Pela primeira vez em solo brasileiro, o CEO da Immortals, Noah Whinston, não escondeu seu carinho pelo país. Viajando à negócios, o jovem empresário revelou que tem planos para o Brasil, mas desconversou sobre os boatos de contratação de Gabriel “FalleN” Toledo e companhia.
“Estou muito feliz por estar no Brasil. Desde pegar o time brasileiro de Counter-Strike em 2016, eu estive muito impressionado com o nível de paixão e dedicação que o Brasil tem, e estou muito entusiasmado para colocar alguns planos em prática”, revelou o empresário em entrevista ao ESPN Esports Brasil.
Whinston recebeu nossa reportagem em seu hotel para falar de uma série de assuntos, e, é claro, conversou sobre o histórico de sua organização com o Counter-Strike: Global Offensive brasileiro.
Confira a primeira parte do bate-papo:
ESPN Esports Brasil: É sua primeira vez aqui no Brasil, certo?
Noah Whinston: Isso. Nunca estive aqui antes.
E muita gente aqui quer saber quem é o Noah Whinston. Até onde eu sei até hoje, você tem 24 ou 23 anos, no ano passado você esteve no 30 under 30 da Forbes, e você também foi campeão nacional de debate em 2012.
Acho que você descreveu minha vida por mim. Eu acho que não preciso me introduzir mais do que isso.
É só isso ou temos mais coisas para falar?
Estou muito feliz por estar no Brasil. Desde pegar o time brasileiro de Counter-Strike, em 2016, eu estive muito impressionado com o nível de paixão e dedicação que o Brasil tem e estou muito entusiasmado para colocar alguns planos em prática, para ajudar a desenvolver o ecossistema local de uma maneira que não ajude só a comunidade brasileira, mas sirva de modelo para os fãs dos esports ao redor do globo também.
Eu acho que podemos falar dessas coisas em andamento. Recentemente não só você, mas a Immortals, a companhia, adquiriu uma marca brasileira, certo.
Não posso falar muito sobre isso, infelizmente.
Mas eu sei disso. Vocês adquiriram a MIBR.
Não vou comentar sobre isso.
Isso é uma coisa triste.
Todas as coisas no devido momento.
Quando vai ser o tempo?
Quando estivermos prontos.
Em julho, por exemplo? Quando os contratos com a SK acabarem?
Quando todas as coisas estiverem prontas.
Quando os brasileiros jogavam na Immortals, lucas1, hen1 e kNg, eram chamados de macacos. Thorin fez um tuíte desrespeitoso sobre a Luminosity quando FalleN, cold e fer jogavam lá. Você teme que essa coisa xenofóbica ou racista que pode vir dos americanos?
Eu vejo isso de uma maneira estranha, como uma oportunidade.
Desculpe te interromper, mas estranho é uma boa palavra para isso.
Entenda, eu acho que independente se um time brasileiro joga por nós ou por uma outra organização, eles vão receber comentários desrespeitosos, racistas e inaceitáveis, então, se esses jogadores estão jogando por nós, temos a oportunidade de educar os fãs, não só os nossos fãs, sobre como aquilo é inaceitável e pode ferir o ecossistema.
Queremos que os esports sejam globais, não que seja algo americano, algo europeu. Se queremos ser globais e universais, temos de receber pessoas diferentes da gente.
Criar um ambiente amigável para brasileiros assistirem um torneio americano ou para um time chinês jogar um campeonato europeu. Se tornarmos isso hostil para eles, estamos fechando todo um nível de fãs que nunca tem a oportunidade de participar em algo que todos amamos. Para fazer os esports crescerem e não tirar elas fora.
Estou com você. É importante registrar que você, alguns meses atrás como tivemos aquelas problemas na Immortals, recebeu vários comentários ruins no Twitter e nas mídias sociais.
Como você vê isso numa perspectiva brasileira, eu digo, quando você liberou o kNg por conta dos problemas no jogo ou quando você colocou o fnx no banco, por exemplo, todos os brasileiros ficaram muito bravos e ainda assim você quer manter uma relação com os brasileiros. Como você vê essa situação de problemas tanto xenofóbicos quanto de fúria?
Claro, entenda. Eu não vejo que esses comentários negativos como um problema do Brasil, nem como um problema dos esports. Esses são problemas da internet. Isso acontece em todas as comunidades e em todos os países.
Quando as pessoas vão para a internet, elas pensam que é ok dizer coisas negativas que nunca diriam para uma pessoa na vida real. Mas se eu deixasse isso me afetar, eu não estaria fazendo meu trabalho muito bem. Eu sempre tive uma opinião que se você quer que as pessoas te amem, você também terá algumas pessoas que te odeiem.
Eu sempre tentei ser transparente com as pessoas com o caso do kNg, com o caso do fnx ou sobre qualquer cenário que você queira falar sobre Counter-Strike ou sobre nossa equipe brasileira. Nós sempre tentamos ser transparentes sobre as decisões que estávamos tomando e no porquê estávamos tomando.
E se as pessoas querem nos odiar por tomar essas decisões, tudo bem. Eu acho que muitas pessoas também entenderam as decisões que tomamos e vão nos dar apoio por tomar aquelas decisões.
Para cada ameaça de morte que eu recebi nas redes sociais, eu também recebi um monte de pedidos de pessoas para contratá-las por que elas queriam trabalhar em nossa organização, certo? Existe esse balanço. Se você não consegue lidar com a negatividade, você não vai conseguir receber a positividade.
Lembrando daquela época quando você liberou o kNg, você tem algum tipo de arrependimento ou algo que olhando pra trás você faria diferente sobre as decisões que você diria de forma diferente?
Eu não diria que tenho algum tipo de arrependimento. Para ficar claro, eu não queria deixar a sensação que tenho um ressentimento com o Vito ou qualquer membro da equipe. Quase todos os jogadores de esports são muito jovens. E quem eles são em determinado momento, não quer dizer que continuarão sendo assim no futuro.
Todo mundo tem oportunidades de crescer e aprender com seus erros. Eu mesmo me incluo nisso, certo? Eu ainda sou muito jovem e já cometi diversos erros.
Eu gosto de pensar que quando erro, as pessoas entendem que eu posso aprender e crescer com isso. Então eu tento aplicar o mesmo tipo de generosidade para um jogador que possam ter feito coisas que eu não gosto.
Por isso que eu não me arrependo de ter liberado o kNg, não me arrependo das decisões que tomamos com a equipe de Counter-Strike. Mas me arrependo das consequências. Eu queria que as coisas tivessem seguido de formas diferentes. Mas, dadas as opções que eu tinha em mãos, eu acredito que tomei o único caminho que deveria ser tomado.
Quando vocês contrataram o kNg, vocês sabiam que ele poderia ser um problema? Por que, quando uma organização contrata um jogador, essa organização precisa ajudá-los a dar tudo de si para jogar com o time, certo? Mas ele não conseguiu o visto, e eu acredito que não era um problema só dele. Esse também era um problema da Immortals, concorda?
Eu não quero comentar sobre processos legais específicos, eu não acho que seja apropriado, eu acredito que o que posso dizer é que nós definitivamente reconhecemos que é um problema de responsabilidade mútua do Vito e da organização para resolver não só o problema de imigração, mas todos os times de problemas como taxas, papelada, nós tínhamos uma responsabilidade mútua para resolver esses problemas.
Como você vê a situação de zakk, steel e boltz? steel está na Liquid e está indo muito bem, fazendo o seu trabalho. Como você encara como os seus jogadores de Counter-Strike estão agora depois de todos esses problemas que eles passaram na Immortals?
O Counter-Strike está em um momento fabuloso agora. Não apenas para os meus antigos jogadores, que me deixam muito feliz. steel está indo muito bem com a Liquid, boltz está indo muito bem com a SK. Eu também estou feliz em ver o nível de competitividade no ecossistema global.
Se eu dissesse pra você há um ano que um time norte-americano seria o campeão de um major, provavelmente você não acreditaria em mim. E se eu te dissesse isso dois anos antes disso que um time brasileiro iria vencer um major você também não acreditaria em mim.
É, bem. Você tem um ponto.
Eu acredito que estamos vivendo uma era no Counter-Strike onde quase todo mundo pode vencer, os times estão muito competitivos em qualquer região do globo. São times internacionais construídos com jogadores de diferentes países, se juntando para vencer.
Você vê uma revitalização do Counter-Strike no Brasil, na América do Norte, o nascimento do Counter-Strike na Ásia. Eu acredito que Counter-Strike está se tornando um verdadeiro jogo global e tem sua popularidade crescendo em todas as regiões e dando oportunidades para que os jogadores de qualquer região causem impacto no cenário internacional.
Me conte sobre as chances da Immortals ter uma escalação brasileira novamente.
Bom, não vou falar sobre as chances de ter uma escalação em particular, mas há 100% de chance de estarmos no Counter-Strike de novo
Esse ano?
De novo.
Sem tempo, sem data?
De novo.
Só Deus sabe?
Sim.
Por que voltar ao Counter-Strike?
Acho que o Counter-Strike é um jogo muito único. É um dos maiores títulos de esports do mundo e tem muita visualização, mas por conta do modo que a Valve lida com o ecossistema, ele é muito descentralizado. E isso significa que, para nós, há muita liberdade em como lidamos com o ecossistema.
Não há apenas um torneio no qual precisamos participar, não há apenas um ecossistema do qual precisamos fazer parte. Temos a habilidade de realmente controlar nosso próprio destino, com quais organizadores de torneios queremos cooperar e o tipo de times com os quais queremos cooperar. Podemos criar algo do zero no Counter-Strike nós mesmos e com nossos parceiros de uma forma que não podemos fazer em outros jogos.
Então, essa falta de controle da Valve significa que as coisas são mais arriscadas, certo? Porque não há muito controle e não há muita centralização, mas também significa que as oportunidades são maiores.
Oportunidades para várias coisas diferentes, né? E uma dessas oportunidades é de vir ao Brasil, porque em minha opinião o Brasil tem muito espaço a ser explorado. Temos uma grande base de fãs, uma base de fãs apaixonada, como você nos disse hoje. E como você vê essas oportunidades para trabalhar aqui no Brasil? Não apenas com times brasileiros, mas com organizações e torneios. Como você vê isso?
Eu concordo completamente com você sobre as oportunidades. A base de fãs é enorme e tem muita paixão pelo esports. Porém, talvez por uma falta de acesso a capital ou talvez pelo esport não ter sido muito bem aceito pela mídia mainstream aqui se comparado com a América do Norte, uma grande parte da infraestrutura que existe na América do Norte e na Europa não existe tanto no Brasil.
Então, uma das razões por eu estar aqui no Brasil é que realmente quero usar a oportunidade para aprender sobre o que já existe e o que ainda precisa ser construído. Porque não é meu trabalho chegar aqui no Brasil e falar para os fãs brasileiros: “isso é o que vocês deveriam querer, isso é o que vocês precisam”.
Estou aqui para ouvir as pessoas que já estão trabalhando no esports no Brasil. Ouvir sobre o que elas precisam e sobre o que já estão fazendo e o que gostariam de fazer, mas não podem ainda. E tentar ser uma parte desse ecossistema ao vir e suplementar os esforços que acontecem aqui. Ter a certeza de que estamos adicionando ao ecossistema, e não tirando dele.
As coisas que você fará aqui podem ser feitas sem um time brasileiro, certo?
Há muitas coisas que estamos fazendo que podem ser feitas sem um time brasileiro, mas acho que qualquer coisa que façamos aqui no Brasil com certeza seria mais fácil se tivéssemos um time brasileiro.
Recentemente vimos o que está acontecendo com a SK Gaming, com notícias sobre o s1mple, o flamie, o TACO saindo do time, o boltz continuando no time. E uma coisa que chamou minha atenção é que o boltz ainda tem um contrato com a Immortals, eu acho. Não vi em nenhum lugar uma transação real entre a Immortals e a SK Gaming. Estou certo ou errado?
Não falamos sobre a situação específica legal. Para todos os efeitos, boltz está jogando pela SK Gaming.
OK. Por quanto tempo?
Acho que isso depende do boltz e da SK Gaming.
Como você vê o Counter-Strike alcançando a China, a Ásia? Porque é uma grande oportunidade de fazer não apenas dinheiro, mas por conta da audiência, da história e todas essas coisas. Você acha que o próximo passo para o Counter-Strike não é apenas o Brasil, mas também a América do Sul?
Bom, eu acho que o Counter-Strike já está aqui no Brasil e na América do Sul.
Sim, como um jogo, mas não como um negócio, sabe?
Claro. O que eu digo é que existe uma vida local. Não é apenas a SK Gaming, não é apenas nossa antiga escalação, não é apenas a LG. Há tantas organizações trabalhando aqui no Brasil.
Acho que é importante pensar no crescimento no esports não só como mais pessoas assistindo, mas, de novo, realmente pensando em como construímos a infraestrutura. É ótimo ter mais times que contratam escalações de Counter-Strike, eu amo isso. É muito bom ter pessoas investindo no espaço do Counter-Strike.
Mas também é importante ter certeza de que esse investimento não é apenas algo pontual. Não estamos apenas pegando um time e largando um time, estamos construindo coisas que são recorrentes. Estamos construindo estrutura, estamos construindo ecossistemas de torneios que podem recorrer e se repetirem porque são sustentáveis. Estamos construindo conteúdos que podem ajudar a trazer novos fãs para o jogo.
Estamos fazendo coisas que não são apenas para alimentar nossos próprios egos ou extrair dinheiro de patrocinadores, mas realmente encorajando a base de fãs a ser mais engajada e a participar ainda mais no que amam, e criando oportunidade para que eles façam isso.
Eu comecei uma organização porque eu era um fã de esports. Eu queria apoiar os times, mas a única coisa que eu podia fazer era assistir aos times no Twitch ou comprar uma camiseta. Se eu quisesse dar mais apoio, não havia outra coisa que eu pudesse fazer.
Então, minha visão para minha organização e minha visão sobre o que eu quero que o esport seja, é resolver esse problema. Se eu sou um fã de um time de futebol ou de basquete, há tanto que eu posso fazer para expressar isso, posso fazer uma festa antes de um jogo, posso ir assisti-lo jogar em uma arena toda semana.
Comprar camisas do time.
Sim, comprar camisas do time. Mas há tanto que eu posso fazer para ser parte dessa comunidade. E eu sinto que nos esports essas oportunidades são mais limitadas porque ainda não foram construídas. Todo mundo se focou no aspecto puramente digital dos esports, em participar online e nas mídias sociais. Isso é ótimo, mas também acho que a participação física em eventos ao vivo, a criação de comunidades que se reúnam pessoalmente e não apenas online, acho que essa é realmente a forma de criar comunidades de esport que sejam mais fiéis, que sejam mais coesas, que funcionem melhor juntas. E, talvez, apenas talvez, elas sejam menos malvadas umas com as outras.
Ok. Eu concordo com você. Bom, você tem alguma mensagem para os fãs brasileiros ou para quem está esperando pela volta da Immortals ao Counter-Strike?
Claro. Sejam pacientes.
Só isso?
Sim, é tudo que eu tenho.
