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Riot, Ubisoft, ESL e clubes não reconhecem CBDEL como 'autoridade do esport'

Criada em 2015, a Confederação Brasileira de Desportos Eletrônicos (CBDEL) foi certificada e homologada pelo Ministério de Esportes do Brasil no fim de 2017 Reprodução

A Confederação Brasileira de Desporto Eletrônico (CBDEL) volta ser centro de mais uma polêmica. Após não enviar jogadores para as olimpíadas dos esports, em Jacarta em 2016, a “autoridade máxima dos esports” no Brasil não é reconhecida pelos principais times de esports, nem pelos desenvolvedores de jogos e organizadores de torneios do país.

A movimentação vem logo após a CBDEL conseguir ser certificada pelo Ministério dos Esportes e começar a articular conversas com outras entidades ligadas aos esportes tradicionais, como a Federação Paulista de Futebol (FPF) e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), para organização de torneios e eventos de esports.

De acordo com apuração do ESPN Esports Brasil, diversas organizações, desenvolvedoras de jogos e organizadores de eventos assinaram um ofício a título de esclarecer para a FPF e CBF que não reconhecem a CBDEL como representante ou autoridade no que se trata aos esports praticados no Brasil.

O documento enviado para CBF e FPF, ao qual a reportagem teve acesso, é assinado pelas equipes CNB, Team oNe, INTZ, paiN Gaming, Pro Gaming, T Show, KaBuM, Keyd, Brave, Big Gods e Operation Kino. Já entre as empresas de esports estão a Riot Games, Ubisoft, ESL, Boa Compra e Webedia.

O documento diz que “nenhuma das empresas, produtoras de conteúdo e clubes são membros filiados à CBDEL e nenhuma das empresas, produtoras de conteúdo e clubes aceitará que pessoas alheias e revestidas por confederações e/ou federações gozem da mais valia e do esforço realizado pelas empresas e clubes para o crescimento dos esportes eletrônicos no Brasil, bem como do formato das modalidades em geral”.

Dessa forma, fica claro que toda e qualquer movimentação de organização de torneios e campeonatos de esports realizados pela CBDEL não é sancionada pelos organizadores, desenvolvedores ou clubes.

No dia 5 de março, a CBDEL se encontrou com Manoel Flores, Diretor de Competições da CBF, para discutir “oportunidades e novidades para o desporto eletrônico” e para a organização “de eventos e chancelas mútuas levando a outros campeonatos pan-americanos e mundiais”. De acordo com o site oficial da CBDEL, esse possível torneio pode envolver o Pro Evolution Soccer em que “ambas as entidades promoverão num próximo passo ações em conjunto”.

Além do encontro na CBF, a CBDEL se reuniu com o presidente da FPF, Reinaldo Carneiro Bastos, no dia 28 de março, para “dar os primeiros passos na tratativa do desporto eletrônico em conjunto”. Entretanto, no site oficial da CBDEL, nada foi dito sobre o caso.

Em resposta à reportagem, a ABCDE, que representa os clubes de esports, preferiu não se pronunciar quanto ao assunto.

A FPF, por sua vez, afirmou que "houve um pedido para visita de cortesia, que aconteceu para a apresentação da CBDEL", mas "não há nenhum acordo entre FPF e CBDEL". A Federação também confirmou o recebimento do ofício assinado pelos clubes de esports.

A CBDEL informou que "não fará comentários adicionais sobre o posicionamento de outras entidades e empresas sobre suas atividades".

A reportagem também entrou em contato com a CBF mas, até o momento, não recebeu respostas.

SUSPEITAS ANTIGAS

A CBDEL ganhou notoriedade nacional ao organizar o Campeonato Brasileiro de Esportes Eletrônicos 2016, no qual os vencedores iriam disputar o 8º Mundial da Federação Internacional de Esportes Eletrônicos em Jacarta, Indonésia.

O Brasil conseguiu garantir vaga nas modalidades de Counter-Strike e HearthStone, porém, de acordo com os jogadores, os trâmites para passagens e despesas de hospedagem não foram encaminhados para os classificados. Na ocasião, a CBDEL informou aos participantes que o motivo para a não participação foi o momento político que o Brasil vivia na época e por uma “perda de memória” do Ministério dos Esportes.

Desde então, a CBDEL vem organizando eventos e reuniões em diversos ambientes ligados aos esportes tradicionais ou entidades reguladoras. A entidade já criou o Departamento Antidoping para o Esports (DEPADO), no qual a organização diz ser “o primeiro especializado no Brasil e no mundo”. Outra iniciativa foi a criação do Superior Tribunal de Justiça Desportiva do Desporto Eletrônico (STJDDE), no qual a CBDEL vai julgar “os casos disciplinares que acontecem na arena do jogo”.

É válido lembrar que, mesmo com esses dois departamentos, a CBDEL não tem poder de influência em nenhum dos campeonatos oficiais de League of Legends e Rainbow 6, tendo em vista que os organizadores dos torneios e as desenvolvedoras dos jogos não reconhecem a Confederação. Esses departamentos são apenas válidos para os torneios e times que se filiarem à CBDEL.

Não é possível saber quantos times já se filiaram à CBDEL, porém a entidade afirma em seu site oficial que já existem ao menos 17 federações regionais e que está certificada pelo Ministério dos Esportes.

ATUALIZAÇÃO

Em resposta à reportagem, a CBDEL esclarece que diz "Sobre as questões referentes ao 8º Mundial da Federação Internacional de Esportes Eletrônicos em Jacarta, na Indonésia, afirmamos que isso ocorreu com um ex-integrante da confederação que hoje não faz parte dos nossos quadros. Foi um caso isolado que não reflete nossas ações no presente".

Outro ponto que a entidade ressalta é que "a confederação não tem poder de influência em nenhum dos campeonatos oficiais de League of Legends e Rainbow 6. O propósito da entidade não é intervir em qualquer evento privado, de nenhum jogo específico, e sim fomentar de eventos de esports, além da promoção e a regularização do setor junto a diferentes entidades, como o Ministério do Esporte".

Por fim a CBDEL declara ter "tem filiação com 17 federações regionais, dentro e fora do Brasil, e também tem parcerias de cooperação e com outros governos e entidades nacionais de Esports, e está atuando em eventos e ações na China e em diversos países ao redor do globo. A nossa entidade busca a inclusão do esports nos meios educacional e social, ajudando atletas com seus direitos e deveres de carreira e pos-carreira, além de formação de base".