Quando Lukas Rossander acordou no domingo de manhã em seu quarto no Hilton em Wembley, ele sentiu borboletas no estômago.
Nas últimas três semanas, Rossander, conhecido como “gla1ve” no Counter-Strike: Global Offensive, disputou uma maratona de confrontos entre Twickenham e Wembley contra algumas das melhores equipes do mundo, como Team Liquid, MiBR, Ninjas in Pyjamas e FaZe Clan. Um veterano com oito anos de carreira no Global Offensive e na versão anterior do jogo, a Source, Rossander já está acostumado com a difícil competição.
Mas pisar no palco principal da SSE Arena no domingo foi completamente diferente. Uma vitória significava tudo.
“Eu tive dificuldades para dormir [sábado à noite] porque eu estava muito nervoso ou apenas animado para jogar a final do Major, mas eu não senti muita empolgação antes de chegar na final”, disse Rossander. “Eu tinha alcançado meu objetivo de estar na final e precisava estabelecer um novo. Foi incrível”.
Quase dois anos atrás, Rossander teve a melhor oportunidade em sua vida profissional nos esports: assumir o papel de líder (in-game leader, ou IGL) da Astralis, uma das equipes de maior sucesso do CS:GO. Desde a formação de sua base principal em meados de 2013, a equipe de jogadores dinamarqueses - que competiu pelas organizações Copenhagen Wolves, G33KZ, Team Dignitas, Team SoloMid, Questionmark e agora Astralis - lutou consistentemente por títulos e tornou-se uma das melhores de Counter-Strike da Dinamarca.
No final de 2015, Rossander tornou-se um líder de destaque em uma dessas equipes, a Heroic, uma equipe irmã da Astralis, ambas de propriedade da holding dinamarquesa RFRSH Entertainment. Ele também havia jogado pela Astralis em um major anterior, o ESL One Cologne, em julho de 2016. Essas performances e atrito dentro da escalação da Astralis, após constantes tentativas e subsequentes fracassos em erguer um troféu, fizeram Rossander ter sua chance.
Em sua fase de lua-de-mel depois de adquirir o jogador, a Astralis ficou em 3º/4º lugar em Oakland em novembro de 2016, em segundo na final da segunda temporada da ELEAGUE em Atlanta e primeiro na final da segunda temporada do Esports Championship Series (ECS) em dezembro em Anaheim, Califórnia.
Para uma escalação com flutuações em seus resultados, mas com muito potencial, Rossander parecia a chave que os levaria ao que escapou dos dinamarqueses por mais de três anos: uma vitória em um Major de Counter-Strike. A pressão existia - foi apenas a segunda vez que Rossander, então com 21 anos, havia pisado no palco principal - mas com apenas uma vitória em um torneio anterior, uma derrota não colocaria uma cicatriz no legado da Astralis.
Em um retorno a Atlanta alguns meses depois, Rossander e a favorita Astralis passaram por uma fase eliminatória repleta de adversários difíceis. A grande final foi uma disputa contra a Virtus.pro, a escalação polonesa de alto calibre que já tinha um major em seu histórico. Ao fim, a Astralis consagrou-se campeã. Rossander conseguira.
Indo para Londres 18 meses depois, a equipe novamente era a favorita. A diferença? Uma imensa pressão, construída por expectativas e resultados anteriores. Sem uma vitória em Wembley, consolidar a era da Astralis seria uma tarefa perdida. A caminhada até as finais não começou sem erros.
“[Sexta-feira] foi uma mistura de pensamentos sobre querer terminar o jogo mais rápido do que realmente deveríamos”, afirmou Peter “dupreeh” Rasmussen, rifler da Astralis. “Queríamos forçar o final do jogo, em vez de jogar utilizando o tempo e vencer corretamente. Estávamos na liderança e queríamos terminar logo para continuar no torneio. Isso foi um erro da nossa parte”.
“Quando entramos em rounds frenéticas, precisamos nos acalmar”, disse Rossander. “Eu falo isso a cada 10 segundos. ‘Acalme-se, pessoal. Acalme-se’.' Toda vez que eles jogam um flashbang, ‘Acalme-se, pessoal’. Caso contrário, o Teamspeak fica muito confuso, e você perde muitos rounds se o Teamspeak estiver assim.Você precisa estar calmo. Você precisa se concentrar em seu objetivo e se concentrar no que os outros jogadores estão fazendo, e eu preciso dizer ao meu time o que fazer nessas situações”.
No final, correções foram feitas, e Rossander e a Astralis foram resolutos e chegaram à final para enfrentar a Natus Vincere.
É raro que uma chave de playoff de um major de CS:GO termine com os dois times favoritos se enfrentando na final. Frequentemente, um cai na fase de grupos ou eliminatória contra oponentes comparáveis. Mas não no domingo. Havia um clima diferente no ar, fossem os milhares de fãs gritando o nome da Astralis ou cantando “manda eles ‘pra’ casa” para a Natus Vincere. Fosse o que fosse, Rossander fez o melhor para engolir o nervosismo e se concentrar no objetivo: outro título..
O que estava programado para ser uma luta de quatro horas não durou mais do que duas horas e meia. Rossander e sua equipe não estavam mais cometendo erros bestas. Em períodos que incluíram incríveis clutches - quebrando o estilo que a Natus Vincere utilizou durante todo o torneio de converter as vitórias em pistol rounds em três rounds consecutivos -, a Astralis derrubou os europeus orientais. A batalha funcionou como um relógio. A Natus Vincere ganhava força, mas a Astralis fazia uma jogada notável e quebrava a fortaleza mental dos adversários.
“Eu pude ver a evolução, e estes foram definitivamente os melhores jogos para nós em todo o torneio, sem dúvida”, disse Rossander.
Canhões barulhentos atiraram confetes cor de laranja para o alto. Gritos de fãs britânicos e dinamarqueses rugiram de um mar de milhares torcedores. Lágrimas e gritos de empolgação dos jogadores irromperam do palco. Legado cimentado.
“Nós nos sentimos muito mais confortáveis jogando nosso próprio jogo. Não ficamos tão nervosos como fizemos contra a Virtus.pro na última vez”, afirmou Rossander. “Parece diferente, mas a sensação de ganhar um Major ainda é a mesma. Mas a sensação dentro do jogo em si era diferente”.
Com a vitória, Rossander, Højsleth, Reedz e Rasmussen juntam-se a uma pequena lista de grandes campeões em mais de um torneio na história do CS:GO. Em menos de dois anos, as vitórias da equipe renderam mais de US$ 1 milhão entre os dois torneios. No começo do ano, Rasmussen prometeu ao seu colega de equipe Emil “Magisk” Reif, 20, o único jogador a não ser um campeão repetido, que eles conseguiriam um título para ele. Promessa cumprida.
“Estou orgulhoso de todos no time. Eles trabalharam muito ao longo de 2018, vencendo nosso segundo major e nosso primeiro por [Reif]”, disse Rossander. “Significa muito para nós”.
O jogador completa: “Somos uma equipe jovem, não sei como vamos conquistar mais do que já fizemos e como podemos evoluir ainda mais o nosso jogo. Para o meu legado, significa muito vencer um segundo major porque alguns jogadores já o fizeram e eles estão escritos na história. Eu só quero me juntar a eles”.
O triunfo em Londres vem com muito mais do que o de janeiro em Atlanta. Após sua primeira grande vitória, a Astralis teve dificuldades para permanecer consistente, vencendo apenas um torneio no resto de 2017. Outras equipes conquistaram o título de melhor do mundo, e a Astralis passou por problemas que fizeram com que Reif substituísse Markus “Kjaerbye” Kjærbye. Agora, ela tentará fazer o que não conseguiu no ano passado: continuar junta e continuar ganhando.
“Espero que tenhamos aprendido da última vez em que fomos o número 1 por tanto tempo”, revela Rossander. “Agora seremos o número 1 por mais algum tempo novamente. Precisamos trabalhar pelo menos tanto quanto fizemos. Tentar não descansar muito. Caso contrário, as pessoas nos alcançarão rapidamente. Precisamos trabalhar tanto quanto fizemos”.
