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Opinião: A fase de entrada do Mundial de LoL é legal, mas não precisava existir

KaBuM e Dire Wolves em confronto durante o Mid-Season Invitational 2018 Riot Games

Uma das infinitas discussões no competitivo de League of Legends envolve as poucas chances que equipes de regiões menores têm de enfrentar adversários de regiões maiores e, por consequência, evoluírem.

Do ano passado para cá, a Riot Games começou a trabalhar nesta questão com a criação da Fase de Entrada para seus torneios internacionais. A tentativa, no entanto, parece mais “paliativa” do que funcional.

Anteriormente conhecida como “qualificatórias wildcard”, a Fase de Entrada coloca times de regiões consideradas menores em lutas por algumas vagas no evento principal. Instaurada em 2017, a Fase de Entrada teve dois formatos até o momento.

MID-SEASON INVITATIONAL

No Mid-Season Invitational, as campeãs das ligas do Brasil, Turquia, Comunidade dos Estados Independentes, Japão, Oceania, América Latina Norte, América Latina Sul e Sudeste Asiático foram divididas em dois grupos de quatro. A melhor equipe de cada grupo, então, avançou para enfrentar times de uma região “maior”, mas que não se saíram tão bem em torneios passados.

Em 2017, Gigabyte Marines (Sudeste Asiático) e SuperMassive (Turquia) venceram a fase de grupos e jogaram contra Team SoloMid (LCS NA) e Flash Wolves (LMS) por vagas no evento principal do torneio. As duas perderam, mas uma terceira vaga disponível para a Fase de Entrada fez com que as equipes se enfrentassem e a Marines garantisse sua passagem para o palco principal.

Este ano, a história foi diferente. O bom desempenho da Marines em 2017 culminou na criação de mais uma região do League of Legends - o Vietnã, que foi separado do Sudeste Asiático. Assim, a Fase de Entrada deu apenas duas vagas para o evento principal do MSI, ao invés das três do ano anterior.

Na ocasião, Gambit eSports (CEI) e SuperMassive (Turquia) enfrentaram a Flash Wolves (LMS) e EVOS (Vietnã). Novamente, os times das “regiões menores” não tiveram muitas chances contra os adversários e não conseguiram a qualificação para o evento principal.

Tanto em 2017 quanto em 2018, as representantes Red Canids e KaBuM não tiveram desempenhos excelentes e não saíram da fase de grupos.

MUNDIAL DE LEAGUE OF LEGENDS

No Mundial, o modelo da Fase de Entrada é um pouco diferente. As oito regiões menores se unem ao terceiro seed de regiões mais fortes na fase de grupos, tendo um confronto direto com um time mais forte garantido. O número de vagas para o evento principal também aumenta, sendo quatro no total.

Na fase de grupos, as doze equipes são divididas em quatro grupos de três. Após partidas de ida e volta em melhor de 1, as duas melhores equipes de cada grupo avançam para a fase eliminatória. Assim como a divisão dos grupos, os confrontos da fase eliminatória são decididos através de sorteio, mas as partidas são em melhor de 5.

Em 2017, a representante brasileira Team oNe sofreu um pouco, mas conseguiu sair como segundo lugar do Grupo B após um desempate com a Dire Wolves (Oceania). Já na fase eliminatória, o time perdeu de 3 a 1 para o 1907 Fenerbahçe da Turquia. Resultado: nada de Brasil no evento principal do Mundial.

Este ano, a KaBuM terá sua segunda chance de levar o nosso país ao palco principal de um torneio internacional da Riot Games. A equipe foi sorteada no Grupo C ao lado de Cloud9 e DetonatioN e começa sua caminhada na próxima semana de forma confiante após semanas de bootcamp. No entanto, a confiança da bicampeã deste ano do CBLoL pode não ser o suficiente para garantir uma vaga - e a culpa disso, mais uma vez, pode ser o formato escolhido pela Riot.

SEM MEDO OU FRESCURAS

Quando comparamos o competitivo de League of Legends em relação ao de outros jogos, vemos que as ligas regionais criam um cenário muito mais seguro de se investir para as organizações envolvidas. Porém, ele também cria “ilhas” com muros muito difíceis de se derrubar.

Isso acontece porque a Riot só possui dois torneios internacionais por ano (três contando o Rift Rivals, que não é tão internacional assim). Logo, times de diferentes regiões têm poucas chances de se enfrentarem, e certas regiões crescem menos - ou até ficam estagnadas - por não conseguirem encarar de frente adversários mais fortes.

Um dos lados desse problema é o número de seeds por região. Ninguém está dizendo que certas regiões não mereçam dois ou três seeds, mas isso significa que essas regiões terão dois ou três times voltando para casa com mais experiência e dividindo isso com outras equipes de sua liga.

O outro lado do problema é a colocação desses seeds, comprovadamente mais fortes, na Fase de Entrada em um número igual ao de vagas. Quando a Riot coloca times da Europa, China, América do Norte e LMS para enfrentar times de regiões menores que raramente jogam contra adversários fortes em uma disputa por quatro vagas, ela realmente acha que haverá um milagre?

Ou melhor: por que a Riot espera contar com um milagre quando poderia estar pensando em outro formato para ajudar as regiões menores a crescerem?

Vou usar o exemplo de Dota 2, que recentemente passou por diversas mudanças em seu competitivo. É fato que os cenários são diferentes, até porque Dota 2 possui diversos torneios internacionais durante o ano ao invés de ligas regionais fechadas. Entretanto, desde 2017 a Valve instaurou qualificatórias exclusivas para a América do Sul e a CEI - consideradas “mais fracas” - que levam os times diretamente ao evento principal, não a uma fase de entrada.

Isso resultou em diversos atropelos por parte de equipes maiores e mais fortes? Com certeza. Mas a quantidade de torneios permitiu aos times das regiões menores mais investimento para crescer, assim como a oportunidade de enfrentar os melhores times do mundo só deixou os jogadores mais experientes.

Após ser eliminada por diversas vezes na fase de grupos de diferentes torneios, a paiN Gaming conseguiu contratar um jogador estrangeiro, bancar bootcamps fora do Brasil e fazer história ao terminar em terceiro lugar no ESL One Birmingham. Demorou? Bastante. Mas o próprio Danylo “Kingrd” Nascimento afirma que o time só chegou onde está por ter apanhado muito no caminho.

Outros cenários podem ser utilizados como base. A Pro League de Rainbow Six, por exemplo, tem três finais ao ano, nas quais os dois times vencedores de cada região se enfrentam diretamente.

O que me chama a atenção na decisão da Riot é que ela prefere fazer uma Fase de Entrada e “limitar” o potencial e o crescimento das regiões menores do que ter a coragem de colocar todo mundo direto na fase de grupos do evento principal. Isso é feito por motivos meio capitalistas como “ninguém vai querer ver um time latino-americano tomando um stomp de um sul-coreano”? Pode ser. Mas a longo prazo, na minha opinião, só deixa os muros das “ilhas” cada vez mais altos.

Outra sugestão é dar uma olhada no formato do The International de Dota 2 onde as equipes são divididas em dois grupos e somente uma de cada grupo é eliminada ao fim da primeira fase. Os times restantes são colocados na Chave Superior ou Inferior da próxima etapa dependendo de seu desempenho na fase de grupos, tendo mais chances de enfrentar adversários mais fortes e de crescer na competição enquanto lutam por sua sobrevivência.

Enquanto isso não acontece, continuaremos aqui no Brasil torcendo para que nosso representante consiga ir mais longe do que jamais fomos depois da implementação da Fase de Entrada e reclamando quando isso não acontece.

A Fase de Entrada do Mundial de League of Legends 2018 começa na próxima segunda-feira (1), e a KaBuM joga em 2 e 4 de outubro pelo Grupo C.