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Bob Burnquist elogia Rayssa Leal, explica novo formato do X-Games e declara sonho para o torneio: 'Fazer uma etapa em São Paulo'

O X-Games está oficialmente de cara diferente! O tradicional campeonato de esportes de ação passou por uma reformulação e terá formato novo que começou ontem, em Los Angeles, com o draft oficial dos atletas que participarão da edição de 2026, tanto no skate como no BMX.

Agora nomeado X-Games League (XGL), o torneio propõe um campeonato entre atletas e equipes: serão quatro times representando diferentes cidades (São Paulo, Tóquio, Los Angeles e Nova York) que selecionaram por meio do draft uma formação mista de 10 atletas - cinco homens e cinco mulheres, sendo pelo menos três especialistas em BMX. A partir de agora, as equipes farão três etapas - Sacramento (EUA), Chiba (Japão) e Nova Orleans (EUA) - divididas entre quatro modalidades: Vert, Street, Park e BMX Dirt. Terminadas as atividades, pontuações são somadas para os rankings individuais e coletivos da competição.

Lenda do X-Games, Bob Burnquist retorna à competição, mas dessa vez longe do skate: o brasileiro será General Manager do X-Games Club São Paulo, equipe feita para representar a tradição brasileira nos esportes de ação. No draft, em Los Angeles, Bob recebeu a quarta e a quinta escolhas, e fez questão de abrir sua lista com Gui Khury, fenômeno brasileiro do skate de apenas 17 anos, seguido de Sky Brown, japonesa da mesma idade.

No total, Bob selecionou cinco brasileiros - metade do time - sendo três homens e duas mulheres. O draft completo da equipe de São Paulo foi composto por Gui Khury (BRA), Sky Brown (JAP), Ryan Williams (AUS), Ibuki Matsumoto (JAP), Queen Saray (COL), Garrett Reynolds (EUA), Giovanni Vianna (BRA), Gabriela Mazetto (BRA), Luigi Cini (BRA) e Raicca Ventura (BRA)

Em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br, o diretor explicou mais sobre o novo formato, falou de suas pretensões para a equipe e ainda elogiou alguns nomes atuais do esporte, como Rayssa Leal e o próprio Gui Khury.


Um novo X-Games, mas não tão diferente

Falando pouco antes de subir ao palco onde seria o draft da XGL, Bob refletiu sobre o novo formato da competição. O skatista brasileiro se reaproximou da marca após o aniversário de 30 anos da competição, em que conheceu a nova direção e reencontrou velhos amigos.

Com os novos contatos, o skatista recebeu a proposta de reformulação do campeonato para 2026. A partir daí, Burnquist foi voz ativa no refinamento e nas decisões finais do que viria a ser a X-Games League. Após diversas reuniões, a novidade estaria pronta e poderia ser anunciada para o mundo, como explica Bob.

"Antes das Olimpíadas, (o X-Games) era visto e conhecido como a Olimpíada do Esporte de Ação, então ele introduziu a história das medalhas, era muito troféu. Então, a gente viveu esse momento de transição. Hoje, quando eles me apresentaram o formato, o que me pegou mais foi a simplicidade, porque às vezes a complexidade acaba matando."

"Cada área tem as suas peculiaridades, as rampas que gostam, o formato de julgamento e de competição. O que mais me marcou é que nada disso muda. Será um X-Games normal, igual, como sempre, com os individuais, os resultados, as medalhas, tudo. A diferença é uma camada de pontuação em cima disso", detalha.

Primeiro, durante as competições de cada modalidade, os atletas competirão por um ranking entre si: o primeiro levará 100 pontos, o segundo 85, o terceiro 75, até o último, que fica com 0. Com a tabela final em mãos, a equipe "herdará" a pontuação de seu atleta melhor colocado.

Isso se repetirá nas três etapas e, no final delas, um atleta de cada modalidade e um clube serão coroados como campeões.

Uma novidade maior: o draft

O draft da XGL, que começou ontem, às 22h30 (de Brasília), foi o primeiro passo para o início da nova temporada. A loteria funcionava em formato "zigue-zague", ou seja, os clubes foram selecionados de 1 a 4 para a primeira rodada. A ordem então se inverteria para a segunda, em que o quarto colocado ficaria com a quinta escolha, o terceiro com a sexta e assim por diante. O mesmo modelo se seguiria, com inversões a cada quatro escolhas, até o décimo round da noite.

Bob, naturalmente, concentrou boa parte dos brasileiros - mas não selecionou todos, já que Felipe Mota, de 19 anos, ficou com o clube de Los Angeles. Frente a isso, Bob destaca que a possibilidade de "internacionalizar" cada equipe, podendo contar com atletas de outras nacionalidades, é uma das grandes qualidades da nova competição.

Apesar de cada equipe criar certa identificação com sua cidade de origem, é possível que os "ídolos" de cada uma delas venham de todas as partes do mundo, como é o caso do Japão, Austrália e Colômbia no caso do Clube São Paulo. Os times podem, na verdade, priorizar um estilo de competição e um certo tipo de habilidade, como é o caso dos elencos de futebol. Tudo dependia de pessoas como Bob, que tomaram as decisões na noite de ontem.

"Como GM, eu tenho um certo gosto, uma visão dos skatistas. O skate nunca foi geográfico. Ele nunca foi sobre se o cara é do Brasil, vou torcer por ele. Na verdade, eu tive vários ídolos que não eram daqui. Não é sobre de onde você é, quem você é, e sim como você é em cima do skate, como você interage, qual é a sua visão. Isso é muito mais amplo", explica o diretor do clube de São Paulo.

"É interessante ver como cada GM escolhe. Eu acho que eu tenho uma certa vantagem de não escolher por estatísticas e números, porque nas estatísticas de números você perde novos talentos que podem vir", explica.

A vantagem de Bob nasce de um motivo óbvio: ele é ex-atleta e ídolo da competição, algo que alguns de seus competidores não podem dizer. Sharalee Hazen, que dirigirá a equipe de Los Angeles, é da área do marketing de atletas, enquanto Harumi Suzuki, de Tóquio, é da mídia esportiva. O único skatista que competiu com Burnquist no draft foi Steve Rodriguez, de Nova York (e que, não à toa, selecionou Nyjah Huston, um dos nomes mais badalados da noite).

"Os GMs são variados. O Steve, de Nova York, é um cara do skate, que tem uma pegada, mas as outras duas GMs, a Harumi, de Tóquio, e a Hazen, de Los Angeles, não são do meio, mas conhecem muita gente dos negócios", explica Bob.

Mas, mesmo com as quatro equipes batalhando no draft, Bob ainda enxerga espaço para crescimento. Com apenas 40 atletas selecionados, Burnquist enxerga que grandes nomes ficaram de fora, principalmente devido à estratégia necessária para a montagem de cada elenco.

"Quando você olha os mais de 182 atletas que assinaram o contrato para ter a elegibilidade de serem escolhidos, muita gente vai ficar de fora, mesmo nomes grandes, porque são quatro times. Aí tem uma galera enorme de free agents que vão competir. Então vai ter a possibilidade de alguém que não faz parte do time ganhar. Isso é bem real."

"Olha o tanto de gente que tem ali para escolher. Você vai falar assim, mas como que ele não pegou esse (atleta)? Mas, se você olhar assim, não tem muito para onde correr. Tem competições e modalidades em que a pontuação, dependendo da sua escolha, é mais garantida. E aí, em outros é mais competitivo", explica.

"O skate feminino de street é extremamente competitivo. Às vezes uma ganha, depois fica em última, aí quem venceu depois fica em quarto, então é muito competitivo. Então, ali é mais difícil de você ter uma garantia de escolha e pontos, independentemente do nome."

Uma nova geração com novas garantias

Agora concluído, o draft da X-Games League escancara um padrão muito perceptível dentro dos esportes de ação: eles são dominados por uma nova geração de jovens. Depois que nomes como o próprio Burnquist saíram do cenário, quem leva o skate adiante são os adolescentes (algumas vezes, quase crianças). Dentro do XC São Paulo, a idade média dos atletas é de 23 anos, contando inclusive com uma atleta de 14 (Ibuki Matsumoto).

No total, a equipe conta com 5 atletas abaixo dos 23 anos. E, ainda mais notável, os destaques não são necessariamente os skatistas que passaram dos trinta. As duas primeiras escolhas da equipe foram atletas de 17 anos (Gui e Sky), mostrando o protagonismo dos jovens.

Frente a suas escolhas, Bob exalta a qualidade dos novos skatistas, principalmente frente aos desafios modernos que encaram para estabelecerem suas carreiras.

"Hoje em dia, as novas gerações têm um contato direto com as redes sociais, com quem você se conecta. Então, se você gosta da Rayssa, pode seguir ela e acompanhar o mundo inteiro dela. Então tem uma conexão muito mais forte, né? Você gosta do meu skate, pode acompanhar minhas redes, isso tudo ajuda também a construir a imagem de uma maneira mais direta", pontua.

"Acaba também sendo difícil, porque, além de ter essa conexão, você também tem acesso a muita gente que não tem a menor noção. Você vê a pressão desnecessária que se coloca na Rayssa. Se ela for lá, competir e errar, vem um monte que fala: ah, mas não está treinando. Aí você tem que desligar isso", aconselha Bunrquist.

Pensando na nova geração do skate no Brasil, Bob destaca alguns nomes, como o do próprio Gui, que será seu atleta na XGL, e o de Rayssa Leal, que vem se destacando nas Olimpíadas e na SLS.

"Obviamente, eu gosto de ver a evolução da Rayssa. Ela se porta muito bem quando vai andar de skate. Ela tem uma leveza, mas ela também tem a força competitiva. E não é fácil, porque é uma pressão enorme, competições, estádios lotados ali para vê-la; eu entendo isso. Ainda assim, vejo a constante evolução, crescimento e alta performance, isso aí não é fácil de fazer", analisa Bob.

"Também dá orgulho ver a evolução do Gui Khury. Ele é impressionante em várias áreas, ainda muito novo, mas com um skate muito sólido no pé. Sempre foi assim. Ele fez uma visita na Mega Rampa anos atrás, ele era bem novinho e você já se liga na base. Então eu falei: não vai demorar muito (para ele chegar lá). Daqui a pouco vai vir. E agora você vê a evolução dele", diz Burnquist.

Além dos dois grandes destaques, Bob ainda enxerga diversos atletas vindos do Brasil, apontando o país como um dos polos atuais do skate ao lado do Japão e dos Estados Unidos. Analisando o cenário geral, Burnquist ainda elogiaria mais um atleta que ele viria a selecionar no draft em seguida.

"E, obviamente, (tem) vários outros nomes. O próprio Giovanni Vianna tem se portado muito bem, tem evoluído e tem integrado em momentos muito difíceis. É legal ver que no street não é fácil. O Filipe Gustavo, agora o Filipe Mota, mostrando um skate também técnico, novo, mais de rua, e outros nomes que vêm, que a gente nem imagina."

E essa nova geração se beneficiará em grande parte de mais uma novidade da XGL: os clubes são de propriedade privada e podem ser comparados a franquias da NBA ou da NFL. Por isso, quando um atleta é draftado, ele assina um contrato de dois ou três anos. E, com isso, claro, eles recebem dinheiro, o que é um grande diferencial do modelo histórico do skate.

Bob relembra seus tempos áureos de competição, em que a única forma financeiramente rentável de participar do X-Games em certo momento era conquistar uma das premiações do pódio.

"Se você é escolhido para fazer parte de um time, você é pago. Todos os atletas, de skate e BMX, assinam (o contrato) e ganham 30 mil dólares. E você ganha também o orçamento de viagem, avião e hotel para todos os X-Games e eventos que o X-Games quiser te levar", detalha Burnquist.

"Então isso traz um suporte que, de repente, para alguns não é necessário, mas muita gente precisa, é um orçamento que vai ajudar muito e vai fazer a diferença. Eu competi por anos e eu tinha que, de alguma maneira, ganhar o prêmio. Muitas vezes você podia competir, se machucar e o hospital custava mais do que o que você fez na premiação. Se você não se dá bem, você se ferra", relembra.

Um futuro... em São Paulo

Com a conclusão do draft na quinta-feira, a X-Games League se prepara para uma temporada com três edições dos jogos de verão. Entretanto, no anúncio do novo formato, a XGL já confirmou que terá uma edição de inverno do ano que vem, contando com esqui e snowboarding, também em três paradas na temporada, com novos clubes.

Tudo indica que a XGL pretende expandir cada vez mais a partir do novo formato, algo que é propagado também por Bob. Tendo em vista a quantidade de atletas inscritos no draft, o brasileiro afirma que mais equipes têm que ser inclusas na disputa de verão. Os sonhos do ex-skatista, entretanto, vão muito mais longe.

"Os eventos desse ano serão em lugares incríveis. Eles anunciaram New Orleans há pouco, que vai ser a grande final, e Salt Lake City e Chiba. Vai ser bacana ir para o Japão. O Clube Tóquio tem um evento em casa, então vai ser interessante ver como a galera de lá recebe o X-Games", projeta Burnquist.

"E agora é construir esse novo momento do X-Games para a gente crescer e, ano que vem, poder de repente estar no Brasil ou no ano que for, mas a gente trabalhar para poder levar o X-Games League nesse novo formato para São Paulo", torce Bob.

"Se é o Clube São Paulo, acho que eventualmente a gente botar uma etapa em São Paulo seria demais", finaliza.