Neste domingo, uma das grandes histórias do esporte chega ao fim. Falcão, considerado o maior jogador de futsal de todos os tempos, fará seu jogo de despedida da seleção brasileira, em um amistoso contra o Paraguai, na Arena Jaraguá, em Jaraguá do Sul.
E depois de 257 jogos, 399 gols e muitos títulos com a camisa amarela, com destaque para os dois Mundiais, em 2008 e 2012, sendo o último deles com muita superação, depois de acumular seguidas lesões e sofrer até mesmo com uma paralisia facial, essa história chega ao fim.
Porém, o Falcão da quadra todo mundo que acompanha esporte conhece. Mas, segundo relatos de companheiros, o camisa 12 é gigante também quando não está dando show dentro das quatro linhas. Ele, por exemplo, foi responsável pela contratação de Neto, jogador que sofreu com dois tumores, sendo um deles no cérebro, quando ele retornou às quadras após a recuperação para defender o Sorocaba.
"Eu lembro dele me ligando para voltar a jogar no Sorocaba, depois dos problemas que eu havia passado. Ele viveu isso com o pai dele, então imagino que ele tenha se sensibilizado muito mais, mas pra mim vai ficar marcado o respeito que a gente têm e esse lado humano que ele teve comigo no momento de volta, no ano passado. Quem faz essas coisas, faz pelo coração. Quando acontecem coisas pontuais assim, é legal que as pessoas também conheçam que, por trás de um esportista, de uma figura pública, existe um ser humano e talvez as pessoas confundam muito isso. Acham que o atleta tem sempre que dar o máximo, mas antes de tudo é um ser humano, que as pessoas desconhecem e acabam julgando o profissional sem conhecer o ser humano", relatou o agora ex-jogador, que se aposentou em março de 2018.
E se Falcão ajudou Neto no momento mais complicado da vida dele, Neto também participou de um drama de Falcão. No Mundial de 2012, o camisa 12 sofreu muito para jogar, mas acabou sendo recompensado na semifinal, contra a Argentina, quando marcou dois gols e garantiu a ida à final para enfrentar a Espanha.
"Ele chegou no Mundial já com uma lesão na panturrilha e isso impossibilitou ele de começar a competição jogando. Ele estava mais nervoso que o normal pelo fato de acreditar que aquele seria o último Mundial dele. Por esse motivo, ele queria tanto estar presente e isso fez com que gerasse todo aquele stress nele. Isso acabou pesando muito e acarretou com a paralisia facial", lembrou Neto, explicando o esquema especial armado para Falcão ter condições de ajudar, mesmo que não estivesse 100%.
"A princípio, a seleção deixou bem claro que o importante seria que ele jogasse nos momentos decisivos e foi exatamente o que aconteceu. Mesmo no sacrifício, ele pode nos ajudar. Ele entrava nos momentos cruciais. Quando a gente precisava. A gente não sacrificava muito com ele na parte defensiva, até porque ele não tinha condições, mas a gente sabia que em um lance ele poderia decidir pra gente. A gente se desdobrava principalmente na questão defensiva para poder liberá-lo para que ele pudesse fazer os gols decisivos. E isso aconteceu. Tanto no jogo contra a Argentina, quanto no gol decisivo de empate contra a Espanha", disse ele, recordando de um momento especial: "Logo depois que ele marca o segundo gol, na prorrogação, ele ajoelha, visivelmente emocionado e esse é o fato mais marcante daquele mundial para mim, que estava lá com ele", conta o ex-jogador, que marcou dois gols na final e, em 2012, foi eleito o melhor jogador de futsal do mundo.
"O sentimento de alegria que eu tive quando ele fez os gols contra a Argentina, deve ter sido o mesmo que ele teve quando eu fiz contra a Espanha. Nós somos dois jogadores que nunca fomos tão amigos, mas a gente sempre se respeitou ao extremo, então isso fez com que durante tantos anos a gente dividisse a quadra na seleção e também em alguns clubes. Isso é o principal. Isso é o que fica. Tanto pelo meu lado, que já parei, quanto pelo dele, que está parando com a seleção e também está se aproximando de parar pelos clubes", analisou.
Conselheiro da nova geração
No fim de sua vitoriosa carreira em clubes, Falcão defende atualmente o Magnus Futsal, de Sorocaba. Além de principal nome da equipe, ele atua também como um conselheiro dos jovens atletas. Um deles é o ala Leandro Lino, que trocou o Corinthians pelo time do interior paulista pelo sonho de atuar ao lado do camisa 12.
"O convite que ele me fez surgiu no final da temporada com o Corinthians. Eu tinha o sonho de jogar do lado dele e o pessoal da Magnus me procurou e eu não pensei duas vezes em acertar. Eu tinha esse sonho e eu queria muito poder conviver com ele e eu acabei indo para a Magnus", disse.
Parceiro no clube e na seleção brasileira, Lino ainda se espanta com os feitos do astro no dia a dia. "Ele é um cara sensacional, que me ajudou bastante. Essa convivência com ele, dia a dia, é muito bom. Tem hora que a gente nem acredita que está ao lado de seu ídolo. Dentro da quadra, você está parado para cobrar um lateral, olha para ele e ele está pedindo uma bola. Passa até um filme na cabeça. Um tempo atrás eu estava assistindo ele e hoje estou aqui, podendo passar uma bola para ele. Isso é extraordinário", espantou-se Lino.
"Quando ele está no treinamento, ele trabalha bastante, quer sempre ser o melhor, fazer as coisas boas. O jeito que tem de bater na bola, dominar uma bola, tocar uma bola, é tudo muito diferente. Não é uma coisa normal que um jogador 'normal' faz. Até um domínio que é uma coisa fácil, uma coisa boba, ele faz ficar difícil. Isso é fera mesmo", afirmou.
O ala conta que Falcão se preocupa com o futuro da modalidade no Brasil e na criação de ídolos para as novas gerações.
"Fala bastante com a gente, para a gente começar a criar uma cara, para as pessoas começarem a olhar a gente com outros olhos. Ele fala que para ele isso é muito importante, ele fala que a gente pode se tornar ídolo como ele, já que o Brasil está carente de ídolos. Então ele vê que nossa geração tem totais condições, não de suprir o que ele fez, mas de criar um vínculo aqui no Brasil e tentar se tornar um ídolo como ele foi", analisou.
Fora das quadras, Falcão é tido pelos colegas como um dos "reis da resenha". "Ele conversa bastante, brinca bastante com todo mundo. Tem liberdade também de brincar com todo mundo. Quem que não vai querer brincar com o Falcão? Ele é um cara muito brincalhão e alegra o dia a dia de todo mundo", elogiou.
Apesar de toda fama que possui, o jogador não é do tipo que gosta de levar diversos apetrechos para os jogos.
"As coisas que mais me impressionam é a simplicidade dele. Todo mundo pensa que, como ele é famoso, levaria um monte de coisa. Tem gente que leva celular, notebook, tablet e ele leva só o celular dele, com o carregador e fica numa boa. Na hora de viajar, viagem longa de ônibus, ele nem leva travesseiro. Ele é muito econômico nas coisas dele. Pelo nome dele, você acha que ele vai levar uma mala gigante, ele até leva uma mala grande, mas quando você vê não tem nada dentro", confessou.
"Ele só traz o tênis, a caneleira e é isso mesmo. Ele não tem muita frescura para isso. É um cara mais simples. Teve um dia que ele perdeu o meião, acho que esqueceu dentro do ônibus e não tinha meia para jogar. Mas aí o cara da rouparia rapidamente já providenciou um meião e ele conseguiu ir para o jogo", contou.
Na reta final da carreira, Falcão confessou para os colegas de equipe que pretende continuar no futsal mesmo depois de parar de jogar futsal.
"Ele conversa bastante, explica o que ele vai fazer. Então eu acho que ele vai mexer com gestão. No dia a dia ele conversa bastante sobre projeto de carreira, segurar a gente ao máximo aqui no Brasil, para poder criar novos ídolos. E ele não fala isso só para mim, fala também para o Marcel Rocha, o Artur, a geração do Corinthians. Então acho que ele vai ficar mais na gestão. Da seleção brasileira, ou da Magnus", finalizou.
