O armador invade o garrafão, o ginásio reverbera esperando qual vai ser a ação para se desvencilhar do alto marcador que se encontra a sua frente. Hesita e pula para fazer a bandeja. Toco e um sinal de negativo com o dedo. Você já viu essa cena. Dikembe Mutombo fez isso por muitos anos na NBA.
Mas esse Dikembe é outro. É um brasileiro, de infância humilde, ex-goleiro na várzea e categoria de base e que encontrou no basquete não somente a sua profissão, mas também a razão para gostar do seu nome, antes odiado.
‘Eu odiava meu nome. As pessoas zoavam bastante, falavam que meu pai era louco de ter me dado esse nome’, conta Dikembe da Silva André. O Dikembe do Paulistano. O Dikembe do NBB.
Paulistano e São José se enfrentam pelo NBB a partir das 19h30 com transmissão AO VIVO na ESPN e WatchESPN
Tudo começou pelo amor de seu pai, Júlio, pelo basquete. Juntando cards da NBA, era apaixonado pelo esporte da bola laranja e queria que seu filho tivesse o nome de um dos grandes nomes da Liga naquela época.
No primeiro momento isso não deu certo. Nasceu uma menina, não teria como colocar Dikembe em uma garota.
‘Meu pai falou para minha mãe que o próximo seria Dikembe e ele colocou!’, revela o jogador de 2,06m, 12 centímetros a menos que o xará mais famoso.
E a história do menino foi difícil. Os pais eram separados. Não teve uma vida com seus pais presentes e tinha maiores problemas, porque a mãe trabalha no período da noite, tendo assim que ficar na casa dos vizinhos. A irmã saiu cedo de casa. Aos 12 anos foi em busca do seu sonho de ser jogadora profissional de basquete. Dikembe ficou isolado.
‘Passei dificuldade de cortar a luz e ficar a luz de vela, pedir emprestado da vizinha’, conta. ‘Ligava uma extensão e uma luz só para assistir TV, ir tomar banho na casa da minha tia porque a gente não tinha’, completa, lembrando-se da infância.
Apesar disso, Dikembe nunca passou fome, cresceu em um conjunto habitacional e via nos vizinhos, a figura de amigos e pais, que lhe ajudavam quando precisava. Isso serviu de mantra não só para o momento, mas para sua vida inteira.
‘Você sempre ajuda o próximo’.
Viu no futebol o esporte para seguir em frente e se divertir. Era goleiro quando criança e até foi eleito melhor jogador de campeonatos que disputou.
‘Tenho troféu de melhor goleiro em casa’, fala orgulhosamente. No entanto, o basquete surgiu na sua vida e nele a oportunidade de conquistar o que mais almejava: viajar o mundo.
‘A gente não tinha muito dinheiro, então com o esporte achei que poderia viajar o mundo inteiro’, revela Dikembe. E o nome antes odiado começou a servir de apoio e autoestima.
Estudou a vida do homônimo jogador da NBA, seus movimentos e até reclamou com o pai depois de saber a história e quem era Dikembe Mutombo: ‘Fiquei bravo com ele por não ter colocado o Mutombo no nome’, diz.
Mas aí um dos momentos mais emocionantes na vida de Dikembe aconteceu. Recebeu uma mensagem do ex-jogador da NBA e chorou. Não conteve as lágrimas.
‘Um dos meus sonhos da vida era encontrar ele ou saber que existe um Dikembe aqui. Ele ter mandado a mensagem para mim foi um grande passo’, revela.
O presente e o futuro no Paulistano
O Dikembe brasileiro agora é realidade e acumula prêmios individuais. Aos 17 anos já era campeão e MVP da Liga de Desenvolvimento. Aos 18, campeão do NBB, com o Paulistano.
Mutumbo continua sendo um dos ídolos, mas já não é mais o único. Rafael Hettsheimer, do Franca, e Anderson Varejão, do Flamengo, são jogadores em que o brasileiro se inspira.
‘Tenho o sonho de jogar contra o Het. Espero que quando for jogar contra Franca eu possa marcar ele. Ele não sabe que sou fã dele’, conta Dikembe.
A NBA é um sonho distante, mas possível. Antes disso, o pivô pensa em se consolidar no Brasil, subir degrau por degrau para um dia chegar a jogar na Europa ou na liga americana.
O Paulistano está na 2ª posição do NBB nesta temporada, com seis vitórias em oito jogos e a equipe campeã da temporada passada teve muitas mudanças. Dikembe sabe disso e ainda procura o seu espaço.
‘Foi uma mudança muito brusca no clube todo, mas o Régis Marrelli (técnico) soube se adaptar bem e impôs o trabalho dele também. Agora a gente já está mais entrosado e isso está fortalecendo nossa equipe’, diz.
Com 2,1 pontos em cinco minutos de média, Dikembe será importante na partida desta terça-feira.
