O torcedor brasileiro é diferente de tudo. A emoção da vitória supera qualquer coisa. A dor da derrota abre feridas. No país do futebol, sentir o melhor esporte do mundo é obrigação. E esse sentimento, tão apaixonante para quem vive o seu clube do coração com amor, cria histórias que ficam para sempre.
Vamos a Bauru, interior do estado de São Paulo. Fábio, Fernando e Luan são amigos de longa data. São-paulinos desde o berço, viram, com clareza, o clube conquistar tudo em 2005 (Paulistão, CONMEBOL Libertadores e Mundial de Clubes) e levar um tricampeonato brasileiro (2006, 2007 e 2008). Também comemoraram o troféu da Copa Sul-Americana de 2012, apesar de a final ter sido "pela metade".
Mas parou por aí. O São Paulo estacionou. Brigou para não cair no Brasileirão e foi eliminado precocemente de praticamente todos os campeonatos que disputou. Incontáveis vexames e frustrações. Trocas de técnicos, faxinas no elenco e polêmicas dentro e fora de campo. Foram anos de fato difíceis.
Em 2020, com Fernando Diniz, o São Paulo quase chegou. Foi por pouco. A equipe, comandada por Luciano e Daniel Alves, liderou e abriu grande vantagem no Brasileirão. Mas, do nada, "derreteu". O sonho do fim do jejum se transformou em frustração. De novo.
O São Paulo recomeçou novamente. Dessa vez, com Hernán Crespo como treinador. Campeão da Copa Sul-Americana com o Defensa y Justicia, o ex-centroavante, apesar da curta carreira como comandante, ganhou a torcida logo de cara. Isso porque o lema de Crespo, a frase "donde no llegan las piernas va a llegar el corazón" ("onde as pernas não chegam, o coração vai chegar"), colou na cabeça dos tricolores. E como colou.
"A frase, desde que o Crespo falou pela primeira vez na coletiva, eu tive a intenção de fazer uma tatuagem dela. Ele falou na coletiva e pensei 'se esse cara conseguir tirar a gente da fila, eu vou tatuar essa frase'", contou Fernando Teles, profissional de educação física e são-paulino desde sempre.
O início avassalador de Hernán Crespo fez com que a torcida acreditasse cada vez mais em seu trabalho. Líder do Paulistão, o São Paulo foi ao mata-mata como favorito. O fim do jejum parecia próximo. E essa possibilidade de voltar a ser campeão fez com que Fábio, Fernando e Luan começassem a elaborar uma ideia que parecia maluca. Uma promessa. Uma homenagem em forma da tatuagem.
Obrigado, @SaoPauloFC. 🏆@luansantos13_ pic.twitter.com/2h81uSe9l8
— Fernando (@fernandotelesok) May 27, 2021
"A ideia da tattoo começou perto do jogo contra o Corinthians. Foi meio em conjunto. Todo mundo falou 'eu vou, eu vou'. Mas aí eu, Fernando e Luan ficamos de fazer", explicou o tricolor Fabio Trindade Fiorini, arquiteto urbanista. "'Eu quero fazer a frase do Crespo', alguém disse no grupo de são-paulinos. Aí a diretoria mandou colocar a frase no vestiário do Morumbi, e a gente abraçou a ideia", completou.
O São Paulo foi à final do Paulistão com a chance de encerrar um incômodo jejum de 9 anos sem títulos. Do outro lado, o Palmeiras, campeão da Libertadores e da Copa do Brasil. Um time poderoso comandado por Abel Ferreira e com Rony "endiabrado" no ataque.
No jogo da ida de descisão, empate sem gols em um clássico sem muitas emoções no Allianz Parque. Ficou para o Morumbi. "Quando saiu o gol do Luan, cada um saiu correndo para um lado, gente chorando, boné voando, abraço. A felicidade foi absurda", relatou Fabio à reportagem.
"Quando aconteceu o segundo gol, foi uma explosão. Não tem como explicar. Nem consegui comemorar. Comecei a chorar. Não consegui correr! Nada! Chorei. 'Finalmente ganhamos', pensei. Era um grito que estava entalado há tanto tempo", disse.

O São Paulo foi campeão em cima do rival Palmeiras com uma vitória por 2 a 0, com gols de Luan e Luciano. Com o título, a promessa precisava ser paga. E foi. Com orgulho.
Ainda em êxtase pela conquista e o fim do jejum, Fábio, Fernando e Luan foram a um tatuador em Bauru e pediram a mesma tatuagem: a frase "donde no llegan las piernas va a llegar el corazón", de Crespo.
"A frase (do Crespo) passou a representar o São Paulo. É uma frase que eu vou levar para a minha vida, não só pelo time. Eu me identifiquei muito" Fernando Teles, 25 anos, profissional de educação física
Na parte de cima da coxa, o lema, abaixo, o minuto e um emoji representando cada gol (à esquerda, 36 minutos, com os dedos apontados para o céu de Luan; à direita, 77, com o famoso hang loose do artilheiro Luciano).
"Essa campanha do Paulistão trouxe para a gente o rumo da vitória de novo. A gente imaginava que poderia estar próximo de sair da fila. Quando o Crespo veio, com o aval do Muricy, a gente confiou no cara. E ele tem trazido muito mais do que a gente esperava. Ele trouxe o respeito, e o grupo tem mostrado garra, amor e vontade de vencer", conta Luan Prudente, empresário, que já tem outras tatuagens tricolores na pele.
E se engana quem pensa que parou por aí. Luan e Fábio garantem que vai rolar mais promessa durante a temporada. "Se for campeão da Libertadores, vou ter que atualizar. E uma Copa do Brasil, que é algo que a gente não ganhou... alguma coisa vai ter. E, se for Mundial, a gente não sabe nem o que pode ser feito... segura os meninos aqui", brincou Luan.
"Eu ainda tenho uma promessa de fazer uma tattoo se a gente ganhar a Copa do Brasil. Eu vou tatuar a taça atrás da orelha. Se Deus quiser, o Crespo traz esse troféu para a gente", prometeu Fábio, aos risos.
"Onde as pernas não chegam, o coração vai chegar", a frase do recém-chegado Hernán Crespo que virou tatuagem e foi eternizada na pele de um trio muito são-paulino de Bauru. Será que vem mais?
