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Lucas Bebê revela depressão após saída da NBA e relata deboche por doença: 'Começam a rir da sua cara'

Há um ano, Lucas Bebê estava jogando no Toronto Raptors, time que defende desde que foi selecionado com a 16ª escolha no geral pelo Boston Celtics, em 2013. Menos de 12 meses depois de deixar as quadras da NBA após não atrair interesse dos times na Liga, ele treina em São Paulo na esperança de um dia voltar ao melhor basquete do mundo.

Menos de 12 meses pode parecer pouco tempo, mas na vida de Lucas Bebê, de 26 anos, foi o suficiente para ele passar por momentos ruins, dar a volta por cima e se reencontrar. O pior desses momentos definitivamente foi um quadro de depressão sofrido pelo pivô de 2,13m desde o fim do ano passado.

"Começam a rir da sua cara e debochar pelo fato de você ter uma certa vida financeira boa e status"
Lucas Bebê

Atualmente, Bebê está sem time depois de ter rompido com o Fuenlabrada, da Espanha, por causa da depressão. O atleta chegou a colocar em dúvida se queria continuar no esporte, mas com o tratamento da doença e ajuda dos familiares e amigos, se superou.

"Eu tenho responsabilidades, tenho uma filha para sustentar, uma família pra ajudar. Sei que pessoas que dependem de mim. Então isso me ajudou a não parar. Eu sou uma pessoa jovem com sonhos futuros e isso me fez despertar e ver que eu não poderia me render. Eu deveria tirar forças de onde quer que seja para poder voltar a jogar no meu máximo nível", disse o jogador, ao ESPN.com.br.

Muitos acham que a depressão é inatingível a atletas que ganham ou já ganharam milhões e atuam no mais alto escalão do seu esporte. Mas não é assim. Ainda mais na NBA, onde várias das estrelas da Liga já admitiram ter sofrido disso.

"Por isso que eu passei de comentar sobre as minhas frustrações e tristezas. Porque eu, durante esse período, falei com algumas pessoas que não deveria, mas achando que naquele momento iriam me ajudar e as respostas foram iguais às que você disse. Começam a rir da sua cara e debochar pelo fato de você ter uma certa vida financeira boa e status, acham que você é intocável, que você não é humano. Independente de termo status e dinheiro, todos nós somos seres humanos. Pode acontecer com todo mundo. Não é porque você é famoso que pode escapar disso", completou Lucas Bebê.

"Todo mundo tem seu momento de sair, beber, mas eu passava dos limites às vezes"
Lucas Bebê

Uma das estrelas da NBA que admitiu já ter sofrido com a depressão foi DeMar DeRozan, companheiro de Bebê nos Raptors durante os quatro anos do brasileiro na liga.

"Todo mundo descobriu pela mídia. Talvez só o Lowry soubesse porque eles eram muito inseparáveis. Se você não é uma pessoa aberta como o DeMar não era. Muito gente boa, mas não era aberto que nem eu, que fala com todo mundo, é difícil você compartilhar algo desse tipo com as pessoas. Foi um espanto porque uma pessoa do nível físico, técnico e status dele a gente acaba achando que nunca vai acontecer isso. A gente nunca teve tempo de chegar e falar com ele porque ninguém sabia. E comigo também, já vinha acontecendo há um tempo, quando eu já estava fora da NBA. Lá para maio, junho, julho, já estava meio baleado. Setembro e outubro foi bem forte e aí decidi vir para o Brasil em dezembro", afirmou o pivô brasileiro.

Em sua carreira na NBA, Lucas Bebê teve médias de 3,2 pontos, 2,8 rebotes e 1 toco por partida. Ele se notabilizou principalmente por sua defesa.

Lucas Bebê não negou que, principalmente em seu tempo na Espanha, onde começou a carreira ainda como um adolescente antes de ir para a NBA, que exagerava nas festas e na bebedeira entre as partida. Hoje, afirma estar há 3 meses sem ingerir bebida alcóolica.

"Eu não sou vítima, não tenho medo de falar. Inclusive sou uma pessoa muito sincera e verdadeira que sempre assumi a responsabilidade. Inclusive sou muito parecido com um amigo meu, que é o Felipe Melo. Nós somos muito autênticos. A gente fala o que a gente pensa. Às vezes é errado, mas a gente fala a verdade. Eu nunca me escondi dos erros. Eu poderia ter tido mais oportunidades? Sim, mas talvez eu não tenha merecido. Porque todo mundo tem seu momento de sair, beber, mas eu passava dos limites às vezes. Mesmo com as coisas indo bem na minha vida. E ainda mais quando eu ia bem, não tinha ninguém que me desse um toque para parar", disse.

"Eu aprendi com a vida, quando eu fiquei desempregado agora, que eu vi que estava errado. Mesmo quando eu tomava decisões erradas, nunca fui uma pessoa ruim de grupo, pode perguntar em Toronto. Todo mundo sempre gostou de mim. Essa vida, um pouco dessa falta de ética de trabalho meio que me custou não estar na NBA hoje. Por isso as pessoas pegam no meu pé com relação à bebida, balada. Então eu aprendi que se você quer fazer isso, talvez na aposentadoria. Agora você tem que viver a vida regrada e com disciplina", completou.

"Eu saía muito. Na Espanha era um jogo por semana, diferente da NBA. Eu gostava de sair direto porque você novo, tinha dinheiro, não tinha limite. Então você ia encontrar noitada todo dia na Europa. Eu tinha 16, 17 anos, estava sozinho. Eu estava experimentando o mundo. Mas eu não sabia, não tinha essa ética de trabalho. Quando eu fui para os Estados Unidos que eu vi, aos 17, 18 anos, que uma criança de 15 já tinha uma ética de trabalho que eu nunca tive. Você vê que é mais cultural, então eu aprendi com a vida que eu estava errado".

Lucas Bebê treina em São Paulo e tem atraído sondagens de representantes da NBA. A ideia dele é estar pronto no meio do ano, quando começam os treinos das equipes, para fazer parte de uma pré-temporada na liga e regressar aos Estados Unidos. E será que ele acha que volta ao melhor basquete do mundo?

"Se você me fizesse essa pergunta há uns 3, 4 meses, eu teria dúvida. Hoje eu digo que sim. O que me faz ter a certeza de que eu vou voltar é a confiança, porque eu estou treinando, estou fazendo a coisa certa. Eu sei que hoje eu estou pronto psicologicamente para o desafio. E eu lembro que até quando eu estava na NBA eu não estava pronto. Hoje, fazendo as coisas que têm que ser feitas, vivendo a vida mais regrada de um profissional, me traz confiança", explicou.

"Eu fico sabendo que eu estou sendo sondado por alguns times. Meu trabalho é treinar e procurar performance dentro da quadra e o do meu empresário é buscar time. Eu procuro focar no meu trabalho e estar pronto para qualquer oportunidade que aparecer", disse o pivô.

Em 31 de agosto, começa o Mundial de basquete. O Brasil está no grupo F ao lado de Grécia, Montenegro e Nova Zelândia.

"Eu acho que eu poderia judar o Petrovic de alguma forma. Não só ele, mas a diretoria toda confia muito em mim. Isso me deixa muito feliz. Porém, há essa dificuldade de eu não ter clube. Eu não tive pré-temporada, foi na base de dor. Eles já estão numa crescente até chegar o Mundial. Vai me prejudica um pouco, porém se eu conseguir assinar com alguém em maio, junho, mesmo que seja para um training camp, vai me ajudar", finalizou.