está apenas se protegendo e que eles deveriam saber que valem mais do que certas ofertas.

Ambas as partes, agora, tentam chegar ao acordo de um novo contrato. Os jogadores querem um salário maior - que foi oferecido diversas vezes pela paiN na época em que um patrocinador estava interessado em ajudar -, além de uma multa rescisória pequena ou nula.

“Quando o GRD [Danylo Nascimento] publicou no Twitter que o grupo estava procurando por uma nova equipe, automaticamente perdemos uma parceria que estávamos fechando, e isso feriu demais a marca e o time”, conta Paada. “Poderíamos até ter tomado medidas judiciais, pois foi uma quebra de contrato, mas não queremos chegar a esse ponto”.

Enquanto isso não se resolve, Kingrd, Otávio “Tavo” Gabriel e William “hFn” Medeiros continuam com o antigo contrato vigente, que recebeu um aditivo que determinou a mudança da divisão da premiação entre organização e jogadores e derrubou a cláusula sobre os bootcamps serem pagos pelos jogadores, mesmo que ela nunca tenha sido seguida, de acordo com a paiN.

Omar “w33” Aliwi e Rasmus "MISERY" Filipsen tinham contrato com a paiN até o fim do The International 8. No entanto, quiseram continuar a jogar com os três brasileiros e estão defendendo a organização como “agentes livres” e sem contrato por não aceitarem os termos. No momento, recebem apenas o valor das premiações e, segundo a paiN e confirmado por imagens do ESL One Hamburg, se recusam a utilizar o uniforme da equipe.

Os representantes confessam que eles mesmos já ofereçam a equipe para outras organizações - nacionais e internacionais -, mas que nenhuma fez uma proposta concreta até o momento.

O CASO DUSTER

Além dos três jogadores brasileiros citados acima com contrato vigente com a paiN, há também Heitor “Duster” Pereira. O suporte fez parte da escalação original da organização montada em novembro de 2017 e jogou com a equipe durante todo o Dota Pro Circuit, incluindo o The International 8.

Erlich conta que, após o Mundial, a paiN sentou para conversar com os jogadores e oferecer outra renegociação de contrato sobre salários e que, na ocasião, a equipe prometeu que ficaria unida. Meses depois, Misery afirmou que gostaria de voltar a jogar e parte do time decidiu tirar Duster para colocar o dinamarquês no lugar.

“Havia um problema de comunicação com o Duster durante as partidas, pois ele sempre foi muito quieto. Acredito que a decisão pela substituição por Misery foi motivada pela ideia da melhoria de comunicação”, diz Erlich.

Paada afirma que não concordou com a decisão, principalmente porque ela foi tomada já perto do fim do período de trocas de jogadores (o “shuffle”) e Duster já havia negado propostas interessantes e internacionais acreditando que seria mantido no time. “Por conta disso, conversamos com ele e decidimos manter o contrato vigente. Ele continua a receber salário mesmo não jogando por nós e está livre para negociar com qualquer outra equipe”, garante.

O dono da paiN também explica que, pelo ocorrido, ficou decidido que Duster não tem mais uma multa rescisória por parte da paiN. “Ele só terá uma se quiser cobrar a transferência para outro time, mas isso porque a maior parte do valor ficará para ele”, afirma.

Duster, no momento, está disputando qualificatórias do DPC e outros torneios em um “mix” de jogadores sem uma organização oficial.