As entrevistas de Daniel Alves sempre rendem boas histórias.
Conhecido por não ter papas na língua, o lateral brasileiro - considerado por muitos um dos maiores da história do futebol - conversou de maneira exclusiva com o repórter da ESPN João Castelo-Branco, que perguntou sobre volta ao Brasil, torcida pelo São Paulo, saída (ou não) do Paris Saint-Germain, amizade com Neymar e a situação de Philippe Coutinho no Barcelona.
Leia os principais trechos da entrevista abaixo:
Você pensa aquelas coisas de "gostaria de, antes de parar, jogar no Brasil"?
O Brasil é uma história que eu já fiz, eu já joguei no Brasil. Não foi por tanto tempo, mas eu já fiz isso. Não diria que nunca voltaria a jogar no Brasil, nunca isso vai sair da minha boca, porque isso não existe. Sempre há a possibilidade de você jogar em um lugar ou regressar aos lugares, mas a minha intenção agora é dar continuidade à minha carreira. Não sei onde ainda, porque está acabando o meu contrato, mas a minha música preferida é a do Zeca (Pagodinho), que diz “Deixa a Vida Me Levar”.
Tinha o sonho do São Paulo uma época, né?
É o time que eu torcia, né? É mais um sonho familiar que eu acabei comprando também do que meu próprio. Porque na realidade eu sou torcedor, então ser torcedor de um time não vai mudar nunca, eu vou sempre continuar torcendo para aquele time, porque foi o time que me inspirou a ser jogador de futebol. Um dia quem sabe, não coloco datas, mas um dia quem sabe.
Você disse "deixa a vida me levar", mas você tem que tomar uma decisão para a próxima temporada. Já tem algum rumo?
Não, agora mesmo não tenho rumo. A única pista que posso dar é que estou com bastante opções. Não é uma coisa que eu goste de pensar. Eu gosto de cumprir a minha missão, tenho contrato até o final de junho com o PSG e, até então, é 200% ali, defendendo os meus conceitos e os conceitos desse clube. E que depois disso a gente sente e tome uma decisão. Se é continuar, continuarei dando o meu melhor. Se não é continuar, continuarei dando o meu melhor em outro lugar, mas sempre agradecido pelas oportunidades.
Queria te perguntar sobre o Neymar. Você é quase como um irmão mais velho, conhece ele há tanto tempo. Ele está com você aqui no time e também acaba a temporada com uma sensação de que não foi o dever cumprido como poderia ter sido.
Sem dúvida nenhuma. Eu acredito que nós somos conscientes de tudo isso, do que podemos aportar e do que não aportamos. Coincidiu também com uma nova lesão, que foge um pouco do nosso controle de poder fazer alguma coisa. Estando lesionado, o mais importante é distrair a sua mente, muito pelo o contrário do que as pessoas pensam, de quando você está machucado você tem que estar ali. Não, você não tem que estar, porque a sua energia não é o que vai melhorar aquilo ali, porque a sua energia naquele momento não está tão boa assim. Então acredito que ela faz mal para você mesmo e faz mal para os outros. Falo isso por experiência própria, porque quando eu estava machucado eu não queria ver ninguém, não queria ver meus companheiros, não queria estar lá perto deles, porque essa coisa me fazia mal, de ver o que estava acontecendo e não poder estar ali, isso não ajuda na minha recuperação. Na recuperação, o que ajuda é você estar nas melhores energias, nas melhores vibrações para que vá acelerando o processo.
Você sempre o defende com as unhas, com a sensação de que ele pode ser injustiçado pela maneira que o tratam, a imprensa e tudo mais. Mas, recentemente, naquele episódio na Copa você deu um puxão de orelha.
Não dei puxão de orelha, fui realista. Amigos são aqueles que não tentam fazer você achar que tudo está uma maravilha quando não está. A única coisa que eu tento criar é a conscientização nos meus amigos de que as suas ações, boas e ruins, refletem em muita gente, muitas pessoas e mudam muitos pensamentos. Então a gente tem que tentar sempre que as nossas ações sejam boas, porque no final é um reflexo do que você é. Eu defendo o humano, o demais não está no meu alcance, mas a parte humana eu vou defender porque eu sei da história e me considero parte da história dele, porque sou um amigo que não é bem-vindo na maioria das vezes. As pessoas estão acostumadas a você falar só o que elas querem ouvir, mas eu não considero amizade como isso, amizade é você tentar fazer as pessoas à sua volta melhores do que elas são, todos os dias.
Um cara que está tendo dias difíceis no Barcelona é o Philippe Coutinho. Como amigo dele e companheiro de profissão, o que você acha sobre isso?
Me sinto mal pelo que Coutinho está passando. Eu acho que ele tem grande qualidade, acho que ele é o jogador que se encaixa no perfil do Barça. Mas você precisa ter muita personalidade para ser bem sucedido no Barça. Porque os torcedores podem te dar um impulso positivo muito rapidamente, ou eles também podem te enterrar muito rapidamente. Como eu disse, os fãs não têm equilíbrio ... as pessoas pensam que o dinheiro vai para o jogador, e esse é o problema. 'Ah, ele custou 160 [milhões], ele custou 200, ele custou 400'. Sim, mas esse dinheiro vai para o clube, não é para uso [do jogador]. Não definimos esse preço, só temos voz no que fazemos em campo. O Barça é uma equipe muito especial, por quê? Porque para estar no Barça, você precisa ser mais do que um ótimo jogador.
Você precisa entender o que é o Barça, o jeito de jogar, as pessoas, o clube, tudo. Eu acho que o Coutinho está passando por esse processo, mas as pessoas querem resultados imediatos. Eu acho que Coutinho é um dos grandes nomes do futebol mundial, sem dúvida, ele mostrou isso com a seleção brasileira, com o Liverpool, com o Espanyol - quando ele jogou lá, jogou em um nível muito alto. Mas é mais difícil no Barça... Por quê? Porque, para ter sucesso no Barça, você precisa entender o Barça. Para alguns, isso é um processo muito rápido, não tanto para os outros. Mas você tem que viver esse processo.
Se ele quiser, tem que dar um passo adiante. Quando as pessoas não têm fé em você, você tem que dar um passo à frente, porque se você der um passo para trás, as pessoas te empurrarão e você desaparecerá. Quando você está nessa situação, você tem que dar um passo à frente e dizer: "Aqui estou eu. Eu trabalhei muito para estar aqui, isso não foi um presente ”. Foi o que eu disse o tempo todo quando as pessoas diziam: "ele não é bom o suficiente". Eu sou bom o suficiente e tenho mostrado isso de novo e de novo. Por quê? Porque o que mais me apaixona na vida são os desafios, sejam eles quais forem.
Você levaria o Coutinho para o PSG?
Eu sempre o contrataria para jogar no meu time. Mas eu não tenho o dinheiro (risos).
