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Mulheres confundidas com acusadora de Neymar procuram a Justiça, e quem repassou imagens pode até ser preso; entenda

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Vídeo mostra mulher agredindo Neymar em hotel de Paris: 'Sabe por que eu estou te batendo? Porque ontem você me agrediu' (1:06)

Jogador está sendo acusado de estupro por Najila Trindade (1:06)

C.P., 17, começou a receber diversas notificações em seu celular, a partir da tarde de sábado, dia 1º. Algumas a xingavam de 'vagabunda' ou a chamavam de 'prostituta'. Outras notificações tinham prints de fotos suas dizendo que ela era "a mulher que estava acusando Neymar de estupro".

"Familiares e amigos vieram me avisar, e aí entendi o que estava acontecendo", disse ela ao ESPN.com.br. Ainda no 3º ano do Ensino Médio, a garota de Piracicaba, interior de São Paulo, que faz postagens patrocinadas por produtos, empresas e serviços, se assustou.

"Tinha gente que ironizava, falando que eu era uma aproveitadora, tiravam sarro", diz ela, que viu seu número de seguidores dar um salto de uma hora para outra.

"Pena que pelas razões erradas, atraindo um público que não me beneficia". Atualmente, ela soma 1,1 milhão de seguidores no Instagram.

No início da divulgação do caso, ainda não se sabia o nome da mulher que acusa Neymar.

"As pessoas achavam que era eu mesma que tinha ido a Paris", diz a garota, que jamais viajou para o exterior e não pretende trabalhar como influenciadora digital por muito tempo.

"Só por mais um tempo. Pretendo estudar psicologia", revela. "Eu até pensei em sair das redes sociais, mas é meu trabalho, tenho compromissos", explica.

O pai de C.P. foi uma das milhares de pessoas a receberem as fotos. Algumas, misturadas com imagens de nudez, mas sem o rosto, dizendo tratar-se da filha.

"Por sorte, eu avisei meu pai assim que começaram as notificações, e ele não se assustou quando recebeu", conta ela.

Aconselhada por um advogado acionado pela agência Zum, com quem tem contrato desde o começo do ano, C.P. vai fazer um Boletim de Ocorrência e também gravou uma mensagem no Stories, em seu perfil no Instagram, esclarecendo não ser a acusadora.

"Toda semana, acontece algo envolvendo imagens dela, mas essa questão com o Neymar levou o problema a outras proporções", conta André Silva, 39, seu agente desde o começo do ano.

"Até minha mãe, por conhecer a C.P., veio me perguntar, após receber mensagem por Whatsapp, se era ela mesmo que havia acusado o Neymar", diz Silva.

"A grande questão é que não temos muito o que fazer, porque a questão da internet é descentralizada", diz ele. "Vamos reclamar com quem? Com o Mark Zuckerberger, para ele tirar o serviço do ar?", indaga.

Avisadas, as marcas parceiras também se manifestaram.

"Mas todas me deram apoio", revela C.P.

Mariana Castilho, 22, foi outra influenciadora a passar pelo problema. Com 780 mil seguidores, ela também viu sua imagem ser ligada à da acusadora.

A modelo fixou uma aba de stories no seu perfil com o nome "Caso Neymar", no qual explica não ter nada a ver com a história.

Em um longo texto, ela explica que estava no México em 15 de maio, data em que Neymar é acusado de ter cometido o ato.

"Em pleno 2019, e as pessoas não evoluíram ainda e atacam as outras de forma totalmente gratuita", escreveu.

"Já estou em contato com os advogados e as medidas vão ser tomadas. Isso não se faz! Jornais não procuram nem saber a veracidade das coisas. Fazem tudo a troco de mídia e views! Não se preocupam com os sentimentos de ninguém", complementou.

Sara Hardel é mais uma erradamente associada ao caso.

A paranaense chegou a ser citada por sites internacionais por seu nome verdadeiro e também fixou uma aba de stories sobre o assunto.

"Eu não sou a tal garota que fez a denúncia de estupro. Eu não uso Sara Hardel como nome artístico para me esconder. Esse é o meu nome. E, pela milésima vez, estou vindo aqui falar isso", postou ela.

"Vocês têm noção que estão usando minha imagem em sites internacionais? Conseguem entender a dimensão que um "só compartilhar" pode se tornar?", acrescentou.

"Eu já abri B.O. Estou com advogados e foi aberta uma investigação. Aconselho vocês, que pegam a imagem de qualquer pessoa e criam conteúdo, a tirarem dois minutos para pesquisarem a verdade", escreveu.

CINCO ANOS DE RECLUSÃO E R$ 100 MIL DE MULTA

Os advogados ouvidos pelo ESPN.com.br explicaram o que pode acontecer com quem cria ou divulga imagens de outras pessoas dizendo-se tratar de Najila Trindade, a mulher que está acusando Neymar.

Adriano Mendes, especialista em direito digital e proteção de dados pessoais do escritório Assis e Mendes, explica que as penas para quem divulgou fotos de outra pessoa dizendo-se tratar da acusadora de Neymar podem ser pesadas.

Patricia Peck, especialista em direito digital do PG Advogados, explica que a pessoa pode pode incorrer, além do artigo 218 C do Código Penal, nos artigos 238, 239 e 240, que tratam, respectivamente, de injúria, difamação e calúnia.

O artigo 218 C do Código Penal diz que é proibido:

"Oferecer, trocar, disponibilizar, transmitir, vender ou expor à venda, distribuir, publicar ou divulgar, por qualquer meio - inclusive por meio de comunicação de massa ou sistema de informática ou telemática -, fotografia, vídeo ou outro registro audiovisual que contenha cena de estupro ou de estupro de vulnerável ou que faça apologia ou induza a sua prática, ou, sem o consentimento da vítima, cena de sexo, nudez ou pornografia: (Incluído pela Lei nº 13.718, de 2018)."

A pena varia de um a cinco anos de reclusão.

"Quem pega a foto de uma pessoa e diz tratar-se da acusadora incorre também em calúnia, difamação e ofensa à honra", explica Adriano Mendes.

Mendes explica que há meios de se identificar quem começou a propagar a inverdade, o paciente zero. Isso não isenta de responsabilidade, contudo, quem repassa tais imagens por meio de grupos de Whatsapp, por tratar-se, afinal, de divulgação.

"Todas as pessoas que propagam estão em responsabilidade solidária com quem iniciou", diz Patrícia Peck.

A ofensa à honra, por sua vez, é passível de indenização, a ser calculada de acordo com o dano.

"No caso de uma modelo que deixa de fazer determinado trabalho ou tem de apagar seu perfil, é possível calcular qual foi o prejuízo", diz Mendes, que relata haver casos em que a multa chegou a R$ 100 mil.

Patrícia diz que, no caso da modelo C.P., que é menor de idade, é possível que o criador ou divulgador da imagem incorra até mesmo no Estatuto da Criança e do Adolescente (Artigo 241).

"Mesmo que as imagens em que haja nudez não tenham o rosto da menor, ou ainda que sejam montagens. A simples associação de um menor com pornografia já é passível de responsabilização criminal", diz.

"Se houver ameaça ou até mesmo agressão a uma dessa mulheres, é possível que, por consequência, chegue-se até à lei Maria da Penha", explica Patricia Peck.

No caso de incorrência em mais de um crime, prevalece aquele que tem a pena maior.