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Alisson diz que pensou em suicídio e bater o carro durante depressão e conta como superou doença: 'Aceitei ajuda'

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Alisson, do São Paulo, faz relato fortíssimo sobre depressão no Bola da Vez: 'Queria ficar só trancado no quarto' (7:15)

No Bola da Vez, o campeão da Copa do Brasil pelo São Paulo deu detalhes da doença e contou como deu a volta por cima: 'Vi o que ia deixar para trás...' (7:15)

Campeão da Copa do Brasil com o São Paulo e considerado um dos grandes protagonistas das finais, Alisson é o Bola da Vez deste sábado (30), às 22h (de Brasília), com transmissão pela ESPN no Star+.

O título conquistado por Alisson coroa uma temporada de volta por cima do jogador não só com a camisa tricolor, mas com a própria vida e família. No programa apresentado por André Plihal, o meio-campista revela que lutou contra uma severa depressão e que pensou até em suicídio no momento mais difícil da doença. O relato abaixo é real e contém gatilhos, assim como o vídeo acima.

"O que aconteceu foi o seguinte: a gente perde a Sul-Americana (para o Independiente Del Valle-EQU). E acaba que eu sinto no primeiro tempo uma lesão na coxa. Só que é uma final, e eu não vou sair... pode me oferecer qualquer coisa, eu não quero sair de uma final. E acaba que a gente perde o título. E eu também não quero sair do próximo jogo seguinte, porque vão virar e vão falar 'ah, que perdeu a final, está se escondendo agora'. E eu não sou assim. Eu jogo contra o América-MG no jogo seguinte, e a gente ganha um jogo de 2 a 1. Eu faço até um gol de cabeça", lembrou.

Só que o problema na coxa de Alisson sentiu na derrota para o Del Valle seria apenas o começo de uma longa caminhada. "Durante os treinamentos (antes do jogo contra o Palmeiras), o penúltimo treinamento, faço um movimento e sinto uma dor muito forte no tendão. E acaba então que eu fico com duas lesões (na coxa e no tendão). Aí para mim acabou o ano. Os fisioterapeutas viram e falaram 'Alisson, agora vão entrar as férias, mas a gente quer que você fique aqui mais alguns dias para você tratar de tudo'".

"Eu falei 'cara, acabei comprando minhas passagens, estava tudo planejado para eu viajar. Cara, eu prometo que eu volto sem dor nenhuma, pode ficar tranquilo'. E aí eles me deram esse voto de confiança. Acabou que, se eu não treinei nesses 30 dias, foram quatro dias que eu não fiz nada, e a minha esposa falava 'amor, cuida da sua cabeça, cuida do seu corpo'. Só que como eu fiz esse compromisso, eu não queria abrir mão dele. Eu falei 'não, vou voltar zerado'", contou.

Na volta das férias, porém, sua cabeça já não era mais a mesma. "Eu pego um pouco da pré-temporada e tem um amistoso. O Rogério Ceni vira para mim e fala assim 'o que está acontecendo com você?' Eu falei 'nada está acontecendo, nada'. Aí ele falou 'Alisson, aconteceu alguma coisa, você nunca é assim'. E acaba o amistoso. Eu vou embora, tomo um banho muito rápido no CT, pego minhas coisas e vou para minha casa”.

"Eu não queria falar para minha esposa porque ela já cuida do meu filho, não queria falar com meus pais, que já têm os problemas deles, então eu não queria que eles sentissem o que eu vinha sentindo, então guardei muito. Só que à noite, do nada, virou alguma coisa na minha mente. Eu ligo para o Rui Costa (diretor-executivo do São Paulo). Ligo para ele 22h. Ligo e falo para ele 'não quero jogar futebol'", revelou.

"No mesmo dia, à noite, ele fala ‘calma, calma, o que está acontecendo?' Nesse mesmo dia, minha esposa me diz 'o que está acontecendo? Como assim você vai largar o futebol?' Falei 'amor, não aguento mais'. 'Porque você não falou para mim, não conversou comigo para te ajudar?' Eu falei 'Não, não, não quero mais, não aguento mais'", seguiu.

Alisson chegou a ter crises de ansiedade geradas pelo futebol, sem conseguir fazer nada relacionado ao esporte. "E, no dia seguinte, meu filho vai brincar de futebol. E quando eu vejo ele brincando eu começo a ter uma crise de ansiedade muito forte, meu coração começa a acelerar, eu começo a ter falta de ar e sufocar. Não conseguia ver nada de futebol. Minha esposa falou 'calma, vai ali para o canto'".

"E nisso a doutora me liga, a Nair, a psicóloga do clube, que falou 'olha, se afasta e não vê nada, calma que você vai se acalmar'. Pronto, me acalmei, eu falei ‘agora vou botar na televisão ali para ver um jogo’. Passou um tempinho, eu fui ver o jogo, não consegui. Eu entrei em desespero de novo, começou a acelerar e tudo. E eu queria ficar trancado no quarto", continuou.

"Só que a minha esposa, ela teve um episódio... ficou muito mal em Porto Alegre, então ela ficou muito mal e por conta disso ela me ajudou. Ela teve depressão, teve depressão muito forte. 'Você não vai passar o que eu passei de forma alguma. Pode levantar do quarto'. Falei 'Não tenho força para fazer nada'. Ela falou 'Vai fazer sim. Vamos ficar aqui, vamos conversar. Vamos fazer alguma coisa'", completou.

Ao iniciar o tratamento com médicos, veio o diagnóstico: "Eles (psiquiatras) falaram 'Olha, você está com um início de depressão, uma crise de ansiedade, mas calma que a gente vai cuidar'. Só que eu não via esperança nenhuma, eu me sentia muito mal. Vivi minha vida inteira com futebol, mas não conseguia ver nem meu filho brincando, então foi algo muito difícil assim para mim. Foram três, quatro semanas. Eu fiquei muito mal, sabe? Sem ver futebol, sem ver nada".

Depois de um período em casa, Alisson fez uma visita ao CT e recebeu apoio de Muricy Ramalho e Rogério Ceni. "Foi passando o tempo, eu fui sentindo que falta de algo, sabe? Aí eu falei 'eu quero dar um pulo lá no CT'. E o Muricy foi um cara espetacular comigo. Ele falou 'olha, você pode ir no CT, mas você não vai voltar agora... você vai voltar no seu tempo. A hora que você estiver realmente bem, você volta'".

"Aí eu chego no CT, o Rogério me chama, me dá um abraço, me leva para o canto para conversar e, quando eu chego no CT e entro no campo com ele, eu começo a ficar um pouco ruim, e ele vem me abraçando. Ele foi falar algumas coisasque ele já passou e tudo. Aí aacaba, eu saio e vou embora para casa", relatou.

Depois da visita, Alisson não se sentiu bem e chegou até mesmo em pensar em tirar a própria vida, mas amigos do futebol o ajudaram. "Eu falei 'não tenho condição, não estou conseguindo'. E nesse meio tempo já vem o pensamento de querer fazer alguma coisa de suicídio. Já pensava em pegar o carro, bater o carro. E daí teve um episódio que aconteceu comigo depois de um tempo... que eu liguei para um companheiro do clube pedindo ajuda... que eu queria me suicidar".

"E três companheiros me ajudaram aqui, que foi o Rafinha, o Luan e o Luciano. Luciano foi até o lugar que eu estava junto com meu empresário e junto com Mayke, do Palmeiras, eles foram até o lugar e não me deixaram fazer o que estava pensando. Acaba que o Mayke, que é meu amigo desde o Cruzeiro, não deixa eu dirigir de volta para casa", contou.

"E aí está o Luciano na porta lá de casa com a esposa dele. Aí está o Mayke com a esposa dele, a minha esposa... todos sentados assim na porta de casa, porque eles estavam com medo que eu pegasse o carro. E tinha vez que eu ia para o treino sozinho com carro e pensava em pegar o carro e bater o carro (de propósito)", continuou.

Quem mais ajudou Alisson em todos os momentos difíceis foi sua esposa. "Como eu disse, a gratidão que eu tenho pela minha esposa, o que ela fez por mim. E eu querer aceitar essa ajuda, eu buscar essa ajuda. Então eu me dispus a aceitar. Então isso acho que foi muito importante, porque como eu era muito de me fechar e não falar para as pessoas o que eu sentia... então chega um momento que você vai explodir, não tem como, você tenta ser forte, você quer demonstrar às pessoas que você é forte, mas no fundo você não é".

Alisson, com o tempo, foi se sentindo melhor. E, com isso, voltou a aparecer entre os relacionados do então técnico do São Paulo, Rogério Ceni, no começo da temporada. No Campeonato Paulista, no entanto, o jogador precisou passar uma nova "prova de fogo." Mas, dessa vez, sem recaída.

Contra o Água Santa, Alisson, que sempre treinava pênaltis, se colocou à disposição para ser um dos batedores na partida que acabou 0 a 0 no tempo normal. Mesmo confiante e recuperado dos problemas do passado, ele perdeu a cobrança. Mas não a cabeça. Já era um novo Alisson.

"Pude ver que eu tinha força, que eu estava forte. Era diferente de tudo, a prova de fogo. Querendo ou não, você erra um pênalti e é eliminado. O que a gente vinha passando, já não tinha ganhado dois campeonatos no ano passado. Naquele momento ali eu vi e falei 'não, realmente eu tenho força para passar por qualquer coisa agora'. Então acho que aquele momento ali foi o momento que eu comecei a crescer", relatou.

O grande momento de Alisson ocorreu no último domingo (24), contra o Flamengo, ao se sagrar campeão da Copa do Brasil, título inédito para o São Paulo e o seu primeiro no clube. “Meu filho foi com o cartaz que ele e minha esposa fizeram para mim. Eu começo a ver tudo, tudo o que eu passei. E ver o que eu ia deixar para trás. Hoje eu tenho uma família muito linda. Eu estou com a minha esposa desde que eu tinha 15 anos, e ela 14. Você olha isso aí (cartaz do filho escrito 'papai, vim te ver campeão')... ele é um amigo para mim, é tudo para mim”.

“Foi um momento difícil, mas que hoje eu agradeço muito. Agradeço por eles terem acreditado em mim, por terem me ajudado também. E como eu disse, hoje eu me sou um pai melhor, um marido melhor, uma pessoa melhor. Se eu puder ajudar de alguma forma ao próximo, sem dúvida eu faço”, finalizou.