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Quem é Biniam Girmay, primeiro africano negro a vencer no Tour de France em 111 anos?

Biniam Girmay, da Eritreia, comemora no pódio durante o 111º Tour de France 2024 Getty Images

O eritreu Biniam Girmay conquistou um resultado histórico na segunda-feira (1º): bateu o pelotão e tornou-se o primeiro ciclista africano negro a vencer uma etapa nas 111 edições da história do Tour de France, a prova mais importante do ciclismo mundial.

Na entrevista pós-corrida, disse que é uma vitória de "todos os africanos" e destacou a sensação de pertencimento que o feito despertou. "Devemos estar orgulhosos agora. Somos realmente parte das grandes provas. É o nosso momento. É a nossa hora", afirmou o atleta de 24 anos de idade.

O ciclismo de estrada é um esporte predominantemente europeu, com França, Itália, Espanha e Bélgica sendo os centros mais tradicionais. Nos últimos anos, pouco a pouco foi expandindo suas fronteiras, com mais nações passando a ser representadas no pelotão. Isso inclui países africanos. No passado, atletas de antigas colônias europeias disputaram o Tour, e Custódio dos Reis e Marcel Molinés venceram etapas, mas representando a França. Mais recentemente, os sul-africanos Rob Hunter e Daryl Impey, ambos brancos, também ganharam etapas do Tour. Também houve, de 2015 a 2021, uma equipe sul-africana no pelotão.

Há ainda o caso do britânico Chris Froome. Quatro vezes vencedor do Tour de France (2013, 2015, 2016 e 2017 ), ele, também branco, nasceu e cresceu no Quênia e depois se mudou para a África do Sul, iniciando lá sua trajetória no esporte.

Quando a bicicleta chegou à Eritreia?

Girmay, no entanto, é o primeiro negro a vencer. Considerando que o Tour foi criado em 1903, há 121 anos, não é um feito para passar batido. Poucos tiveram a chance de largar na prova. Em 1914, Samuel Etienne, da ilha francesa de Martinica, no Caribe, correu, mas, na era moderna, o primeiro foi Yohann Gené, de Guadalupe, apenas em 2011. Alguns outros seguiram, de Eritreia, Etiópia, África do Sul e França. Nenhum, contudo, venceu uma etapa.

Há mais barreiras que esses atletas precisam superar. Pegando o exemplo da própria Eritreia: o país até cultivou uma cultura de ciclismo desde o final do século 19, quando a bicicleta foi levada para lá pelos italianos, com corridas no cenário local. Mas, no começo, essas disputas eram apenas para os colonizadores. Mais tarde, houve uma longa guerra de independência com a Etiópia. O fator econômico dificulta a chegada de equipamentos de primeira linha, bem como as viagens para as principais provas de base, que são na Europa. Sendo assim, como chamar a atenção das grandes equipes? Como são poucos, faltam referências que podem ajudar a alavancar uma próxima geração. Para piorar, já houve casos de vistos negados, com medo de que os ciclistas ficassem nos países como refugiados.

Como Girmay foi descoberto?

Girmay foi descoberto após triunfar em uma prova no Gabão contra o alemão André Greipel, um dos sprinters mais vitoriosos deste século. Foi levado, então, para a Europa para uma equipe francesa e teve o primeiro destaque internacional ao ser o segundo colocado no Mundial sub-23, em 2021, na Bélgica: o primeiro eritreu e o primeiro negro africano a subir ao pódio de um Mundial de estrada da da União Ciclística Internacional (UCI).

Veio então a chance na Intermarché-Wanty, um time do WorldTour (a 1ª divisão do ciclismo mundial). E novos feitos inéditos seguiram pouco a pouco. Em 2022, a primeira vitória no WorldTour, na Bélgica, e também em uma etapa do Giro d'Itália – que forma com o Tour e a Volta da Espanha o trio de provas mais importantes do ciclismo mundial. Essa vitória no Giro acabou marcada por uma infelicidade na comemoração: ao estourar o espumante no pódio, ele foi atingido no olho pela rolha da garrafa e precisou abandonar a disputa.

Girmay não vai brigar pelo título geral do Tour de France, que tem transmissão no Disney+. Ele é um sprinter, ou seja, tem explosão para brigar na chegada de uma etapa plana, mas acaba ficando para trás e perdendo tempo nas montanhas. Ciclistas como ele colocam etapas do Tour como o grande objetivo, e Girmay ainda terá mais algumas chances nas próximas 17 etapas, até o dia 21 de julho - a quarta etapa já aconteceu, nesta terça-feira (2), e o vitorioso foi o esloveno Tadej Pogacar.

Equatoriano também faz história

Outro feito inédito: o destaque da segunda-feira não ficou apenas em Girmay. Richard Carapaz tornou-se o primeiro equatoriano a liderar a classificação geral do Tour de France, logo, vestiu a cobiçada camisa amarela (dada ao líder).

Carapaz já terminou a prova em terceiro lugar no geral em 2022 e agora é o primeiro latino-americano a já ter vestido a camisa amarela do Tour, a camisa rosa do Giro d'Itália e a camisa vermelha da Volta da Espanha, todas de líder da disputa no geral.