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"A forma do Brasil jogar Rainbow Six não é errada, mas está defasada", avisa Novys

O mineiro Novys é o capitão da equipe de Rainbow Six da Immortals. Reprodução/Twitter

Encarregado de comandar a Immortals em sua primeira disputa internacional de Tom Clancy’s Rainbow Six Siege, Daniel “Novys” Novy teve um verdadeiro choque de realidade durante sua estadia na Europa.

Depois do período em solo espanhol e francês, treinando e posteriormente disputando o Six Major Paris, o capitão da equipe conseguiu traçar as diferenças entre o jogo praticado pelos brasileiros dos norte-americanos e europeus - nossos grandes rivais na modalidade.

“Lá fora o nível é muito alto. A adaptação dos outros times durante as partidas, o trabalho em grupo, era algo que a gente não estava acostumado”, contou o Novys em entrevista ao ESPN Esports Brasil.

“Quando a gente bateu de frente, nos assustamos. Tentamos nos adaptar, mas não foi o suficiente. Acabou que a gente meio foi prejudicado por isso”, continuou.

Para o capitão, apesar da eliminação ainda na primeira fase, tudo o que a equipe aprendeu no torneio foi muito importante.

“Toda essa viagem foi uma bomba de experiência. Faltava algo assim para todos nós, para mantermos nosso nível de jogo. Chegamos no bootcamp pensando num nível e tomamos um susto, vimos que temos que nos dedicar muito mais”, revelou Novys.

“Aprendemos a lidar com o jogo de maneira diferente, descobrimos do que precisamos para sermos campeões, descobrimos o valor de um treinador, um analista e de estudar o jogo. Tudo isso eu e meu time observamos lá. Se essa entrevista fosse antes [da viagem], as respostas seriam diferentes”, completou.

ELIMINAÇÃO NA PRIMEIRA FASE DO SIX MAJOR

Eliminada na primeira fase, a Immortals estava no grupo C do Six Major, ao lado de Evil Geniuses, Millenium e Element Mystic. A chave era considerada a mais difícil da competição e, para Novys, já é comum estar no “grupo da morte”.

“A gente já está acostumado com grupos difíceis, então não nos surpreendemos. Óbvio que sabiamos o potencial de todos os times do grupo, mas nunca abaixamos a cabeça e achamos que não ia dar para passar de fase. Inclusive, achamos que íamos passar e ficamos desapontados com o resultado”.

O capitão aproveitou para dissecar os dois confrontos da equipe. A estreia contra a Millenium e a derrota na partida eliminatória para a Element Mystic: “Quando começamos a jogar o primeiro mapa contra a Millenium, estávamos tranquilos, mas tivemos um pequeno susto pela falta de comunicação e união logo no começo do mapa. Por mais que não havia nervosismo, a gente meio que se separou e isso era notável”.

“Acabou que o desempenho foi piorando, fomos perdendo a vantagem e parecia que os problemas iam aparecendo cada vez mais. O principal fator foi essa distância que a gente teve um do outro, criamos meio que um buraco dentro do time. Isso influenciou no resultado negativo da partida”, explicou.

Já no duelo seguinte, contra a EM, Novys destacou que em nenhum momento os jogadores se deixaram levar pelo fato dos sul-coreanos serem considerados os mais fracos da chave.

“Sempre mantivemos o respeito, é um mundial, eles são os melhores da região deles. Entramos pilhados, comemorando e tudo mais, mas a gente vacilou no primeiro mapa. Abrimos 3 a 0, eles pediram uma pausa tática e nós começamos a vacilar, ficamos nos distanciando novamente”, lembrou o capitão.

“No segundo mapa, a gente conversou e conseguimos voltar na série, impor nosso estilo de jogo. No terceiro, sabíamos que eles tinham conhecimento do nosso jogo, porque jogamos Fronteira tanto na Pro League quanto contra a Millenium. Depois de um certo ponto ficamos presos no que a gente tinha. Perder por resultado apertado foi triste, pois sabíamos que tínhamos totais condições de vencer a partida. Não tirando o ótimo desempenho deles, mas foi mais erro nosso que mérito do adversário”, completou.

DIFERENÇAS TÁTICAS ENTRE BRASIL E OUTRAS REGIÕES

Uma das várias experiências que Novys tirou da viagem à Europa foi a diferença tática do jogo brasileiro e do jogo de europeus e norte-americanos. Para o treinador, a distância nesse quesito é bem maior do que ele imaginava.

“A principal diferença é o nível de adaptação que eles têm em cima do outro time. Não de um jogador ou outro, e sim o conjunto inteiro. Os cinco se mantêm juntos e jogam como uma bola. Se juntam onde querem, sempre ajudam um ao outro, tem tempo certo para usar os equipamentos e, claro, a informação. Eles estudam muito e tem muita informação sobre nós”, contou.

Para Novys, o problema não é o individualismo do jogador brasileiro, mas sim seu jeito de trabalho diferente.

“A gente joga mais na mira, passando a informação e partindo para a eliminação. Lá eles tem a informação e sempre tem um cara junto do outro. Se você analisar, você vê que os brasileiros atacam, pegam a eliminação e já vem um [adversário] devolver. Nós não trabalhamos sozinhos, mas trabalhamos de uma forma diferente, com menos jogo coletivo e mais mira”, explicou.

INVESTIMENTO EM COMISSÃO TÉCNICA

Outro fator que abriu os olhos de Novys durante a competição foi a presença das comissões técnicas. Segundo o capitão, a equipe sentiu falta de um treinador propriamente dito e de um analista e, com certeza, vai considerar essas duas adições.

“É algo que a gente precisa. Não só os times que foram para o mundial, mas todos do Brasil. Lá fora você consegue que o treinador e o analista se dediquem mais para preparar estratégias, cuidar dos adversários. No Brasil isso é meio que defasado. A galera não quer ajudar desse jeito, quer jogar, porque a gente tem habilidade e quer mostrar isso”, revelou.

Durante a campanha do Six Major, Matheus “pX” Freire foi quem ficou na função de treinador. Em julho, ele foi retirado da escalação titular da equipe para dar vaga para o até então treinador Lucas" Yuuk" Rodrigues.

“O pX não é um treinador, é um jogador. Ele está fazendo algo que nunca fez. Era a pessoa que a gente tinha no momento para colocar. Se tivéssemos um analista e um treinador seria muito mais fácil, ele ficaria de sexto jogador e poderíamos usá-lo em jogos situacionais”, contou.

De acordo com Novys, os jogadores têm total acesso ao proprietário da Immortals, Noah Whinston e o mesmo assegurou a eles que daria toda a estrutura necessária. Questionado sobre a adição de um treinador e um analista, Novys foi misterioso.

“Por mais que esteja longe, Noah sempre quer saber do time, de mudanças e de negociações. Ele nos disse que daria tudo que precisássemos, então pode ser que tenhamos algumas novidades”, afirmou.

DEFASAGEM BRASILEIRA

Para o capitão da Immortals, nenhuma equipe brasileira foi uma decepção no Six Major Paris. Apesar da eliminação de três das quatro equipes ainda na primeira fase, Novys acredita que todos deram seu melhor.

“Falo por todos. Claro que a gente vacilou, não tem como, é um campeonato mundial. Não acho que desapontamos os brasileiros, pois jogamos sempre para representar o país e dar orgulho a nossa torcida, jogando para ganhar”, afirmou.

Apesar disso, Novys disse que há uma defasagem do cenário brasileiro em relação a Europa e aos Estados Unidos.

“Os times lá são de um nível muito alto, para gente começar a ter bons resultados fora do país, vamos ter que refazer um pouco nossa cabeça aqui no Brasil. Mudar nossa forma de lidar com o jogo. Temos que fazer isso conversando com todos os times, para o cenário mudar”, contou.

“A forma do Brasil jogar Rainbow Six não é errada, mas está defasada”, cravou Novys.

“Por mais que tenhamos ótimos jogadores e ótimos times, temos como melhorar ainda mais e ter um time campeão mundial várias vezes, assim como a G2”, completou.

RESTANTE DA TEMPORADA

Para fechar o ano de 2018 em alta, a Immortals quer manter a boa campanha na ESL Pro League latina. Atual segunda colocada, a equipe almeja uma das vagas para o evento principal, que acontecerá no Rio de Janeiro, em novembro.

“Só Deus sabe se a gente vai conseguir, mas é uma oportunidade e tanto. Vamos dar duro para nos classificarmos”, finalizou Novys.