<
>

"Queremos o 0,0001% de atletas que são realmente bons", afirma COO da Team Liquid

Mike Milanov, Diretor de Operações da Team Liquid, durante evento em Macau. Reprodução

A Team Liquid é uma organização que não precisa de apresentações. Fundada em 2001 na Holanda como uma equipe de StarCraft: Brood War e um site de informações sobre torneios, a empresa expandiu seus negócios no esporte eletrônico durante os anos e hoje compete em 14 modalidades com 65 jogadores contratados. É, também, a terceira empresa mais valiosa da área, segundo a Forbes, com um valor de US$ 200 milhões e lucro estimado de US$ 17 milhões para 2018.

Em conversa com o ESPN Esports Brasil durante o IEM Chicago, Mike Milanov, diretor de operações (COO) da Liquid há três anos, explica que o sucesso da organização é uma junção de estudos cuidadosos sobre em quais jogos investir, a certeza de contratar apenas os jogadores mais dedicados e investimento na infraestrutura para os jogadores poderem dar o seu melhor.

“Primeiro, se o jogo não for competitivo, não queremos estar nele”, crava Milanov sobre o estudo de investimento da organização. “Depois, queremos conhecer a publisher do jogo, saber quais são os planos para o competitivo e ter uma ideia de quanto tempo o jogo terá de vida”.

Como exemplo recente, o executivo falou sobre o processo de aquisição de uma equipe de Fortnite. Segundo ele, a Liquid esperou três meses da popularidade do jogo para decidir contratar jogadores do battle-royale da Epic Games. Além disso, foram atrás dos melhores jogadores - que não necessariamente são os melhores e mais famosos streamers.

“Encontramos quatro jogadores que não tinham Twitter e nem feito uma transmissão na vida, mas agora são os melhores do mundo e estão ficando populares. Fizemos o caminho inverso com eles”, conta Milanov.

Um dos pontos que o diretor mais repetiu na entrevista, inclusive, é que a Liquid só se contenta com os melhores e mais dedicados jogadores. “Queremos o 0,0001% de atletas profissionais que são realmente bons, como a Serena Williams. É isso o que a Team Liquid significa e o que queremos ser”, diz.

O que nos levou a discutir sobre a decisão da organização de investir no cenário brasileiro de Rainbow Six. Adquirida em janeiro deste ano pela Liquid, a Mopa Team (ex-BRK) não era o melhor time da região na época. Entretanto, a organização viu o potencial dos jogadores e também do investimento no Brasil, que já contava com uma base de fãs crescente por conta dos brasileiros na equipe de Counter-Strike da Liquid.

“O time era enorme nas redes sociais, mas precisava de infraestrutura para crescer. Os jogadores precisavam de um lugar para treinar, precisavam de melhores salários e condições de vida para que jogar fosse uma carreira de verdade e precisavam de um técnico e um manager bons”, lembra Milanov. “Decidimos que podíamos fazer a diferença na situação e, ao mesmo tempo, conquistar mais fãs brasileiros”.

Claro que o comportamento dos jogadores e qualquer tipo de falta de espírito esportivo foram avaliados, mas o executivo afirma que tudo se encaixou para o investimento dar certo. E, de fato, deu certo mesmo, já que a equipe foi a primeira (e única, até o momento) brasileira a ser campeã da Pro League durante a sétima temporada.

A IMPORTÂNCIA DA INFRAESTRUTURA

Não foi a equipe brasileira de Rainbow Six que mostrou a importância de uma infraestrutura boa. De acordo com Milanov, a Team Liquid vem desde 2014 aumentando o investimento na área, assim como inovando em relação a outras organizações.

“Em 2014, fomos o primeiro time ocidental a colocar cada jogador em seu próprio quarto”, lembra o executivo. “Foi um investimento grande, mas vimos que os jogadores estavam passando muito tempo juntos e isso não estava dando certo”.

O segundo passo, diz Milanov, foi entrar em contato com a patrocinadora Alienware para um plano ousado: a construção de um centro de treinamentos para os jogadores da Liquid.

“Na época, ainda não sabíamos quais equipes treinariam no local, mas queríamos separar a vida profissional da social dos jogadores”, explica. “Também queríamos profissionalizar a indústria, ‘empurrar’ as outras equipes na mesma direção e, consequentemente, atrair novos investidores e patrocinadores”.

A ideia tomou forma, e em março de 2018 a Liquid inaugurou seu centro de treinamentos em Los Angeles - mais uma vez, sendo pioneira no ocidente. Com cerca de 930 m², o CT é equipado com tecnologia de ponta para que as equipes de League of Legends (tanto a principal, quanto a Academy) e de Counter-Strike treinem da melhor forma possível, além de ser também o escritório da equipe de produção.

Agora, enquanto muitos times estão tomando a mesma direção, a Liquid já tem planos de construir seu segundo CT, novamente em parceria com a Alienware. “Vamos inaugurar nosso segundo CT em abril de 2019 na cidade de Utrecht, na Holanda, onde a Liquid foi criada em 2000”, explica Milanov. “Além de ter a mesma tecnologia de ponta encontrada em Los Angeles, o CT na Europa também será utilizado como local de bootcamp para nossas equipes que jogarão no continente ou perto dele”.

ABRAÇANDO TODOS OS PÚBLICOS

Durante a conversa, Milanov também comentou a decisão da Liquid em investir em modalidades consideradas mais de nicho, como Starcraft, Street Fighter e Super Smash.

Segundo Milanov, a Liquid sempre estará presente em Starcraft, pois foi o jogo no qual a organização teve origem. A equipe conta atualmente com cinco jogadores na categoria, sendo que Dario “TLO” Wünsch tem contrato desde 2010. “É um legado”, garante o diretor. “Não vamos deixar o jogo mesmo que ele só tenha bastante visualização em certos períodos do ano”.

Já a ideia de ter o melhor dos melhores volta a se repetir em Street Fighter. De 2015 a 2018, a Liquid teve como representante o norte-americano Du “NuckleDu” Dang, vencedor da Capcom Cup em 2017. Para este ano, no entanto, a organização decidiu liberar NuckleDu e chamar dois dos melhores nomes do jogo vindos da região mais competitiva - o Japão -, assinando com Naoki “Nemo” Nemoto e Ryota “John Takeuchi” Takeuchi.

O executivo explica que a importância de tais investimentos vem do fato de que “existe todo tipo de fã”. “Há aqueles que mudam de jogo quando algo novo e famoso aparece, há os que estão descobrindo o que é jogar no computador, e há também aqueles que se mantêm fiéis aos gêneros que gosta”, afirma. “Como nosso objetivo é ser uma empresa global de esports, queremos ter e abraçar o maior número possível de fãs”.

Outro investimento da Liquid que já mostra a organização entrando em mais uma vertente é Clash Royale. A equipe faz parte do sistema de franquias da liga norte-americana, e Milanov garante que este é apenas um dos primeiros passos da Liquid no competitivo mobile.

“O esport mobile para a Liquid é algo de alta prioridade. Estamos vendo os jogos atuais, os que estão por vir, onde eles são jogados, se há planos para ligas, onde estão os fãs, como está a tecnologia etc.”, confirmou Milanov. “Não entramos de verdade além de Clash Royale, mas estamos observando ativamente o mercado, pois vemos seu crescimento”.

* A jornalista viajou a convite da Intel.