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Ele era embalador de gabinetes e saiu da 4ª divisão para o São Paulo; hoje, joga no Sevilla

Contratado nesta temporada pelo Sevilla, Diego Carlos fará sua estreia por LaLiga. Antes de chegar à Espanha, o zagueiro de 26 anos rodou pela quarta divisão paulista, passou pelo São Paulo e chegou até mesmo a ter outros empregos fora da área do futebol.

Criado na cidade de Dois Córregos, interior paulista, ele vinha de uma família humilde. Seus pais eram cortadores de cana e ele ajudava no sustento da casa com o trabalho na roça e também como vendedor de picolés.

“Eu tinha uma infância muito feliz, nunca deixei de brincar ou de aproveitar as coisas mesmo com as dificuldades. Meus pais me ensinaram muito”, disse.

Na adolescência, entrou no programa de jovem aprendiz e trabalhou por um ano em uma fábrica na qual lixava, pintava e embalava gabinetes para armários.

Acostumado a jogar bola na rua, Diego um dia foi com um amigo fazer teste descalço em uma escolinha.

“Não queriam me deixar jogar, mas o técnico me emprestou a chuteira dele que era uns três números maiores que o meu pé. Ele viu que eu levava jeito , mas não poderia jogar por causa de grana. Me deixaram ficar de graça e foi onde tudo começou”, afirmou.

Ele conciliava a rotina de estudo, trabalho e futebol. Algumas vezes, o jovem contava com a compreensão do patrão para ficar alguns dias fora do serviço para fazer testes. Após ser reprovado no Guarani, ele foi aprovado com quase 17 anos no América de São José do Rio Preto.

“Lembro que eram muitos garotos, mas só seis passaram. Meu nome foi o último a ser chamado, mas só fiquei porque o preparador físico gostou de mim. Ele disse que na verdade eles iam me avaliar mais uma semana. No fim, consegui”, contou.

A partir deste momento, Diego Carlos, que estava com 17 anos, precisou abandonar o serviço da fábrica.

“Nesta época eu jogava como camisa 10 ainda no Paulista. Quando o Zeca (lateral do Internacional) chegou, virei volante e ele foi para a meia”, recordou.

Pouco tempo depois, ele despertou o interesse do Desportivo Brasil, clube de Porto Feliz-SP que pertencia à empresa Traffic. O problema é que o técnico Pita o queria em outra posição: zagueiro.

“Eu estava em dúvida porque é complicado. Todo gol que acontece a culpa é nossa (risos). Fui falar com meu pai, que foi contra eu mudar, mas mesmo assim fui para lá”, recordou.

Chegando ao Desportivo, porém, ele falava para todos que ainda era volante. Chegou até mesmo a fazer um treino assim, mas foi convencido por Pita a adotar a nova função.

Como teve pouco espaço no começo, ele chegou a sair do clube por três meses, mas foi aceito de volta. Sua chance veio quando o time foi fazer uma excursão na Europa e ele pode atuar em alguns jogos pelo sub-20.

“Eu fui muito bem, ganhei meu espaço e não saí mais. Consegui depois atuar em várias partidas pelo profissional na 4ª divisão paulista”, afirmou.

O sucesso foi imediato. Em apenas um ano, ele já estava no elenco sub-20 do São Paulo e disputando o Paulista e a Copa São Paulo de futebol júnior.

“Em quatro jogos, eu fiz dois gols e fui efetivado ao time de cima com o Lucas Evangelista e o Lucão”, afirmou.

O problema é que o elenco profissional tinha sete zagueiros em 2013. Diego não tinha muito espaço, mas chegou a ficar no banco de reservas contra a Portuguesa e foi relacionado contra o Vasco pelo Brasileiro.

“Eu estava muito feliz porque estava sendo visto. Achava que era só ter calma que poderia conseguir”, disse. Seu destino mudou quando foi chamado pelo técnico Sérgio Baresi para um duelo contra o Paraná pelo sub-20.

“Eu sofri uma lesão que me complicou. Tive que fazer a recuperação na base e vi que seria muito difícil retomar espaço no time de cima”, analisou.

Diego Carlos conversou com seu empresário e foi para Estoril, clube português que também pertencia à Traffic e jogava a 1ª divisão.

Como ainda não tinha muita experiência, o zagueiro foi emprestado por uma temporada ao time B do Porto, que jogava a divisão de acesso. Ao retornar, sua carreira deu um salto.

“Foi ótimo porque pude jogar várias partidas, marquei dois gols e vi minha história mudar”.

Contratado pelo Nantes, o brasileiro virou titular e rapidamente fez sucesso. Em seis meses, já tinha ofertas para sair e renovou contrato.

“Eu era querido pela torcida porque sempre dava o meu melhor. Mesmo quando o time não estava bem, ela me dava apoio e nunca me cobrou”, disse.

Juiz tentou agredí-lo

Em janeiro de 2018, o zagueiro viveu o momento mais inusitado de sua carreira na derrota por 1 a 0 para o PSG. Ele se chocou com o árbitro Tony Chapron, que caiu no chão e depois tentou dar um chute no brasileiro.

“Eu olhei pra ele e falei: ‘O que você fez? Como assim? Eu não estou entendendo’. Ele voltou, me deu um cartão amarelo e depois um vermelho. Eu toquei nele, para mostrar o que ele me tocou (risos)”, recordou.

Ninguém entendeu a atitude de Chapron. Logo depois, a federação da França anulou um cartão amarelo e o vermelho, liberou o atleta da punição e suspendeu o juiz por tempo indeterminado.

Em três anos como titular no Nantes, Diego Carlos teve várias situações para sair, mas acabou permanecendo na França. No fim da última temporada, ele recebeu uma oferta tentadora do Sevilla.

“Foi tudo muito rápido. O Monchi [diretor esportivo] foi muito direto comigo sobre o que gostaria para mim e os planos. Eu queria muito ir e aceitei na hora.

O brasileiro foi o segundo reforço do chamado “mago das contratações” em sua volta ao Sevilla.

“Ele é uma pessoa incrível e tem muita palavra. Ele cumpre tudo o que combina contigo e quer ver os jogadores bem”, elogiou.

O Sevilla passou por uma grande reformulação do elenco e contratou nove jogadores. Nesta temporada, a equipe irá jogar a Liga Europa (torneio que o clube já conquistou seis vezes), o Espanhol e a Copa do Rei.

“A nossa expectativa é enorme e não vejo a hora de tudo começar. Vou ter a chance de jogar por uma grande equipe em uma das ligas mais fortes do mundo”, afirmou.

Ele irá enfrentar gigantes como Real Madrid e Barcelona, que possuem alguns dos melhores jogadores do mundo.

“Trabalho no topo para fazer o meu melhor, seja quem for o adversário. Estou vivendo um sonho, mas preciso encarar um dia de cada vez. Não adianta pensar que vou marcar o Messi ou o Hazard e esquecer que temos um jogo no final de semana. Eles são fenomenais, mas preciso estar sempre concentrado. Tenho que respeitar todos”.

A estreia do Sevilla de Diego Carlos por LaLiga será neste final de semana contra o Espanyol.