A comemoração da seleção da Argentina no último jogo contra o Japão pode ter parecido exagerada diante do público, afinal, foi apenas um empate. Mas por trás da equipe, há histórias além do que os gramados podem mostrar.
A Argentina é uma seleção amadora e o empate foi contra a equipe campeã do mundo em 2011 e vice de 2015. Esta sexta-feira (14) marca mais um desafio importante para a Argentina tentar classificação para as oitavas de final, diante da Inglaterra – mais uma das seleções favoritas.
Apesar das exibições não muito agradáveis para as ‘hermanas’ nas últimas Copas que participou, a equipe surpreendeu no grupo D e marcou seu primeiro ponto da história nos mundiais. Mas não é à toa: falta investimento. Após não se classificar para a Copa do Mundo de 2015, no Canadá, a Associação Argentina de Futebol (AFA), parou de investir no feminino.
Seguido a isso, a Fifa anunciou a equipe como “não classificada” por conta da inatividade. Seguido a isso, o treinador Carlos Borrello foi demitido – e não houve um substituto. Entre 2015 e 2017, a equipe realmente ficou inativa até que, há dois anos, a AFA organizou um amistoso no Uruguai – que não foi tão agradável.
As jogadoras viajaram pela manhã, jogaram a partida a tarde e depois voltaram para Buenos Aires – de ônibus. Após as más condições, elas escreveram uma carta pública reclamando das condições de trabalho e, seguido a isso, se recusaram a jogar pela equipe nacional até que a AFA aceitasse pagar o mínimo exigido; era apenas 8,50 dólares (cerca de 33 reais) por dia – que a federação se recusou.
O PROTESTO DE MACARENA SANCHEZ
No início deste ano, a jogadora Macarena Sanchez decidiu comprar a luta. Demitida pelo clube UAI Urquiza, ela veio à público para exigir melhores condições para a modalidade e, em seguida, entrou na justiça.
O fato tomou grandes proporções e causou problemas à Maca, que relatou ao espnW.com.br ter recebido ameaças de morte pelas redes sociais. “É grave chegar ao ponto de ser ameaçada de morte por estar simplesmente pedindo melhores condições de trabalho e melhor qualidade de vida para viver do futebol”, disse a argentina, que completou – “Não tenho pensado em parar com esta luta porque isso é importante para todas as jogadoras, não apenas para mim”.
Depois de tanta pressão advinda das jogadoras e do público em geral, a AFA anunciou profissionalização do futebol no país em abril de 2019. A federação concordou em fazer contratos profissionais de um ano para oito jogadoras, mas aceitou pagar apenas 300 dólares (cerca de 1167 reais) mensais.
A MUDANÇA CULTURAL NO PAÍS
Na Copa do Mundo da Rússia, em 2018, a AFA arranjou grandes problemas ao distribuir uma cartilha para jogadores, técnicos e jornalistas com um capítulo dedicado a ensinar os homens argentinos a ‘seduzir’ mulheres russas.
Diante muitas polêmicas, o manual, que foi divulgado nas redes sociais por jornalistas, foi retirado do evento e devolvido em seguida, mas sem as páginas machistas.
Sendo assim, a luta feminina – ou feminista, como as jogadoras preferem chamar – é bem profunda dentro da Argentina. Muito além de futebol, em 2015 foi criado o movimento #NiUnaMenos (Nem uma a menos, em tradução livre) para protestar contra o feminicídio.
Em seguida, #NiUnaMenos tomou grandes proporções e expandiu os horizontes, levando milhões de pessoas às ruas em protesto contra condições de trabalho desiguais, representações culturais e direito de escolha sobre o próprio corpo.
Dentro dos campos, o movimento fez com que jogadoras argentinas compreendessem sua atividade como um ato feminista. Estefanía Bonini, capitã da equipe, veio a público agradecer ao apoio e reconhecer a importância da manifestação: “É muito importante que as mulheres levantem as vozes e que todos saibam que somos iguais e que queremos o mesmo. Por sua vez, o futebol feminino tornou-se uma espécie de causa célebre do feminismo de base”.
Por todo contexto histórico, o ponto da Argentina não foi apenas um ponto e nem apenas o primeiro da história das Copas do Mundo para o país, mas mais que tudo, destacou a força feminina a lutar contra a oposição e lutarem até o fim por seus direitos.
