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Fenômeno onipresente nos anos 1980 e 90, Atletas de Cristo chegam aos 35 anos em crise de identidade e popularidade

Quem assistiu a futebol nos anos 1990 e inícios dos anos 2000 dificilmente deixou de ver jogadores ajoelhados, apontado para os céus ou ostentando faixas e camisas com dizeres religiosos a cada gol anotado ou vitória conquistada.

Tais demonstrações não eram coincidência. Faziam parte de um trabalho organizado pelos Atletas de Cristo, entidade cristã, ligada a ideais protestantes, idealizada em 1981 e fundada oficialmente em 4 de fevereiro de 1984.

Hoje, aos 35 anos, os Atletas de Cristo perderam muito de sua influência e popularidade. As manifestações religiosas persistem. Mas os jogadores já não se aglutinam em torno de um movimento - nem contribuem financeiramente da mesma maneira.

"Há razões espirituais e circunstanciais para isso", afirmou ao ESPN.com.br Alex Dias Ribeiro, ex-piloto de F1 que foi diretor executivo dos Atletas de Cristos por mais de duas décadas. "Antigamente, eles vestiam a camisa com muito orgulho e davam o recado. Os de agora são menos eloquentes", afirma.

"Não há mais atletas tão comprometidos com a visão da missão. Existem muitos atletas cristãos, mas que encaram a fé de outro modo. Quando a primeira geração pendurou a chuteira, a gente não conseguiu formar uma segunda geração com a mesma pegada", diz ele.

"Além disso, a Fifa passou a punir manifestações religiosas em campo, e isso acabou fazendo com que os jogadores deixassem de se manifestar publicamente", diz Ribeiro.

FENÔMENO

A influência dos Atletas era tão grande que, no auge, havia mais de 100 grupos espalhados pelo País. Em 1990, uma matéria de capa da então prestigiada revista semanal Manchete estampou que o grupo era o maior fenômeno religioso da década no Brasil.

Mais de 60 países chegaram a ter células da associação.

Na conquista do tetracampeonato, nos EUA, em 1994, os Atletas de Cristo dominavam a seleção brasileira com nomes como Taffarel, Jorginho, Bebeto, Müller, Mazinho, Paulo Sérgio e Zinho.

"Quando Taffarel defendeu os pênaltis na final e apontou para o céu, aquilo tudo foi espontâneo, não era marketing. E ajudou muito a espalhar a nossa mensagem", diz Ribeiro.

Em 2002, no Penta, Lúcio, Kaká e Edmilson eram os representantes da associação.

"Teve um Palmeiras x São Paulo, nos anos 1990 em que contei: 12, dos 22 em campo, eram Atletas de Cristo", conta ele.

Mas a presença e a influência eram anteriores. Na Olimpíada de 1988, em Seul, Alex esteve comandando rodas de estudos bíblicos e orações na concentração da seleção de futebol, que conquistou a medalha de prata.

Até um jovem Romário, então com 22 anos, conhecido por seus hábitos bem mundanos, chegou a comparecer a um encontro, segundo Ribeiro contou ao ESPN.com.br.

"O Batista (zagueiro) que me contou essa", diz Ribeiro. "Num dia em que não fui, ele comandou o culto e falou sobre a Arca de Noé. Na folga seguinte, ele disse que não ia sair com o pessoal porque ia 'sair uma barca' aí e ele não queria ficar fora e, por isso, ia à nossa reunião", conta ele, aos risos.

SETE COPAS

Romário não foi o único jogador alheio ao movimento a participar dos encontros ao longo da história.

"Na Copa de 2002, um dia estávamos reunidos e o Roberto Carlos abriu a porta", conta ele. "Aí, nós ficamos naquela, convidando-o para entrar e tal, e ele entrou. Veio, sentou, fez mil perguntas. Ele é extrovertido e tal. Daqui a pouco, ele estava pregando e aconselhando já", diverte-se Ribeiro.

"Era normal que jogadores lesionados viessem nos procurar em momentos difíceis, por exemplo, em busca da cura. E a gente sempre acolhia", afirma.

Alex esteve em todas as Copas do Mundo desde 1990. Só não foi à África do Sul, em 2010, quando já estava fora dos Atletas. Acabou substituído por um jovem pastor que entrou em rota de colisão com ninguém menos que o técnico Dunga.

"Ele era jovem e não tinha traquejo para as coisas do futebol. Começou a fazer selfies, dizia que era chapa do Dunga, e ele ficou maluco com isso e proibiu os encontros", diz.

Diplomático, Ribeiro não revela como se deu o imbróglio. Mas quem levou o pastor Anselmo Reichardt Alves que desagradou a Dunga foram o auxiliar Jorginho e o capitão Lúcio. Jorginho que havia sido presidente dos Atletas de Cristo em 2004.

Em 2014, Felipão também proibiu que as reuniões acontecessem na Granja Comary, concentração da seleção brasileira, em Teresópolis, às vésperas da disputa. Mas, com a tecnologia, Ribeiro pode fazer uma "capelania à distância", enviando estudo bíblicos para aqueles que quisessem.

Embora não fale do assunto, Alex esteve também na Rússia, no ano passado. Tentando passar incógnito, ele dizia não poder comentar o que estava fazendo no país. Mas a ESPN apurou, depois, que ele esteve por lá a convite de Taffarel, treinador de goleiros da comissão do técnico Tite.

Nas viagens que fazia, Alex nunca fez parte da delegação oficial, tampouco ficava hospedados nos mesmo hotéis que o time.

"Mas eu ficava por perto, em stand by. Quando a agenda era conveniente, eles me chamavam e eu ia encontrá-los", diz ele.

As viagens de Alex e outras pessoas ligadas ao movimento eram feitas com doações de jogadores e de igrejas que acreditavam que os Atletas eram uma boa maneira de divulgar o Evangelho. A entidade jamais cobrou dízimo.

"F1 ERA SODOMA E GOMORRA"

A "missão", como seus idealizadores a definiram, foi criada pelo atacante Baltazar, ex-jogador do Grêmio, conhecido como "Artilheiro de Deus", e João Leite, então goleiro do Atlético-MG, ex-deputado federal e atualmente deputado estadual em Minas Gerais. Junto com eles, estava o publicitário Abraão Ribeiro.

Mas foi Alex Dias Ribeiro o verdadeiro criador da ideia. No fim dos anos 1970, por iniciativa própria, Ribeiro passou a pintar mensagens como "Jesus Saves" e "Cristo Salva" em seus carros e capacetes.

"O Baltazar e o João viram e pensaram: se ele consegue fazer isso correndo a 300 Km/h, a gente pode fazer algo assim aqui também", contou o ex-piloto.

Na F1, porém, Ribeiro não conseguiu influenciar muita gente. Segundo ele mesmo conta, era mais comum que ele ouvisse gozações com as pinturas no carro do que perguntas sobre o porquê de elas existirem.

"O James Hunt, por exemplo, gostava de fazer gozação", conta. "Ele me perguntava se eu podia correr na F1, com tudo que existe, se não era proibido pelo manual", diverte-se ele.

Hunt, campeão mundial em 1976, pela McLaren, era conhecido por ser um contumaz mulherengo e beberrão.

"A F1 era Sodoma e Gomorra", brinca, comparando o circo à pecadora cidade bíblica dizimada por Deus, no Velho Testamento. "Ninguém queria saber disso, não"

Em 1986, Alex deixava o automobilismo europeu e retornava ao Brasil, recebendo o convite para ser diretor executivo dos Atletas de Cristo.

Alex foi diretor do grupo por 22 anos, até 2007. Nesse período, o grupo teve presidentes. Em 1996, foi Baltazar. Em 2004, Jorginho assumia. Em 2010, foi a vez de Paulo Sérgio.

Hoje, o presidente dos Atletas de Cristo é Marcos Gravas, ex-atleta de handebol.

Já Alex Dias Ribeiro segue fazendo aconselhamento à distância com jogadores do mundo inteiro. E atua como uma espécie de conselheiro da associação.

"Tem gente com quem falo na Ucrânia, na Rússia, no mundo inteiro. A tecnologia permite isso hoje em dia", diz ele.

Alex também é ligado a Neymar, que congrega a fé cristã e protestante. Mas o ex-diretor dos Atletas de Cristo não confirma a proximidade com o jogador do PSG.