Conhecido por ser um jogador de muita raça, Pierre teve uma experiência nada comum entre os boleiros. Antes de começar a jogar, o volante com passagens por Palmeiras, Atlético-MG e Fluminense trabalhou em uma banca de jogo do bicho.
Isso ocorreu durante quatro anos quando ele era adolescente e morava em Itororó, cidade do sul da Bahia.
"Eu andava de moto recolhendo o jogo na rua e entregando os resultados. Era o que tinha para fazer na época, não tínhamos muitas opções”, disse, ao ESPN.com.br.
Por causa do trabalho, sua primeira chance no futebol veio tarde. Aos 19 anos, ele fez testes na base do Vitória.
“Eu não queria ir por causa do serviço, mas o patrão me liberou. Disse que se não passasse eu poderia voltar. Fui aprovado e fiquei por lá por seis meses, mas acabei dispensado”, lamentou.
“Eu pensei que tinha acabado tudo. Resolvi voltar para casa e trabalhar. Mas um preparador físico me indicou ao Ituano. Eu não tinha o dinheiro para a passagem, mas ele me deu”.
Pierre resolveu apostar as últimas fichas e encarou 30 horas de viagem até Itu. “Logo que cheguei, fui emprestado ao Capivariano para jogar a Copa São Paulo de 2001. Se eu fosse bem, seria contratado. Se fosse mal, não teria mais nada. Como me destaquei, fiquei no Ituano”, contou.
Poucos meses depois, ele subiu aos profissionais e conquistou o Campeonato Paulista e a Taça Mauro Ramos (atual Copa Paulista). Em 2003, foi emprestado ao Paraná para jogar o Campeonato Brasileiro, no qual permaneceu até o fim de 2006.
“Conseguimos colocar o time na Libertadores de 2007. Meu técnico naquela época era o Caio Júnior, que depois me indicou ao Palmeiras. O Cuca tentou me levar ao Botafogo, mas já estava apalavrado com o Palmeiras. Era a chance da minha vida. Foi a realização de um sonho”, recordou.
Virou o Broca no Palmeiras
Pierre chegou como um ilustre desconhecido no Palestra Itália, que tinha em seu elenco medalhões como Marcos, Edmundo e Valdívia. Mesmo assim, caiu nas graças da torcida em pouco tempo.
“A identificação foi rápida, eu tinha vindo por empréstimo de um ano e em seis meses já tinha sido comprado. Tinha que dar o meu melhor porque não queria bater num time grande e ir embora”, relatou.
Além disso, virou amigo do goleiro "São" Marcos, maior ídolo da história palmeirense.
“O pessoal falava que o Marcos era extraordinário. É um cara engraçado parceiro e gente boa. Quando você convive com ele é aquilo mesmo e ainda mais do que falaram”, garantiu.
O volante até ganhou um “carinhoso” apelido do eterno camisa 12.
“Ele estava todo preocupado que íamos jogar em Itu porque a iluminação do estádio era fraca e o gramado estava muito ruim. Eu disse: ‘Marcão, fica tranquilo que nós vamos brocar os caras (risos)”, contou.
Pierre não poderia ter errado mais em sua previsão. Com apenas 20 minutos de jogo, o volante saiu lesionado. No final, o Ituano venceu por 1 a 0 com um gol do veterano Sorato.
“O Marcão falou: ‘Porra, Pierre, você falou que a gente ia brocar os caras. Brocar o quê, rapaz? Nós tomamos brocada hoje (risos)’. Ficou essa resenha para sempre. Todo jogo ele me perguntava; ‘Hoje a gente não vai brocar os caras, né? (risos).Ele sempre me vê brinca: ‘E aí Broca, como está? Na paz?’”, afirmou.
Já Edmundo tinha uma personalidade bem diferente. De acordo com o volante, era bom não mexer com o "Animal" antes de uma partida.
“Ele era um cara mais sossegadão, na dele. Um dia antes dos jogos ele brincava demais, resenhava com todo mundo. Em dia de jogo ele ficava muito sério e não falava com ninguém. Não dava nem bom dia (risos)”, garantiu.
Uma vez, o atacante Max, que não sabia desse ritual, sentiu isso na pele. Após tentar puxar papo com o “Animal” durante uma refeição, ele sequer obteve uma resposta.
“Quando saímos para a fila do refeitório, o Max me perguntou: ‘O Edmundo está chateado comigo?’ Respondi: ‘Não. É que ele não fala com ninguém em dia de jogo’. Era impressionante o nível de concentração dele. Era absurdo. Por isso foi um craque durante toda a carreira”, elogiou.
Pierre também se diverte ao recordar o quanto o volante Wendel era "econômico".
“Pensa em um cara pão duro, era ele. Todo mundo tirava o sarro e mandava ele trocar de carro. O [ex-zagueiro] Dininho armou um cara para vender um Peugeot para ele. Deu um mês e nada do carro chegar. O pessoal achando que o cara tinha passado a perna nele”, disse.
“Um belo dia, chegou o Peugeot. Daí, 12 jogadores entraram no carro para fazer a festa. Deram volta no CT e foi algo muito marcante. Até hoje quando nos vemos lembramos dessa história. E até hoje ele é pão duro”, gargalha.
Saudades de 2008
Em 2008, o Palmeiras fez parceria com a empresa Traffic e trouxe o técnico Vanderlei Luxemburgo, além de nomes como Diego Souza, Denílson e Kléber Gladiador. A equipe alviverde faturou o Campeonato Paulista após derrotar a Ponte Preta nas finais.
“Aquele grupo até hoje me deixa saudades. Esse título foi demais. Era um ambiente muito bom e uma união bacana. O Vanderlei teve muito méritos nesse trabalho”, reconheceu.
Conhecido por ser um marcador implacável, ele fez poucos gols com a camisa alviverde. O primeiro deles foi na vitória por 3 a 1 sobre o São Caetano, no Parque Antárctica pelo Estadual daquele ano.
“Foi surreal. Todo mundo me cobrava que ia sair o gol. Engraçado que o pessoal comemorou mais do que eu (risos). Todo mundo me abraçou e fiz uma homenagem para minha filha que iria nascer”, contou.
Pierre ficou no Palmeiras até 2011. Depois disso, jogou por Atlético-MG e Fluminense. No ano passado, em duelo contra o Verdão no Allianz Parque, ele se surpreendeu com a recepção que teve mesmo sendo adversário.
“O Palmeiras marcou minha vida. A identificação com a torcida palmeirense é extraordinária. Quando entrei no estádio vi a torcida gritando meu nome e foi algo surreal. Emocionou a mim e a toda família”, afirmou.
“Até hoje é impressionante o carinho que eles têm por mim. Quando saio nas ruas em São Paulo, o torcedor não esquece. É algo muito bacana e queria agradecer por isso” finalizou o volante, que teve seu vínculo com o Fluminense encerrado no final deste ano.
