Kaio Jorge precisou de apenas 11 segundos para abrir a vitória de 4 a 1 do Santos sobre o Grêmio na Conmebol Libertadores. O atacante, contudo, poderia nem estar em campo, se não tivesse sido dispensado da convocação para a seleção brasileira sub-20.
Chamado por André Jardine, o santista teria disputado o amistoso contra o Peru, na terça, na Granja Comary e entraria em campo novamente nesta sexta, no mesmo local, contra o Chile. A seleção da categoria se prepara para o Sul-Americano da categoria, em fevereiro de 2021.
O Santos brigou pela dispensa de Kaio Jorge, principalmente, depois de saber do desfalque de Yeferson Soteldo, com COVID-19, contra o Grêmio. O histórico do jovem com as seleções de base, aliás, já viveu outros momentos conturbados, que o fizeram, inclusive, a ser visto como uma “joia perdida” em 2019, quando era pouco aproveitado por Jorge Sampaoli.
Campeão mundial com a seleção sub-17, Kaio Jorge sempre foi visto como grande promessa e foi alçado aos profissionais pelo próprio Cuca, ainda em sua passagem anterior pelo Santos. Com Sampaoli, porém, apesar de elogiado, o atacante jogou pouco – sete vezes.
Apesar de “encostado”, Kaio Jorge foi seguidamente vetado nas convocações das seleções de base. No início do último ano, por exemplo, Sampaoli vetou sua ida do Sul-Americano sub-17. A situação movimentou os bastidores da CBF, como contou o técnico Guilherme Dalla Dea.
“Kaio Jorge foi uma 'judiação' do Santos. Eu tentava entrar no Santos, conversar com as pessoas do Santos. Gente, pelo amor de Deus, esse menino é um jogador de total potencial de seleção brasileira, como outros que estão aí, e o treinador manda no clube de vocês. O quanto esse menino pode ser valorizado financeiramente, mas também valorizado para o clube. Ele entra dez minutos... O que que esse cara tem com esse atleta”, contou o ex-técnico da seleção sub-17, ao site “Olheiros”, se referindo a Sampaoli.
“O Branco (coordenador da base) até brincava comigo. 'Professor, esse jogador é fantasma. Você convoca, ele não vem, você convoca, ele não vem'. Foi quando o presidente falou: temos que fazer algo”, seguiu Della Dea, que atuou nos bastidores por Kaio Jorge.
“Fui me infiltrando através dos meus amigos, queria entender por que não. Essas pessoas (da base do Santos) me ajudaram a construir com o principal, que era o treinador. Não era o diretor, era o treinador que não liberava. Os caras, com jeito, foram: 'Deixa o menino ir, deixa ele experimentar’. De repente ele vai falar que não quer ir mais, ótimo, ele decide.”
Kaio Jorge chegou a ligar para o treinador após uma das convocações, como lembrou Della Dea: “Professor, o senhor não me convocou ou o Santos me cortou? Olha que ponto nós chegamos”, contou.
“Falei: 'Kaio, é o seguinte, vou ser muito honesto. pensa em você, seja egoísta, Kaio. Não vou prometer que vou te convocar, primeiro você tem que jogar. Vai jogar'. Sei que ele fez uma mexida interna, junto com empresário, pais e os dois treinadores. Ele começou a jogar na sub-23 e na sub-20”
Della Dea lembra também, contudo, que Kaio Jorge sofria sem ritmo. “Coitado. Dava dó. Nós íamos ver os jogos, nossos observadores, o meu relatório era: perdemos mais uma joia, perdemos mais um grande jogador.”
O diagnóstico, no entanto, não se confirmou, para a sorte do Santos. Com Cuca, Kaio Jorge virou peça importante do time, agora semifinalista da Libertadores. Somente contra o Grêmio, nas quartas, foram três gols, um na ida e dois na volta, tentos que não sairiam se tivesse ido à seleção sub-20.
Uma coincidência que não deixa de ser curiosa olhando para o passado recente...
