<
>

Trinta segundos em Tóquio: o dia que Mike Tyson foi nocauteado e um dos maiores azarões do esporte virou lenda

Sabe quando você tem certeza, mas tanta certeza, de um resultado que é impossível um outro final? E então o destino vem galopante, sorrindo ironicamente e derruba você e sua sabedoria sem aviso prévio? Mike Tyson e o boxe sabem exatamente como é. E como sabem.

Há pouco mais de 30 anos, em 11 de fevereiro de 1990, James "Buster" Douglas entrou para a história do esporte com uma vitória inesperada em Tóquio, no Japão.

Azarão e com um cartel mediano de resultados, ele fez uma luta quase impecável, nocauteou o então invicto Tyson no décimo assalto e se tornou campeão mundial nos pesos-pesados no boxe.

Seu triunfo foi um terremoto. Motivo de alegria? Também. O que inclui o grupo de apostadores que colocou dinheiro no sucesso de Douglas. Nas casas de apostas de Las Vegas, pagava-se 42 para 1 na "impossível" vitória do lutador.

E essa é a história do documentário "42 to 1", disponível no ESPN App. Um retrato sobre quem é James "Buster" Douglas e como ele conseguiu derrotar "Iron" Mike Tyson.

Você pode ver todas estas produções e muitas outras quando e onde quiser no ESPN App.

A JORNADA

A luta foi acertada após uma sequência positiva de Douglas. E um tanto inesperada, pode-se dizer.

Aos 29 anos, ele acumulava 29 vitórias, quatro derrotas e um empate em seu cartel. Era considerado um lutador com boas habilidades técnicas. Mas lhe faltava aquele "a mais" para ser reconhecido como um dos grandes do esporte.

O maior exemplo - e que carimbou a sua carreira à época - foi a disputa pelo cinturão da Federação Internacional de Boxe, em 1987. Em luta contra Tony Tucker, Douglas dominou praticamente todo combate. No último assalto, algo aconteceu.

Jogado contra as cordas e sendo golpeado sem parar, não reagiu. Não tentou se defender. Não tentou contra-atacar. Ficou ali, como um saco de areia, inerte, apenas existindo e recebendo um soco atrás do outro. O árbitro decretou nocaute técnico, e o boxe lhe deu a palavra mais indesejada: desistiu. James Douglas desistiu da luta no último assalto.

Era um momento simbólico: decretava-se o fim de sua carreira. Mas veio a reação. Douglas dispensou o pai, William Douglas, como seu técnico - uma decisão dura, como o próprio admitiu. Um dos seus tios assumiu de vez seus treinamentos. E após seis vitórias consecutivas, ele recebeu a chance de enfrentar Tyson.

"Iron" Mike era um fenômeno. Aos 23 anos, tinha um instinto assassino no ringue. Uma energia como poucos tinham. Em 37 confrontos, eram 37 vitórias - 33 por nocaute. E vinha de seis bem-sucedidas defesas de seus três cinturões. Indiscutivelmente, o campeão dos pesos-pesados do boxe profissional.

O confronto era visto como intermediário. Já estava praticamente tudo acertado para Tyson enfrentar Evander Holyfield em junho. Esta sim era vista como a grande disputa pelos cinturões.


30 SEGUNDOS EM TÓQUIO

O histórico não deixava dúvidas: Tyson ganharia. Mais dificíl era adivinhar como seria. Nocaute com 20 segundos? Um minuto e meio? Talvez Douglas aguentasse uns quatro assaltos, estaria de bom tamanho.

A certeza de um desfecho positivo para Tyson era tamanha que os promotores buscaram realizar o confronto fora dos Estados Unidos. Em terras norte-americanas, dificilmente teriam audiência para assistir ao massacre. Nenhuma arena ficaria lotada para ver um resultado certo.

A solução? Vamos para o Japão.

Em Tóquio, Tyson viveu a semana anterior como uma estrela. Fez visitas culturais, passeou na cidade e foi perseguido por câmeras de TV e fotógrafos a cada passo. Mas, a bem da verdade, sem um "quê" de novidade: segundo reportagem feita à época pelo jornal The New York Times, a festa e a atenção tinham sido maiores na sua primeira luta em solo japonês, em 1988.

Quanto a Douglas, a excitação não era a mesma. O boxeador chegava ao país com uma tragédia nas costas. Vinte e três dias antes, sua mãe, Lula Pearl, havia morrido. Quais seriam suas reais chances?

James Sterngold, repórter que cobria o evento para o Times, descreve como a atenção para a luta era mais focada em fatores externos.

"Em esforço para adicionar um tempero, a assessoria de Tyson espalhou o boato que (Donald) Trump e (Michael) Jackson estão vindo para a cidade para assistir à luta contra o azarão James Buster Douglas (...). O assessor também deixou escapar que os Rolling Stones, que tocarão na cidade dois dias após a luta, perguntaram sobre ingressos".

Ninguém esperava algo especial.

Nos EUA, o SportsCenter disse, ironicamente, que a luta poderia ser chamada de "30 segundos em Tóquio".


EU SOU A LENDA

O estilo agressivo de Buster Douglas surpreendeu a todos no começo da luta. Com boa movimentação, não deixava Tyson respirar ou jogá-lo contra as cordas. Não estava com medo e não deixava seu rival encontrar soluções.

Apesar de conectar alguns bons golpes, Iron Mike estava dominado. Após o quinto assalto, seu olho esquerdo estava inchado. Ironicamente, seu corner não levou o equipamento apropriado para desinchar o rosto - uma demonstração de como a vitória era uma certeza.

No oitavo round, um sinal temeroso para o azarão. Tyson acertou um ótimo gancho de direita. Douglas caiu, e o árbitro abriu contagem. No "nove", ele conseguiu se levantar e na sequência, o assalto terminou. Salvo pelo tempo.

Esse seria o momento em que o favorito se recupera. Você sabe como funciona: a confiança volta, o oponente hesita e a virada vem. Uma história tantas vezes contada nos esportes. O nono assalto seria assim. Mas não foi.

Douglas voltou agressivo como antes e quase conseguiu o nocaute. No intervalo, antes do décimo assalto, soltou para o seu corner: "Eu o peguei". Era uma certeza. E que se confirmou: um golpe bem dado no rosto, e Tyson cambaleou. Mais quatro golpes se seguiram.

Tyson caiu para trás. Em uma cena de filme, seu protetor bucal voou. Tentou se levantar, mas o árbitro encerrou a luta. Nocaute. Um choque.

James "Buster" Douglas se tornava, indiscutivelmente, o campeão dos pesos-pesados do boxe profissional.

O azarão virava lenda.